Agro Investimento Juliana De Podestá

Por Juliana De Podestá

Quando falamos sobre segurança alimentar, a conversa geralmente começa no final da cadeia agrícola: quanto alimento produzimos, se ele chega aos consumidores e se as pessoas conseguem comprá-lo. Mas a segurança alimentar começa muito antes. Antes de existir uma colheita, os produtores precisam ter acesso a fertilizantes, defensivos agrícolas, sementes, insumos biológicos, energia, água, tecnologia, financiamento e conhecimento. Se qualquer um desses elementos se torna indisponível, inacessível financeiramente ou excessivamente concentrado em poucos fornecedores ou regiões, essa vulnerabilidade acaba se propagando por todo o sistema alimentar.

As recentes disrupções tornaram essa relação cada vez mais evidente. O mercado de fertilizantes, em particular, ilustra como um choque de insumos pode rapidamente se transformar em um risco para a produção. Nos primeiros cinco meses de 2026, os preços globais dos fertilizantes estavam 35% acima do mesmo período do ano anterior, segundo o Banco Mundial. No início deste ano, disrupções que afetaram importantes rotas de comércio de energia e fertilizantes levaram a FAO a alertar que o principal risco não era necessariamente uma escassez imediata de alimentos, mas um choque nos fertilizantes e na produção cujos efeitos poderiam aparecer posteriormente na produção agrícola e nos preços dos alimentos.

Essa distinção importa. Um sistema alimentar pode parecer seguro hoje enquanto vulnerabilidades já estão se acumulando nas etapas anteriores da cadeia.

A dependência oculta por trás da força agrícola

O Brasil oferece um exemplo particularmente interessante. O país é uma das grandes potências agrícolas do mundo, mas essa força convive com uma dependência significativa de insumos agrícolas importados. Atualmente, o Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, respondendo por cerca de 8% do consumo global, enquanto aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados. No caso do potássio, a dependência das importações é ainda maior.

Isso não significa que o comércio internacional seja, por si só, uma fragilidade. Pelo contrário, cadeias de suprimentos globalmente integradas foram fundamentais para o desenvolvimento da agricultura e continuarão desempenhando um papel essencial. Mas alta concentração combinada com poucas alternativas cria exposição. Tensões geopolíticas, choques de energia, restrições comerciais, movimentos cambiais ou disrupções nas rotas marítimas podem se traduzir rapidamente em custos mais altos para produtores localizados a milhares de quilômetros de distância.

E os fertilizantes são apenas o exemplo mais visível.

A agricultura moderna depende de um ecossistema de insumos cada vez mais sofisticado. A genética determina como as culturas respondem ao calor, às pragas e à seca. Os defensivos agrícolas afetam a capacidade dos produtores de preservar a produtividade. A energia influencia a produção de fertilizantes, o maquinário, a irrigação, o processamento e a logística. Os serviços financeiros determinam se os produtores conseguem adquirir insumos no início de um ciclo produtivo e absorver riscos até a colheita. Dados e ferramentas digitais influenciam cada vez mais quando, onde e como esses insumos são utilizados.

Sob essa perspectiva, a segurança de insumos não é simplesmente uma questão de compras ou abastecimento agrícola. Ela faz parte da infraestrutura da segurança alimentar.

Da disponibilidade de insumos à resiliência dos insumos

O desafio, no entanto, não deve nos levar à conclusão simplista de que cada país precisa produzir internamente todos os seus insumos agrícolas. A autossuficiência completa seria, muitas vezes, economicamente ineficiente e, em alguns casos, irrealista.

Um objetivo mais útil é a resiliência.

Um sistema resiliente de insumos agrícolas possui múltiplas fontes de fornecimento. Utiliza os recursos de maneira mais eficiente. É capaz de substituir tecnologias quando determinado insumo se torna escasso ou caro. Reduz dependências desnecessárias, ao mesmo tempo em que preserva os benefícios do comércio global. E, sobretudo, oferece aos produtores mais alternativas quando as condições mudam.

