O desafio da segurança alimentar no mundo é um problema de organização, não de produção. O Brasil pode contribuir mais — se melhorar suas regras
Há uma tentação recorrente no debate público brasileiro de tratar a fome como evidência de fracasso. É um erro de diagnóstico. A história recente aponta na direção oposta. Em 1950, cerca de 65% da população mundial vivia em fome crônica. Em 2024, a proporção caiu para 8,2%, o menor índice já registrado, segundo o relatório SOFI 2025 da FAO, a agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação. Não se trata de complacência, mas de precisão. A humanidade construiu, ao longo de décadas, um sistema capaz de produzir alimentos em escala suficiente. O desafio que resta não é agrícola. É organizacional.
A fome que persiste nasce menos da escassez e mais da descoordenação. Perde-se entre 30% e 40% da produção nos países de menor renda por falhas elementares de armazenagem e transporte. Desperdiça-se globalmente um terço de tudo o que se produz — cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano, a um custo superior a US$ 1 trilhão — com assimetrias evidentes entre o desperdício no varejo dos países ricos e as perdas na origem nos países pobres. Ao mesmo tempo, a intermediação global se concentra em poucos agentes, enquanto a distribuição final repousa sobre uma miríade de operadores informais sem acesso a crédito, dados ou escala. É um sistema que produz abundância e, ainda assim, convive com privação.
Os choques recentes apenas tornaram visível o que já era estrutural. A guerra na Ucrânia expôs a fragilidade de cadeias globais excessivamente dependentes de poucos corredores logísticos. As tensões no Oriente Médio, ao afetarem o fluxo pelo Estreito de Ormuz — por onde transitam cerca de 30% dos fertilizantes e 20% do petróleo mundial —, mostraram como o custo da instabilidade geopolítica se traduz rapidamente em insegurança alimentar. O Brasil sente esses efeitos de forma direta. Em março de 2026, as importações de fertilizantes cresceram mais de 60% em relação ao ano anterior. Não é um choque pontual. É um padrão.
O Brasil ocupa, nesse cenário, uma posição singular e paradoxal. Foi protagonista de uma das maiores transformações produtivas do século XX. A partir da criação da Embrapa em 1973 e da abertura econômica dos anos 1990, a produção de grãos cresceu 313% entre 1990 e 2017. Tornou o país líder global em exportações de soja, carne bovina, café e suco de laranja. Mas essa potência repousa sobre uma vulnerabilidade estrutural. Cerca de 88% dos fertilizantes são importados. Ao mesmo tempo, mais da metade das exportações brasileiras de carne bovina tem como destino a China, assim como cerca de 70% das exportações de soja — o mesmo país que desempenha papel relevante no mercado de insumos. Dependemos do mesmo sistema tanto para vender quanto para produzir. Funciona bem em tempos de estabilidade. É arriscado em tempos de ruptura.
A resposta tradicional tem sido ampliar o papel do Estado. É compreensível, mas insuficiente. Segurança alimentar não é um problema de gasto público — é um problema de incentivos. No Consea federal, o debate historicamente se organizou em torno da redistribuição e do controle social, com impacto limitado sobre as causas estruturais do problema. Em São Paulo, o Consea seguiu um caminho distinto ao reunir, ao lado da sociedade civil, quem produz, processa e distribui alimentos. Essa diferença muda o foco do debate. Em vez de discutir quanto o Estado deve gastar, passa a importar quais barreiras impedem que o setor privado leve alimento onde hoje falta.
Um Estado que sustenta juros reais elevados encarece toda a cadeia produtiva, do financiamento agrícola ao capital de giro no varejo. Esse custo chega ao consumidor, sobretudo o mais pobre. Política fiscal é, nesse sentido, política alimentar.
Segue-se a dimensão regulatória. O país ainda convive com regras de validade que estimulam o descarte de alimentos próprios para consumo. A adoção de critérios como o conceito de best before — que indica até quando o produto mantém sua qualidade, sem implicar risco após essa data — permitiria reduzir desperdício e preços sem custo fiscal.
Há ainda o tema do capital. A interpretação consolidada pelo STF ao restringir, na prática, o investimento estrangeiro em terras foi apresentada como defesa de soberania. Na realidade, reduziu investimento, produção, armazenagem e infraestrutura. O mesmo raciocínio vale para fertilizantes: a redução da dependência externa exige mais abertura ao capital, não mais fechamento.
Mais grave, o país repete um padrão conhecido. Crises revelam fragilidades, geram diagnósticos corretos e, passado o choque, tudo volta ao ponto de partida. Não é falta de informação. É falta de decisão.
Por fim, há uma escolha que o Brasil ainda evita. Continuamos exportando volume em um mundo que remunera valor. A baixa verticalização não é falta de vocação — é resultado de um ambiente que penaliza quem investe em transformação, com carga tributária complexa, insegurança regulatória e custo de capital elevado.
A tecnologia já oferece instrumentos para melhorar esse sistema, da logística ao acesso a crédito no varejo. Mas tecnologia não resolve o que é, no fundo, um problema de regras.
Segurança alimentar não é uma agenda de governo — é uma agenda de civilização. Países avançam quando conseguem alinhar interesse privado e bem público. O Brasil já provou que sabe produzir. Falta decidir se quer, de fato, resolver o problema que afeta boa parte do mundo. Em ano eleitoral, o que está em jogo não é o diagnóstico. É a coragem de mudar o sistema.
Gerardo Figueiredo Junior é sócio fundador do Zeigler Advogados e presidente do Consea-SP.
Gustavo Diniz Junqueira foi secretário de Agricultura do Estado de São Paulo (2019–2021) e é membro do Consea-SP.
Artigo original publicado na Veja Negócios.
