Com o acordo Mercosul–União Europeia em vigor, o momento é estratégico: vinhos italianos ganham espaço no Brasil em meio à redução gradual de tarifas e ao crescimento do consumo premium no país
A Itália desembarca em Bento Gonçalves (RS) com uma das mais expressivas delegações já montadas para uma feira vitivinícola na América Latina. A partir de 12 de maio, a Wine South America 2026 recebe 32 empresas italianas reunidas em um pavilhão organizado pela ICE – Agência para a Promoção no Exterior e a Internacionalização das Empresas Italianas no Brasil, vinculada à Embaixada da Itália. O grupo representa 14 regiões da península e carrega um portfólio de mais de 62 milhões de garrafas anuais.
A participação reflete um movimento mais amplo: o Brasil é hoje um dos mercados prioritários para o vinho italiano, e o timing da feira coincide com a entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia — fato que promete remodelar a dinâmica de importação de vinhos europeus no país nos próximos anos.
Da artesania ao grande volume: quem são as empresas
O pavilhão italiano é propositalmente plural. Reúne vinícolas boutique com produções a partir de 35 mil garrafas e grandes grupos industriais e cooperativos que superam 20 milhões de unidades por ano. O objetivo, segundo a ICE, é oferecer ao trade brasileiro — importadores, distribuidores e formadores de opinião — um recorte fiel da diversidade que define o vinho italiano contemporâneo.
As regiões representadas cobrem praticamente toda a extensão da península: Vêneto, Toscana, Campânia, Piemonte, Lombardia, Úmbria e Friuli Venezia Giulia, com presença também de Marche, Sicília, Emília-Romagna, Abruzzo, Trentino-Alto Ádige e Puglia. O portfólio transita por denominações de referência internacional — de Chianti Classico e Valpolicella a Franciacorta, Prosecco e Marsala — e abrange desde tintos estruturados até espumantes Método Clássico, brancos minerais, rosés, passitos e vinhos doces. A faixa de preço vai do segmento de entrada ao ultra-premium.
Integra o grupo também o Consorzio Vini Mantovani, entidade de tutela que representa mais de 1.700 hectares e 22 produtores associados, além de estruturas comerciais especializadas em exportação — configurando um ecossistema complementar orientado à ampliação de parcerias com o trade brasileiro.
Um mercado em aceleração

O Brasil vive um momento singular no consumo de vinhos. No primeiro trimestre de 2025, o país comercializou mais de 110 milhões de garrafas, movimentando R$ 3,9 bilhões. Projeções indicam que o mercado de vinhos pode movimentar mais de R$ 22 bilhões em 2026. Na contramão do recuo global de consumo, o Brasil registrou crescimento de aproximadamente 30% no consumo de vinho na última década, impulsionado por um perfil de consumidor crescentemente sofisticado e conectado.
Os vinhos italianos se beneficiam diretamente dessa curva. As importações de rótulos italianos totalizaram US$ 49,2 milhões em 2025, crescimento de 13,9% sobre os US$ 43,2 milhões registrados em 2024. O movimento é qualitativo, não apenas quantitativo: o preço médio dos vinhos italianos importados passou de US$ 3,98 em 2024 para US$ 4,56 em 2025 — alta de 14,6%, evidenciando a chamada premiumização do consumo.
Claudio Adolfo, representante da importadora Italy’s Wine São Paulo, aponta o que torna o Brasil singular para os produtores europeus. O empresário avalia que o mercado brasileiro combina volume, crescimento e curiosidade do consumidor — e que o papel do importador é fazer a ponte entre vinícolas tradicionais e esse novo público, trazendo rótulos com história, identidade e aderência ao paladar brasileiro.
O efeito Mercosul–UE sobre os vinhos italianos
O cenário ganhou um componente inédito em maio de 2026: após mais de 25 anos de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia começou a valer em caráter provisório, sem a necessidade de ratificação individual pelos 27 países do bloco europeu — o que acelerou a sua implementação e trouxe efeitos imediatos para alguns produtos.
Para o setor de vinhos, o impacto é direto, embora escalonado. O imposto de importação será zerado imediatamente para vinhos brancos de algumas regiões europeias. Já bebidas destiladas e vinhos tintos começarão a ter suas tarifas reduzidas de forma gradual, com eliminação total prevista em um horizonte de quatro anos para destilados.
O acordo prevê a eliminação ou redução escalonada de tarifas — do lado do Mercosul, em até 15 anos, e do lado da UE, em até 12 anos. A direção, portanto, é clara: vinhos europeus chegarão progressivamente mais competitivos ao mercado brasileiro.
A advogada Carolina Müller, sócia de aduaneiro e comércio internacional do escritório Bichara Advogados, resume o alcance da medida para os consumidores.
“Praticamente todos os produtos terão alguma redução do imposto de importação. Quase todos vão sentir algum benefício.”
O acordo traz ainda um aspecto relevante para a Itália em particular: normas de indicação geográfica protegem mais de 350 produtos de origem europeia, incluindo Prosecco, champanhe e outras denominações vitivinícolas — o que garante ao consumidor brasileiro maior clareza sobre autenticidade e origem dos rótulos.
Perspectivas de preços e expansão de consumo
A combinação de premiumização e desonerações tarifárias cria um cenário favorável para o crescimento do mercado, mas com nuances importantes. No curto prazo, a redução de preços tende a ser mais perceptível em segmentos de entrada e nos vinhos brancos — os primeiros a terem tarifas zeradas pelo acordo. Para tintos estruturados e espumantes de maior valor agregado, o benefício será progressivo e distribuído ao longo de anos.
O especialista Claudio Adolfo destaca que o posicionamento atual do mercado brasileiro prioriza identidade regional e qualidade mais do que competição por preço — o que sugere que a redução tarifária não necessariamente empurrará os vinhos italianos para o segmento de desconto, mas pode ampliar o acesso a faixas de preço intermediárias hoje pouco exploradas pelo consumidor médio.
O potencial de expansão é expressivo. O consumo de vinho no Brasil ainda gira em torno de 2,5 litros per capita ao ano — pouco mais de três garrafas por pessoa, muito abaixo da média de países com cultura vinícola estabelecida. Com cerca de 60 milhões de consumidores regulares de vinho e um histórico de 30 milhões de descendentes de italianos, especialmente no Sul do país, o Brasil representa uma base de afinidade cultural que poucas nações podem oferecer aos produtores italianos.
Tradição, sustentabilidade e novos mercados
De forte vocação exportadora, as empresas do pavilhão italiano já atuam em mercados como Estados Unidos, Japão, Reino Unido, China, Suíça e Alemanha — e enxergam o Brasil como próximo destino estratégico. A bagagem que trazem inclui tradição familiar centenária, em muitos casos conduzida por múltiplas gerações, ao lado de certificações orgânicas e protocolos de sustentabilidade como o SQNPI.
Analistas do setor destacam que o consumidor brasileiro não quer apenas um vinho barato — ele quer um vinho com alma, com identidade e com história. É exatamente esse posicionamento que os produtores italianos presentes em Bento Gonçalves têm a oferecer: diversidade de terroir, castas autóctones como Sangiovese, Aglianico, Nero d’Avola e Glera, e denominações com décadas de reputação consolidada nos principais mercados do mundo.
A Wine South America 2026 acontece entre 12 e 14 de maio, em Bento Gonçalves (RS). O Pavilhão Italiano apresenta cerca de 300 rótulos ao trade brasileiro — e chega em um momento em que o mercado, o regulatório e o perfil do consumidor convergem para uma janela de oportunidade incomum para o vinho europeu no Brasil.
