palmeira macauba

Estudo patenteado no INPI usa gordura da amêndoa de macaúba totalmente hidrogenada e abre caminho para aplicações na indústria alimentícia, cosmética e na produção de biodiesel

A manteiga de cacau é o ingrediente mais nobre — e mais caro — da cadeia produtiva do chocolate. Sua extração limitada, atrelada à volatilidade dos preços do cacau no mercado global, pressiona margens de fabricantes de todos os portes e impulsiona a busca por alternativas tecnicamente viáveis. É nesse cenário que uma pesquisa desenvolvida na Bahia chama atenção: a pesquisadora Estefânia Prates Rodrigues, professora do curso de Nutrição do Centro Universitário UniFG Bahia — integrante do Ecossistema Ânima —, criou e patenteou uma solução inédita que usa a gordura da amêndoa de macaúba totalmente hidrogenada como substituta da manteiga de cacau.

O trabalho foi desenvolvido durante o mestrado da pesquisadora e registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) sob o número 102022010779-3. Além da indústria chocolateira, a inovação apresenta potencial de aplicação em cosméticos e na produção de biodiesel, ampliando o escopo econômico da descoberta.

O que a ciência identificou

O estudo avaliou as propriedades físico-químicas e de cristalização de misturas binárias formadas pelo óleo de amêndoa de macaúba totalmente hidrogenado em diferentes proporções com a manteiga de cacau. Os resultados apontaram compatibilidade técnica entre as gorduras, o que viabiliza a substituição parcial ou total da manteiga de cacau sem comprometer características sensoriais e estruturais essenciais do chocolate — como sabor, textura e comportamento de fusão.

A hidrogenação total, diferentemente da hidrogenação parcial banida por gerar gordura trans, é um processo de modificação lipídica que não produz ácidos graxos trans.

Trata-se de uma rota tecnológica emergente, ainda pouco explorada comercialmente, que transforma óleos insaturados em gorduras sólidas e estáveis sem o passivo sanitário associado à hidrogenação convencional.

A pesquisadora Estefânia Rodrigues destaca a dimensão tecnológica da descoberta e o contexto regulatório que a torna relevante para a indústria de óleos e gorduras:

“É uma grande alegria ver esse avanço ganhar forma. Trabalhamos com um substituto de manteiga de cacau em chocolates, o óleo da amêndoa da macaúba totalmente hidrogenado, que hoje está sendo uma grande promessa como alternativa dentro da indústria de óleos e gorduras. Para isso, avaliamos as propriedades físico-químicas e de cristalização de misturas binárias.”

O banimento da gordura trans em 2021 criou uma lacuna técnica relevante para formuladores de chocolate. A professora Estefânia Rodrigues aponta que a hidrogenação total surge como resposta direta a esse vazio:

“A gordura trans foi banida da alimentação humana em 2021. Por isso, essa é uma descoberta com potencial tecnológico relevante, que também está em processo de licenciamento. O uso da hidrogenação total como processo de modificação lipídica ainda é recente e abre novas possibilidades para o desenvolvimento de produtos mais seguros e inovadores.”

A macaúba: matéria-prima estratégica do Brasil

A macaúba (Acrocomia aculeata) é uma palmeira oleaginosa nativa da América Tropical com presença marcante no Brasil. Ela é nativa das savanas, cerrados e florestas abertas da América Tropical, com ocorrência natural desde o México até a Argentina, passando por Antilhas, Costa Rica, Paraguai e Brasil — os países de maior abundância. No Brasil, é considerada uma das palmeiras de maior dispersão, sendo encontrada em praticamente todas as regiões do país. Os estados que apresentam maior concentração são Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Tocantins e Ceará.

Do ponto de vista agronômico, a macaúba se destaca pela produtividade oleaginosa excepcional. Trata-se de uma palmeira capaz de produzir até 5 toneladas de óleo por hectare, ofertando matéria-prima para combustíveis renováveis, alimentos, cosméticos e medicamentos. Para efeito de comparação, enquanto a soja produz cerca de 500 litros de óleo vegetal por hectare, a macaúba rende aproximadamente 2.500 litros no mesmo espaço produtivo, demandando cinco vezes menos área plantada.

