soja produtividade calagem

Agrônomo Leandro Barcelos, à frente do projeto A Raiz da Solução, quebra paradigma da calagem convencional e leva a Agro Mallon ao título do CESB 2025 com manejo focado na saturação de magnésio no perfil do solo

A média nacional de produtividade da soja brasileira ainda orbita as 60 sacas por hectare. Para o engenheiro agrônomo e consultor Leandro Barcelos, fundador do projeto A Raiz da Solução, esse número não é limite do solo — é resultado de um modelo de calagem que ignora o magnésio como fator estratégico de produção. A tese pode soar provocadora, mas os resultados de campo indicam que ela merece atenção.

Na safra 2024/2025, sob consultoria de Barcelos, o produtor Charles Adriano Breda, gestor da Agro Mallon (Fazenda Santa Bárbara, em Canoinhas/SC), colheu 135,49 sacas por hectare — nova marca histórica do 17º Desafio do CESB (Centro de Excelência em Soberania e Segurança Alimentar do Brasil). O feito foi alcançado mesmo sob 18 dias de veranico durante a safra.

A falha oculta na calagem convencional

O método tradicional de calagem foca na correção do pH do solo — em geral, com aplicação de calcário calcítico para elevar os índices de cálcio. O que Leandro Barcelos questiona é o que fica de fora desse cálculo: o magnésio.

Segundo o agrônomo, a negligência com esse nutriente cria o que ele chama de “barreira invisível” no perfil do solo. A planta, sem acesso adequado ao magnésio, fica restrita às camadas superficiais e perde eficiência na absorção de fósforo. O resultado é uma lavoura vulnerável ao estresse hídrico, mesmo quando a água está disponível em profundidade. A calagem convencional, nesse cenário, funciona como uma despesa sem retorno proporcional.

Barcelos é direto sobre o mecanismo do problema ao abordar o custo oculto da calagem mal orientada:

“O foco exclusivo no cálcio ignora que o magnésio é o fator limitante oculto na maioria das fazendas. Mesmo em solos considerados ‘corrigidos’, a falta de equilíbrio de bases trava o motor da clorofila e impede a absorção de fósforo, pago a peso de ouro.”

Como funciona o método ARDS

A proposta de Leandro Barcelos substitui a lógica de “corrigir o pH” pela construção ativa da arquitetura química do perfil do solo. O núcleo do método é o cálculo por saturação de magnésio na CTC (%Mg/CTC), aplicado em duas camadas: de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm.

Essa análise em profundidade é o que diferencia a abordagem. Ao equilibrar magnésio e cálcio em camadas mais profundas, a planta consegue desenvolver raízes que alcançam até 1,5 metro de profundidade — acessando a Capacidade de Água Disponível (CAD) em camadas onde o manejo convencional não chega. É essa profundidade radicular que explica a resiliência da lavoura durante períodos críticos de seca.

O consultor também aponta um segundo problema técnico frequente no campo. A relação entre potássio e magnésio, quando mal administrada, gera inibição competitiva entre os nutrientes. A tentativa de ganhar peso de grão com doses elevadas de potássio, sem o equilíbrio adequado de magnésio na CTC, resulta em gasto sem produtividade.

Outro ponto do método diz respeito à fonte de correção utilizada. Barcelos chama atenção para a dinâmica do carbonato de magnésio ao discutir a eficiência dos insumos aplicados:

“O carbonato de magnésio tem maior dificuldade de dissociação que o de cálcio. Se você não domina essa dinâmica química, o investimento fica parado na superfície e não vira produtividade.”

Resultados validados em diferentes regiões

O método não se limita à conquista em Santa Catarina. Produtores de três estados relatam ganhos expressivos após adotar o manejo baseado na construção do perfil do solo.

No Cerrado Mineiro, o agrônomo e produtor Eduardo Primon elevou a média global da fazenda de 70 para 90,5 sacas por hectare, com picos de 107 sacas em áreas monitoradas. Primon compara o processo de preparação da planta ao treinamento de um atleta de alta performance: qualquer falha no manejo antes do plantio compromete o resultado final.

Em Boa Vista do Incra (RS), o produtor Márcio Natalli migrou de 60 para 90 sacas por hectare. Segundo ele, enquanto lavouras vizinhas sofriam com o veranico, as suas continuavam verdes e em busca de água nas camadas mais profundas — efeito direto de um sistema radicular mais desenvolvido.

Já em Goiás, Francisco Luçardo superou a barreira das 70 sacas e chegou às 100 sacas por hectare após ajustar o equilíbrio nutricional do solo em profundidade. Para ele, a lógica é simples: adubo sem solo equilibrado não se converte em grão no armazém.

O consultor sintetiza o que considera o maior paradoxo do agronegócio brasileiro ao descrever as lavouras que acompanha pelo país:

“Lavouras morrendo de sede com água disponível logo abaixo, simplesmente porque o perfil do solo foi tratado como um depósito de insumos e não como um sistema biológico vivo.”

Capacitação e próximas ações

Além da consultoria individualizada, Barcelos estruturou iniciativas de capacitação para ampliar o alcance do método. Uma série gratuita de três aulas online — “As Verdades Ocultas para Colher Mais Soja” — antecede o evento presencial ARDS Experience, previsto para junho de 2025. O conteúdo funciona como preparação técnica para produtores que desejam revisar sua estratégia de calagem e adubação para a safra 26/27.

O programa de especialização Treinamento A Raiz da Solução 2.0 aprofunda essa formação, com foco em produtores que querem construir solos resilientes e atingir a marca das três casas de produtividade. O ritmo e a escala de implementação são adaptados à realidade de cada fazenda — máquinas disponíveis, orçamento e timing de safra.

A independência técnica do produtor é, para Barcelos, o objetivo final de todo o trabalho. Ele resume esse propósito ao falar sobre o papel do consultor estratégico diante da lógica comercial dominante no setor:

“O produtor precisa parar de ficar na mão do balcão de vendas e de aceitar pacotes prontos que nem sempre a terra dele precisa. A lucratividade máxima só vem quando ele conquista a sua independência técnica.”


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