Isso muda a discussão de “Como podemos produzir todos os nossos insumos localmente?” para “Como podemos tornar a produção agrícola menos vulnerável à indisponibilidade ou à volatilidade de qualquer insumo específico?”

Essa distinção abre um espaço importante para a inovação.

Os insumos biológicos, por exemplo, são relevantes não apenas porque podem reduzir a pegada ambiental associada às práticas agrícolas convencionais. Em algumas aplicações, eles também podem diversificar o conjunto de ferramentas tecnológicas disponíveis aos produtores, melhorar a eficiência no uso de nutrientes ou complementar estratégias tradicionais de proteção de cultivos. O próprio Brasil vem analisando soluções biológicas como um dos caminhos para aumentar a eficiência dos fertilizantes importados e reduzir, ao longo do tempo, a dependência estrutural.

A agricultura de precisão cria uma camada adicional de resiliência. Quando fertilizantes, água ou defensivos se tornam mais caros, tecnologias que permitem aos produtores aplicar a quantidade correta, no local correto, passam a ter relevância tanto econômica quanto ambiental. A eficiência se torna uma forma de segurança, porque o sistema passa a ser capaz de gerar mais valor a partir de cada unidade de um recurso escasso.

A mesma lógica se aplica à genética, aos fertilizantes alternativos, às tecnologias voltadas à saúde do solo, à fixação biológica de nitrogênio, à agronomia digital e a outras soluções que ampliam o conjunto de insumos disponíveis aos produtores ou melhoram a forma como os insumos existentes são utilizados.

É nesse ponto que segurança de insumos e sustentabilidade começam a convergir.

Historicamente, a discussão sobre a redução do uso de fertilizantes ou de insumos químicos tem sido apresentada predominantemente como um objetivo ambiental. Mas existe outra dimensão: reduzir dependências desnecessárias pode, simultaneamente, diminuir pressões ambientais, melhorar a economia da propriedade rural e tornar o sistema alimentar menos exposto a choques externos.

Essa é uma definição muito mais ampla de resiliência.

O produtor, em última instância, absorve o choque

Existe também uma importante dimensão social nessa discussão. Choques nas cadeias de suprimentos podem começar a milhares de quilômetros de distância, mas eventualmente chegam à porteira da fazenda.

Quando os preços dos insumos sobem de forma significativa, grandes produtores podem ter maior capacidade de negociar compras, fazer hedge de riscos, formar estoques ou absorver temporariamente uma compressão de margens. Pequenos e médios produtores geralmente têm menos alternativas. Eles podem adiar compras, reduzir as taxas de aplicação, optar por outras culturas ou simplesmente produzir em condições abaixo das ideais.

Isso reforça um ponto que já discutimos anteriormente no contexto da resiliência climática: o acesso é tão importante quanto a disponibilidade da tecnologia. Nossa discussão anterior sobre inovação agrícola destacou o financiamento e o acesso desigual às tecnologias como importantes limitações para pequenos e médios produtores na América Latina.

A segurança de insumos, portanto, não pode ser dissociada da inclusão financeira. Um fertilizante pode estar fisicamente disponível no mercado e, ainda assim, ser efetivamente inacessível para um produtor que não consegue financiá-lo. Uma nova solução biológica pode funcionar tecnicamente e ainda assim gerar impacto limitado caso a distribuição não alcance o produtor. Uma tecnologia mais eficiente pode gerar economias significativas ao longo de várias safras e, ainda assim, enfrentar barreiras de adoção porque o investimento inicial é elevado.

Para os sistemas alimentares, disponibilidade, acessibilidade financeira e acesso são dimensões distintas de um mesmo problema.

Inovação como estratégia de diversificação

É também por isso que o papel da inovação deve ser compreendido para além da simples substituição de um produto por outro.

As tecnologias mais transformadoras podem ser aquelas que oferecem aos produtores mais opções.

