Painel com Brasil, Argentina e Estados Unidos aponta que explicar os benefícios concretos da tecnologia é o caminho para reduzir a resistência pública e destravar barreiras regulatórias
Um produtor de Iowa, nos Estados Unidos, deixou de correr contra o relógio na colheita. Hoje, ele consegue acompanhar os jogos de vôlei da filha. A história foi contada em São Paulo e resume o argumento central de um dos painéis mais comentados do dia.
O debate “Desafios regulatórios internacionais associados à biotecnologia” abriu a programação desta sexta-feira, 2 de outubro, no Global Agribusiness Festival (GAFFFF 2026), promovido pela DATAGRO no Nubank Parque. Especialistas de Brasil, Argentina e Estados Unidos reconheceram um paradoxo: décadas de adoção no campo, com ganhos de produtividade, eficiência e sustentabilidade, não eliminaram a resistência de parte da população.
A moderação ficou com Benno van der Laan, diretor executivo da MAIZALL, aliança das associações de produtores e exportadores de milho de Argentina, Brasil e Estados Unidos. Participaram Adriana Brondani, fundadora da Biofocus Hub; Andrew Brandt, do U.S. Grains & BioProducts Council; o agricultor Manuel Ron, conselheiro da MAIZALL; e Paulo Bertolini, presidente da Abramilho.
Quando a tecnologia se explica mais do que entrega
Adriana Brondani, fundadora da Biofocus Hub e membro do Conselho Consultivo do Pacto Global da ONU no Brasil, aponta que parte do problema está na forma como a biotecnologia chegou ao público. Segundo ela, quem não enfrenta a praga ou a perda de produtividade dificilmente enxerga o valor da solução. Em sua análise:
“Quando eu não tenho um problema, eu não estou preocupada com a lagarta, com a produtividade, eu não identifico os valores que essa solução está me entregando.”
Nos primeiros anos de adoção dos organismos geneticamente modificados, o esforço de comunicação priorizou a explicação técnica em vez das pessoas. Adriana relembra esse período com uma autocrítica do setor:
“Nós tivemos uma preocupação muito grande de explicar a tecnologia, mais do que falar das pessoas.”
Para a especialista, outros dois fatores alimentam a desconfiança: as diferentes interpretações regulatórias entre países e a falta de confiança nas instituições. Ela defende que a experiência brasileira mostra a importância de um marco regulatório capaz de transmitir segurança. Adriana resume o argumento com base no histórico de uso:
“A gente tem mais de 30 anos de adoção de áreas extensas cultivadas com a biotecnologia, são bilhões de hectares cultivados ao longo desse período, temos diversos dados mostrando a sua biossegurança.”
Argentina: do plantio direto ao etanol de milho
Manuel Ron, agricultor e conselheiro da MAIZALL, lembra que a soja transgênica chegou à Argentina em 1996, seguida pelo milho a partir dos anos 2000. As novas tecnologias mudaram o manejo, ampliaram as janelas de plantio e impulsionaram a produção. Para ele, o impacto foi estrutural:
“A produção agrícola de milho, soja e algodão explodiu a partir do uso da biotecnologia. Isso tem sido realmente revolucionário para a agricultura na Argentina.”
Ron também associou a adoção da tecnologia à redução do uso de inseticidas e herbicidas, ao menor número de operações no campo e à expansão do plantio direto. Segundo ele, Estados Unidos, Brasil e Argentina já destinam parte do milho à bioenergia, o que conecta produtividade e transição energética. O agricultor destaca o resultado ambiental do biocombustível:
“O etanol produzido a partir do milho reduz mais de 70% dos gases de efeito estufa.”
Menos perdas e mais tempo para a família
Andrew Brandt, diretor de políticas comerciais do U.S. Grains & BioProducts Council, afirma que nos Estados Unidos a contribuição da biotecnologia vai além dos números de produtividade. Em sua avaliação, o efeito mais importante é a proteção do rendimento em anos difíceis, com seca ou forte pressão de insetos. Brandt observa:
“Estamos vendo os rendimentos não caírem tanto, seja por seca ou pressão de insetos.”
O milho Bt é o exemplo citado por ele. Com plantas mais resistentes, os agricultores conseguem manter a lavoura no campo por mais tempo e reduzem o risco de perdas antes da colheita. Foi assim que o produtor de Iowa mudou a rotina da família, segundo o relato de Brandt, que reproduziu a fala do agricultor:
“Agora que eu tenho o milho Bt, eu posso ir a todos os jogos de vôlei da minha filha.”
Brandt também relaciona a biotecnologia à adoção do plantio direto no Centro-Oeste americano. A combinação das duas tecnologias reduziu o revolvimento do solo e ajudou a preservar a camada superficial, fundamental para a produtividade. Ele sintetiza a importância desse cuidado:
“Um dos mais valiosos centímetros da sua terra é o centímetro superior do solo.”
Por que esse debate importa para quem consome alimentos
O painel mostra que a discussão sobre biotecnologia não pertence apenas a laboratórios, reguladores e produtores. Ela chega ao prato, ao preço dos alimentos e à matriz energética. Quando o setor fala só de tecnologia, o consumidor tende a ouvir apenas risco.
É nesse ponto que eventos como o GAFFFF cumprem papel relevante. O festival aproxima o campo da população urbana, reúne produtores, pesquisadores e consumidores e coloca temas complexos em linguagem acessível. Veículos independentes, como o Food Forum News, completam o ciclo: levam o debate a quem não esteve na plateia e contribuem para o letramento da sociedade sobre agro, alimentação saudável e sustentabilidade.
