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Kepler Weber aponta que o país não tem onde guardar mais de 135 milhões de toneladas por safra, enquanto EUA e Argentina guardam dentro das fazendas até 65% e 40% da produção, respectivamente

O Brasil produz mais grãos a cada safra e bate recordes seguidos. Mas essa mesma abundância expõe uma fragilidade estrutural que custa caro ao país: não há onde guardar o que se colhe. Na temporada 2025/26, a estimativa é de produzir 357 milhões de toneladas de grãos, segundo a consultoria Cogo Inteligência de Mercado, enquanto a capacidade estática de armazenagem chega a apenas 223 milhões de toneladas — um desafio logístico de 135 milhões de toneladas.

Para fechar essa conta, o investimento necessário é expressivo. A Kepler Weber (KEPL3), empresa líder na América Latina em soluções de pós-colheita e termometria digital, estima que seriam necessários R$ 148 bilhões para zerar o déficit nesta safra. O número revela a dimensão de um problema que não é novo, mas que se aprofunda a cada ciclo.

O abismo entre o que se produz e o que se armazena

O ritmo do problema é matemático. O avanço anual da capacidade estática de armazenagem é de 2,4%, abaixo do necessário para suprir a demanda, já que a produção cresce em média 4,4% ao ano. Em termos absolutos, segundo Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem de Grãos da Abimaq, a produção nacional cresceu em média 10 milhões de toneladas por ano na última década, enquanto a capacidade estática avançou apenas 5 milhões de toneladas no mesmo período.

A Embrapa estima que cerca de 10% da produção nacional de grãos é perdida durante o armazenamento. Aplicando esse percentual à safra atual, são aproximadamente 35 milhões de toneladas desperdiçadas — volume suficiente para alimentar centenas de milhões de pessoas. Considerando apenas as perdas dentro dos silos, especialistas calculam algo próximo de 3% como “perdas aceitáveis”, o que representaria cerca de 6,9 milhões de toneladas comprometidas ao longo de uma safra.

O impacto vai além do desperdício físico. Sem local suficiente para armazenar, agricultores são obrigados a vender sua safra logo após a colheita, frequentemente a preços baixos ditados pela sazonalidade do mercado. Grãos armazenados de forma inadequada ainda ficam sujeitos à umidade, pragas e impurezas, comprometendo qualidade e valor de comercialização.

O CEO da Kepler Weber, Bernardo Nogueira, resume o cenário com uma comparação que dá escala ao problema:

“Este déficit gigantesco e histórico é quase o tamanho da produção de grãos da Argentina. Ao longo dos últimos anos, o agro brasileiro comprovou sua eficiência da porteira para dentro, mas este gargalo logístico no pós-colheita compromete o resultado final e custa muito caro ao Brasil.”

Brasil versus mundo: o contraste da fazenda para fora

Quando o olhar se volta para outros grandes produtores de grãos, a defasagem brasileira fica ainda mais evidente. Enquanto a capacidade instalada dentro das fazendas chega a 85% no Canadá, 65% nos Estados Unidos e 40% na Argentina, no Brasil esse índice permaneceu próximo a 14% ao longo de dez anos, segundo o Boletim Logístico da Conab.

Os EUA possuem capacidade estática de 615 milhões de toneladas — quase três vezes a capacidade brasileira — com 65% dos silos localizados dentro das fazendas. No Brasil, apenas 16% da armazenagem ocorre dentro das propriedades, criando uma dependência crítica de logística imediata e de silos externos.

A diferença não é apenas estrutural. Nos EUA, as fazendas estão na quarta geração de famílias, com cultura consolidada de investimento em infraestrutura própria. No Brasil, a maioria do Cerrado tem agricultores na primeira ou segunda geração. Ainda assim, mesmo a Argentina — cuja agropecuária tem histórico similar ao brasileiro em termos de desenvolvimento — já atingiu 40% de armazenagem on-farm, e cerca de metade dessa capacidade é em silo-bolsa, uma solução de baixo custo e alta flexibilidade.

Nogueira aponta o caminho que o Brasil precisa percorrer:

“Fica evidente pelos números que os investimentos para ampliar a capacidade estática no país não estão conseguindo acompanhar a produção e isso representa um custo muito alto ao país e aos agricultores, que acabam tendo que armazenar sua produção a céu aberto.”

O caminhão virou armazém — e isso tem um preço

A consequência mais imediata do déficit é a pressão sobre o modal rodoviário. Atualmente, 60% dos grãos são escoados por caminhões, contra 30% por ferrovias e 10% por hidrovias. Transportar soja do Mato Grosso até o Porto de Santos custa em média US$ 84 por tonelada apenas no trecho terrestre, representando 73% do custo total até a China.

Durante a safra, a ausência de armazéns locais faz com que os caminhões funcionem como estoque improvisado, gerando filas, pressionando portos e elevando fretes. Segundo o “Diagnóstico da Armazenagem Agrícola no Brasil”, a concentração da colheita em poucos meses aumenta dramaticamente a demanda por caminhões que se dirigem aos terminais, formando congestionamentos enquanto aguardam descarga.