Uma solução biológica pode complementar ou substituir parcialmente um insumo convencional. Uma genética melhor pode reduzir a vulnerabilidade ao estresse ambiental. A agricultura de precisão pode diminuir a quantidade de insumos necessária para alcançar o mesmo resultado. Plataformas digitais podem melhorar as decisões de compra e o acesso a fornecedores. Soluções fintech podem oferecer capital de giro exatamente no momento em que os insumos precisam ser adquiridos. Novas tecnologias de produção podem criar fontes geograficamente mais diversificadas de insumos agrícolas críticos.

Juntas, essas inovações criam algo maior do que a soma de seus benefícios ambientais individuais: elas reduzem pontos únicos de falha no sistema agrícola.

E isso importa porque a resiliência dos sistemas alimentares dependerá cada vez mais não apenas da nossa capacidade de resistir a choques climáticos, mas também da nossa capacidade de navegar simultaneamente por choques geopolíticos, logísticos e econômicos.

Uma perspectiva de investimento mais ampla para a segurança alimentar

Para investidores em agricultura e tecnologia de alimentos, isso representa uma importante mudança de perspectiva.

Se a segurança alimentar for compreendida apenas como produção agrícola, muitas tecnologias podem parecer distantes desse problema. Mas, quando reconhecemos que a produção depende de uma infraestrutura complexa de insumos, capital, conhecimento e tecnologia, o universo de investimentos muda.

Uma empresa que melhora a eficiência no uso de nutrientes faz parte da equação da segurança alimentar. O mesmo vale para uma empresa que desenvolve alternativas biológicas. Ou para uma plataforma que amplia o acesso ao crédito agrícola. Ou ainda para uma tecnologia que ajuda produtores a tomar melhores decisões sobre o uso de insumos ou reduz perdas ao longo da cadeia de suprimentos.

A conexão não está em dizer que toda tecnologia agrícola deveria, de repente, ser classificada como uma “solução para a segurança alimentar”. A questão mais importante é: quais vulnerabilidades dentro do sistema alimentar uma determinada tecnologia efetivamente reduz?

É também nesse ponto que uma abordagem de investimento pode se tornar mais sistêmica. A resiliência agrícola não resulta de uma única grande inovação. Ela emerge de múltiplas capacidades operando em conjunto: insumos diversificados, solos mais saudáveis, uso eficiente da água, melhores informações, financiamento acessível, cadeias de suprimentos mais robustas e produtores capazes de adotar novas tecnologias.

Nossa discussão anterior sobre agricultura regenerativa (Regenerative Agriculture as a Transition Strategy: Productivity with Positive Impact) explorou como a inovação pode apoiar uma transição para sistemas produtivos que combinem produtividade, regeneração ambiental e resiliência. A segurança de insumos acrescenta outra dimensão a essa transição: a capacidade desses sistemas produtivos de continuar funcionando quando as condições externas mudam.

A segurança alimentar começa muito antes de o alimento chegar à mesa

À medida que as mudanças climáticas, a geopolítica e a volatilidade das cadeias de suprimentos transformam as condições sob as quais a agricultura opera, a segurança alimentar precisa ser compreendida de maneira mais ampla.

Ela não diz respeito apenas à quantidade de alimentos que um país produz. Diz respeito também ao grau de vulnerabilidade dessa produção aos recursos necessários para sustentá-la.

O objetivo não deve ser o isolamento dos mercados globais, nem a eliminação completa dos insumos agrícolas tradicionais. Em vez disso, a oportunidade está na construção de um sistema agrícola mais diversificado, eficiente e adaptável: capaz de combinar comércio global com inovação local, tecnologias convencionais com novas alternativas e produtividade com maior resiliência.

Porque, no fim, um sistema alimentar resiliente exige um sistema produtivo resiliente. E um sistema produtivo resiliente começa com o acesso seguro aos insumos que tornam a agricultura possível.

Juliana De Podestá é Sócia e Head de ESG e Impacto na SP Ventures


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