A planta é perene, resiste bem a solos degradados e ao déficit hídrico, e pode ser plantada em praticamente todo o mapa brasileiro — além dos estados do Cerrado, pode ser vista em Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Amazonas, Roraima, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Bahia. Essa amplitude geográfica é uma vantagem competitiva em relação ao dendê, que exige umidade elevada e fica restrito às faixas equatoriais.

Produção atual e potencial de crescimento

A macaúba ainda está em fase de domesticação e transição do extrativismo para o cultivo comercial organizado. O volume de óleo produzido atualmente é modesto em escala industrial, mas o cenário está mudando rapidamente. A Embrapa publicou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a cultura da macaúba no Brasil, instrumento que credencia tecnicamente o cultivo em escala e orienta o planejamento de plantios comerciais.

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) investe desde 2006 no mapeamento e domesticação da macaúba no Brasil e em outros países do continente, com o objetivo de oferecer material genético de alta performance ao setor produtivo. Estudos apontam que, com melhoramento genético, a produtividade pode chegar até oito toneladas de óleo por hectare.

Empresas que já plantam macaúba no Brasil

O interesse privado pelo cultivo da macaúba cresceu de forma expressiva nos últimos anos, especialmente em função da demanda por biocombustíveis sustentáveis. Grandes empresas e startups estão investindo na macaúba. Durante a COP28, a Acelen Renováveis anunciou um investimento de R$ 10 bilhões no Brasil para produzir combustível sustentável para aviação (SAF) a partir da macaúba. Startups como S.Oleum e Inocas também conduzem projetos ambiciosos para plantar centenas de milhares de hectares no país.

A Acelen Renováveis — ligada ao fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala Capital — é a maior aposta do setor. O plano prevê o cultivo de 180 mil hectares, sendo 20% em parceria com pequenos produtores pelo programa Acelen Valoriza. O complexo Acelen Agripark, com 138 hectares e R$ 314 milhões em investimentos, tem capacidade para produzir 10,5 milhões de mudas por ano e foi responsável pela primeira extração industrial do óleo de macaúba.

A startup Inocas, com sede em Patos de Minas (MG), já tem mais de 2 mil hectares plantados em sistema silvipastoril, integrando macaúba à pecuária em pastagens degradadas. A empresa pretende expandir para mais 9 mil hectares com novos parceiros e tem financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o projeto-piloto no Alto do Paranaíba. A S.Oleum, outra startup com atuação no setor, conta com o maior banco de germoplasma de macaúba do Brasil e conduz projetos genéticos para elevar a produtividade da espécie. Já a Acros, startup sediada em Serra Negra (SP), produz 1 milhão de mudas de macaúba por ano e tem capacidade instalada para chegar a 5 milhões de mudas anuais.

A macaúba além do Brasil

A macaúba possui ampla distribuição geográfica, com ocorrência natural desde o México até a Argentina. Devido à crescente demanda por seus produtos, o cultivo da macaúba se expandiu para países da América Latina, como o Paraguai, onde é conhecida como Mbokaja e tem ampla presença na região leste do país, principalmente em propriedades de pequenos produtores. A Embrapa Agroenergia e a Universidade Nacional de Assunção (UNA), no Paraguai, desenvolvem em parceria processos para extração do óleo de macaúba, tendo obtido resultados positivos em laboratório com aumento de volume superior a 50% em relação aos métodos convencionais.

O interesse global pela macaúba também cresce fora da América Latina. O Instituto Fraunhofer, da Alemanha, conduz projetos em parceria com o IAC e o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) para desenvolver tecnologias de fracionamento do fruto da macaúba, com participação de 15 parceiros industriais e de pesquisa do Brasil e da Alemanha. Ainda assim, a produção comercial estruturada para abastecimento de cadeias industriais como a de chocolates permanece concentrada no Brasil, que detém o maior potencial de cultivo e a infraestrutura de pesquisa mais avançada para a espécie.

Patente e próximos passos

Além de docente, Estefânia Rodrigues é tecnóloga em Agroindústria, mestra e doutoranda em Tecnologia de Alimentos. A inovação patenteada está em processo de licenciamento — o que pode abrir caminho para parcerias com a indústria alimentícia interessada em usar matéria-prima nacional, com menor custo e perfil lipídico tecnicamente adequado. Para a cadeia de chocolates, isso representa uma alternativa relevante num momento em que os preços da manteiga de cacau seguem em patamar historicamente elevado e a pressão por formulações sem gordura trans é cada vez maior.


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