O CEO da Kepler Weber sintetiza o ciclo vicioso que se instala:

“É um cenário que torna o caminhão parte da armazenagem, pressionando o frete rodoviário, os portos e gerando mais custos à cadeia como um todo.”

Tecnologia disponível: da IoT ao robô nivelador de silos

A falta de armazéns é um problema de investimento e crédito. Mas dentro dos silos que já existem, a tecnologia começa a transformar a eficiência do pós-colheita. Sensores de alta precisão, inteligência artificial e softwares integrados são capazes de monitorar em tempo real variáveis críticas como temperatura e umidade, identificando focos de calor e potenciais riscos de deterioração antes que comprometam a qualidade do produto armazenado.

Na Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto (SP), a Solinftec apresentou os robôs Solix XT e XC e a IA Alice Multiagente, que transforma dados agrícolas em decisões automatizadas no campo. Também em destaque, a AGI Brasil lançou um silo compacto com sistema de carga e descarga por correia, voltado para pequenos produtores.

Um caso concreto de inovação vem da parceria entre a Kepler Weber e a Procer. As empresas desenvolveram um robô nivelador de grãos que, além de atuar operacionalmente, utiliza sensores para identificar pontos de formação de crostas e aquecimento na massa de grãos, atuando diretamente nessas áreas para melhorar a circulação de ar e a eficiência da aeração dentro das unidades armazenadoras. Os testes ocorreram em propriedades no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso, com grãos como arroz, milho, soja e trigo, e os resultados mostraram ganhos consistentes de eficiência operacional.

Silos automatizados também já controlam ventilação, temperatura e umidade para manter a qualidade dos grãos, com alertas imediatos caso algum parâmetro saia do padrão ideal, resultando na diminuição de perdas e na preservação da qualidade.

Investimentos públicos e privados: o que já está sendo feito

No lado positivo, os números de financiamento recente indicam uma virada de atenção ao tema. Os financiamentos do BNDES para armazenagem chegaram a R$ 2,6 bilhões no ano-safra 2024/2025, o maior da série histórica iniciada em 2013. O valor supera em 32% os investimentos da safra anterior e em 287% os realizados no ano-safra 2022/2023.

No âmbito do Plano Safra 2025/26, o programa PCA foi ampliado e o limite de capacidade por projeto passou de 6 mil para 12 mil toneladas, com o objetivo de melhorar a infraestrutura de estocagem e escoamento da produção rural. Mesmo assim, o setor considera os recursos insuficientes. A Abimaq pedia R$ 15 bilhões anuais apenas para acompanhar o crescimento da produção — sem reduzir o déficit existente.

No setor privado, alternativas criativas surgem para contornar os juros elevados. A AGI Brasil estruturou FIDCs (Fundos de Direito Creditório) em parceria com o BNDES e a gestora Opea. Um primeiro fundo de R$ 250 milhões, com foco em financiamento de fazendas, já teve todos os recursos contratados. Uma segunda iniciativa de R$ 1,2 bilhão, anunciada em 2025, foca em projetos de maior porte.

O caso da família Schmidt, produtores rurais do Sul do Brasil, ilustra o retorno concreto do investimento em armazenagem própria. Com silos financiados via PCA, a diferença de preço obtida ao segurar os grãos para vender fora do pico da safra chegou a R$ 27 por saca de soja — contra o preço de colheita de R$ 54 a R$ 55, os grãos segurados chegaram a ser vendidos por até R$ 82 a saca.

O que o Brasil ganha — e perde — com a armazenagem inadequada

A equação da competitividade internacional é direta. O Brasil é o quarto maior produtor mundial e o segundo maior exportador de grãos, respondendo por mais de um terço da produção mundial de soja e cerca de metade do comércio mundial do grão. Mas sem capacidade de guardar a produção para escolher o momento certo de vender, essa liderança é construída sobre uma base frágil.

Os custos logísticos elevados, causados pela deficiência em armazenagem, forçam os produtores a escoar rapidamente sua produção, gerando congestionamentos, atrasos e custos de transporte que reduzem a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional. Produtores que não armazenam também perdem poder de negociação: sem estoque, são obrigados a aceitar o preço do momento da colheita, quando a oferta é máxima e os preços, mínimos.

O impacto na segurança alimentar interna também é real. Para Renato Arroyo, CFO da Kepler Weber, o déficit de armazenagem está no centro do debate sobre produtividade, inflação e segurança alimentar no Brasil. Armazenar com qualidade melhora o grão, reduz perdas e dá ao produtor mais poder de decisão sobre quando vender. Esse poder, distribuído ao longo da cadeia, contribui para estabilizar preços ao consumidor final — especialmente em períodos de entressafra.

O CEO da Kepler Weber também aponta que a industrialização da agricultura e a crescente relevância do Brasil em biocombustíveis demandam armazenagem para matéria-prima, o que torna o investimento no setor ainda mais estratégico para os próximos anos.

O custo de não agir, portanto, não se mede apenas em toneladas perdidas. Mede-se em preços mais altos no mercado interno, em margens menores para o produtor, em frete elevado e em competitividade cedida a países que já resolveram esse gargalo décadas atrás.


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