Parceria público-privada entre Embrapa Clima Temperado e Philip Morris Brasil avaliou mais de 5 mil propriedades e gerou ferramenta com 182 indicadores para orientar gestão rural sustentável
A agricultura familiar responde pela base da segurança alimentar brasileira — e medir sua sustentabilidade de forma objetiva é um desafio que a ciência agora enfrenta com mais precisão. A Embrapa Clima Temperado, em parceria com a Philip Morris Brasil e com apoio da Fundação de Apoio Edmundo Gastal (Fapeg), desenvolveu o Índice de Sustentabilidade Auera (ISA), uma ferramenta diagnóstica capaz de traduzir a complexidade das pequenas propriedades rurais em dados concretos e acionáveis.
O resultado mostra que a agricultura familiar da Região Sul do Brasil é, em geral, sustentável — mas ainda enfrenta gargalos relevantes no manejo de resíduos e na conservação do solo e da água. O ISA médio das propriedades avaliadas ficou em 78%, acima do limite mínimo de 70% estabelecido pela metodologia para classificar uma propriedade como sustentável.
O que é o índice Auera

O nome vem do tupi-guarani e significa “árvore” — uma escolha que reflete a proposta do índice: sistemas que crescem com raízes firmes. O ISA foi estruturado em nove eixos estratégicos: socioeconômico, água, gestão de resíduos, solo, agrobiodiversidade, fauna, flora, geração de energia e conformidade ambiental.
Ao todo, são 182 indicadores organizados em três grandes dimensões: social (qualidade de vida, acesso à educação, saúde e assistência técnica), ambiental (conservação da água, fauna, flora e gestão de resíduos) e produtiva (saúde do solo e agrobiodiversidade). Diferente de outros índices genéricos disponíveis no mercado, o ISA integra a dimensão produtiva aos pilares econômico, social e ambiental — algo inédito na avaliação de pequenas propriedades.
Como o projeto foi conduzido
O desenvolvimento do ISA seguiu três etapas metodológicas. A primeira foi o pré-diagnóstico, com análise de banco de dados de 5.283 estabelecimentos rurais. Na segunda etapa, 101 propriedades receberam visitas in loco para coleta de dados. Na terceira fase, 11 propriedades foram selecionadas para intervenção direta e monitoramento contínuo.
O projeto capacitou técnicos e agricultores em boas práticas agrícolas (BPAs) e na gestão sustentável dos recursos naturais. O trabalho envolveu mais de 20 profissionais — pesquisadores, analistas, técnicos e assistentes — e os principais resultados serão publicados em livro atualmente em fase de editoração.
Usos práticos: do agricultor ao gestor público
A ferramenta foi desenhada para atender três perfis distintos. Para o agricultor, o ISA funciona como um espelho da propriedade: identifica exatamente onde estão os gargalos, orienta investimentos e apoia a sucessão familiar ao garantir a fertilidade do solo no longo prazo.
Para técnicos e extensionistas rurais, o índice oferece uma metodologia padronizada de monitoramento. Com os 182 indicadores organizados em nove dimensões, nenhum aspecto crítico da sustentabilidade é negligenciado — e a evolução de cada propriedade pode ser acompanhada ao longo do tempo.
O terceiro perfil é o dos tomadores de decisão. Gestores públicos, executivos e legisladores encontram no ISA uma fonte de dados auditáveis para formular políticas públicas, demonstrar impacto ESG e alinhar iniciativas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
“Ferramenta estratégica para políticas públicas”
A pesquisadora Rosane Martinazzo, chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Clima Temperado e integrante do projeto, explica que o trabalho buscou um modelo de produção baseado em boas práticas agrícolas para otimizar o uso e a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade.
“O ISA pode ser usado diretamente pelo agricultor, mas é uma peça-chave para a formulação de políticas públicas. Ele fornece dados precisos que podem orientar investimentos e programas de incentivo, garantindo que o desenvolvimento rural aconteça de forma equilibrada, com preservação dos recursos naturais para as futuras gerações, enquanto mantém a produtividade do campo.”

Sustentabilidade como indicador de desempenho
O ISA atribui métricas que variam de “péssimo” a “excelente”, permitindo identificar tanto os pontos de fragilidade quanto as oportunidades de melhoria em cada propriedade avaliada. O estudo abrangeu propriedades nos três estados do Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — com foco inicial em produtores de tabaco, mas com avaliação da propriedade como um todo.
A iniciativa reforça um movimento crescente no setor alimentício: o de transformar sustentabilidade em dado mensurável e comparável. Para a cadeia de alimentos, isso tem implicações diretas — desde o fornecimento de matérias-primas com origem rastreada até a viabilidade de programas de compras institucionais e certificações de mercado.
