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Pesquisa da ABAG com Serasa Experian e Fran6 mostra produtoras mais qualificadas e conectadas, mas atentas à discriminação de gênero

Dez anos mudaram o retrato da mulher no campo brasileiro. Em 2015, as produtoras ainda buscavam reconhecimento e espaço nas decisões da propriedade. Em 2026, aparecem mais qualificadas, atuando em funções variadas e com autonomia ampliada pela tecnologia.

A atualização do diagnóstico foi apresentada na sexta-feira (2/10), no painel “Perfil Mulher Agro 2026: resultados da pesquisa e a voz do campo”. O debate aconteceu durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF) e retomou o primeiro levantamento da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) sobre a presença feminina no campo.

O estudo tem correalização da Serasa Experian, pesquisa da Fran6 Pesquisa e patrocínio do Sistema FAESP/SENAR. Os resultados indicam avanços em formação, gestão e uso de redes sociais, além de uma percepção maior do preconceito.

Um comparativo possível após dez anos

Na abertura do painel, Ingo Plöger, presidente da ABAG, defendeu a retomada da pesquisa para entender como evoluiu a participação feminina. A entidade quis medir o que mudou desde o primeiro estudo, feito há uma década.

Aquela edição enfrentou um obstáculo básico: identificar as mulheres que lideravam propriedades. Muitas não se reconheciam como gestoras, e outras não eram vistas assim pelo entorno. Ao explicar o valor do novo levantamento, Gislaine Balbinot, diretora executiva da ABAG, resumiu o ganho de poder comparar as duas fotografias:

“Hoje conseguimos comparar os dois momentos e enxergar o quanto avançamos.”

Para Gislaine, produzir conhecimento não basta. Ela defende que os dados caminhem junto com ações práticas. Entre as iniciativas da ABAG estão conectividade, produção sustentável, capacitação e formação de lideranças femininas.

Quatro em cada dez decisores rurais são mulheres

A análise da Serasa Experian identificou 10,7 milhões de pessoas físicas como decisores rurais. O recorte considera quem tem imóveis rurais, operações de crédito ou atividades de comercialização. Desse total, 40% são mulheres.

O estudo também reforça que não existe um único perfil de produtora. Idade, região, atividade, porte e condições de produção criam realidades distintas. Essa diversidade pesa na oferta de crédito, produtos e serviços para o público feminino.

No crédito, as mulheres têm desempenho melhor. A inadimplência entre elas foi de 6,8%, contra 10,8% entre os homens. Elas também aparecem em menor proporção nos registros de ocorrências ligadas a trabalho escravo e desmatamento.

Sabrina Muñoz, gerente executiva de Inteligência de Dados da Serasa Experian, explica que o cruzamento de bases antes isoladas muda o jogo para o setor financeiro e de serviços:

“O cruzamento dessas informações permite dar visibilidade a uma população que antes estava dispersa em diferentes bases e criar condições para que crédito, produtos, serviços e capacitação sejam mais adequados às características das produtoras.”

Mais formação e funções diversificadas

A pesquisa quantitativa, apresentada por Patricia Franceschini, diretora da Fran6 Pesquisa, compara 300 mulheres entrevistadas em 2015 com 311 participantes da edição atual. A diferença mais visível está na escolaridade.

A parcela com pós-graduação passou de 24% para 46%. Já a proporção com ensino superior completo subiu de 60% para 77%. O avanço acompanha uma mudança na atuação dentro das propriedades.

Além da administração geral, as mulheres passaram a assumir funções em recursos humanos, produção, finanças e comercialização e marketing. Esta última área registrou crescimento de 25 pontos percentuais, o maior destaque do levantamento.

Redes sociais viram ferramenta de negócio

A tecnologia aparece como outro vetor de transformação. As redes sociais, antes pouco usadas, tornaram-se um recurso relevante: cerca de 70% das entrevistadas consideram importante utilizá-las nos negócios.

Patricia destacou que as produtoras ocupam o ambiente digital de modo próprio. Em vez de focar apenas em aspectos pessoais ou de imagem, mostram o cotidiano da produção, da gestão e do trabalho no campo.

Mais qualificação, mais consciência da discriminação

O crescimento profissional não eliminou a discriminação de gênero. Ao contrário, a percepção do problema aumentou entre as entrevistadas. Adelia Franceschini, diretora-geral da Fran6 Pesquisa, aponta duas leituras possíveis para esse movimento:

“Esse resultado pode estar relacionado tanto à permanência de comportamentos preconceituosos na sociedade quanto ao fato de as próprias mulheres estarem mais informadas sobre seus direitos e mais conscientes do espaço que ocupam.”

O estudo também identificou um estilo de liderança feminina com traços próprios. Ele valoriza o diálogo, o consenso e o planejamento, com uma visão mais integrada e humanizada do negócio. A influência vai além da porteira: mais de dois terços das mulheres são reconhecidas como lideranças em suas comunidades.

Capacitação puxa a presença feminina no SENAR

A dimensão prática dessa mudança foi apresentada por Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da FAESP. Ela relatou a experiência da FAESP/SENAR com pequenos e médios produtores, que somam 68% do universo de produtores rurais brasileiros.

Criada há quatro anos, a comissão busca dar visibilidade a mulheres que já atuavam no dia a dia das propriedades, mas seguiam pouco reconhecidas. Em 2025, pela primeira vez em 33 anos, elas representaram mais de 53% das pessoas capacitadas pelo SENAR.

Para Juliana, o resultado mostra a disposição crescente das produtoras em buscar conhecimento, assumir responsabilidades e ocupar espaços de liderança.

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