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Superávit de 247 mil toneladas para 2025/26 sinaliza recuperação após crise, enquanto riscos climáticos já pressionam as estimativas para 2026/27

O mercado global de cacau consolida um processo gradual de recomposição de estoques. A StoneX, empresa global de serviços financeiros, revisou para 247 mil toneladas o superávit estimado para a safra 2025/26 — um sinal concreto de recuperação após a grave quebra de produção registrada em 2023/24. Para o ciclo seguinte, no entanto, o cenário já é mais cauteloso: o excedente deve encolher para 149 mil toneladas, pressionado pelo avanço das projeções de El Niño a partir do segundo semestre de 2026.

A relação estoque/uso, que chegou a sofrer forte destruição na crise recente, deve avançar para 34,0% em 2025/26 e 36,3% em 2026/27. Os números refletem uma estabilização real, mas ainda frágil — dependente de clima, produção e consumo caminhando na mesma direção.

Produção em recuperação nos principais países

A produção global segue alinhada às expectativas, com clima favorável e bom ritmo de entregas nos maiores países produtores. Ajustes pontuais foram feitos para Equador e Camarões, que apresentaram volumes ligeiramente abaixo do projetado.

Na Costa do Marfim, maior produtora global, a safra 2025/26 está projetada em 1,834 milhão de toneladas. O próximo ciclo foi ajustado para 1,830 milhão, já incorporando uma margem de risco climático. Em Gana, o desempenho é positivo, com expectativa de superar 600 mil toneladas, sustentada por condições favoráveis no campo. O Equador mantém produção historicamente elevada, apesar de uma desaceleração recente nas entregas.

O analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Lucca Bezzon, contextualiza o momento atual e os riscos à frente do setor:

“As condições climáticas têm favorecido a recuperação da produção em 2025/26, mantendo o mercado em trajetória de recomposição de estoques. No entanto, para 2026/27, o avanço rápido das projeções de El Niño adiciona um fator relevante de incerteza, especialmente sobre a oferta no Oeste Africano.”

Brasil registra alta de 61% na produção no primeiro trimestre

No Brasil, os sinais de retomada são expressivos. No primeiro trimestre de 2026, a produção avançou 61% na comparação com o mesmo período do ano anterior — indicador robusto de recuperação após a quebra recente. A tendência é de continuidade do movimento, embora o risco climático volte ao radar, especialmente na Bahia, principal região produtora do país.

A combinação entre retomada produtiva no Brasil e nos demais países fora da África ajuda a compensar as fragilidades estruturais que persistem no Oeste Africano — região que ainda enfrenta os efeitos do ciclo anterior e já monitora os impactos potenciais de um novo episódio climático adverso.

El Niño: o principal vetor de risco para 2026/27

A rápida mudança no cenário climático global elevou a probabilidade de ocorrência de El Niño a partir do segundo semestre de 2026. O fenômeno tem histórico direto de impacto sobre a produção de cacau: redução média de 1,7% na oferta global, contra um crescimento médio de 2,6% em anos normais.

Os efeitos variam por região — maior risco de seca e estresse hídrico no Oeste Africano, aumento de temperatura e risco hídrico no Brasil, queda produtiva na Indonésia em cenários mais secos e possíveis efeitos variados no Equador.

Bezzon detalha o comportamento da demanda nesse contexto e reforça a importância de monitorar os próximos movimentos do mercado:

“A demanda global segue em processo de ajuste após a retração observada em 2025, com queda de 2,4% na moagem no primeiro trimestre de 2026, desacelerando frente ao recuo de 7,7% no trimestre anterior, indicando estabilização gradual, ainda que insuficiente para caracterizar uma reversão mais clara.”

Demanda em ajuste, com sinais de estabilização

A queda recente dos preços do cacau, que retornaram a patamares mais próximos da normalidade histórica, tende a estimular o consumo nos próximos meses. A StoneX projeta estabilidade em 2025/26, com leve alta de 0,2% na demanda, e recuperação moderada de 2,4% para o ciclo seguinte.

Do lado industrial, os números de moagem — principal termômetro do consumo de cacau pela indústria de chocolates e derivados — ainda mostram queda, mas em ritmo decrescente. A desaceleração da retração é lida pelo mercado como um sinal positivo, ainda que a reversão plena dependa da combinação entre preços acessíveis e confiança na oferta futura.

O analista da StoneX resume o cenário com precisão:

“O mercado caminha para uma normalização após o choque recente, mas ainda depende da evolução da produção, da retomada da demanda e, principalmente, do comportamento climático nos próximos meses.”


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