De pastos mineiros a uma fábrica de 20 mil m² em São Paulo, os irmãos Josias e Josué Evangelista construíram um negócio pioneiro que hoje exporta tapioca para quatro continentes
A história da Da Terrinha Alimentos, que tem na tapioca o seu carro-chefe, começa longe dos corredores de supermercados e das prateleiras europeias. Josias e Josué Evangelista, irmãos gêmeos criados em Minas Gerais, desde cedo aprenderam o valor do trabalho: ainda jovens, percorriam pastos para coletar esterco de animais e vender como adubo a produtores rurais. Esse perfil empreendedor viria a moldar uma das empresas mais singulares do setor alimentício brasileiro.
Em 2008, os irmãos fundaram a Da Terrinha — inicialmente como uma empresa de representações — ao identificar a tapioca como uma tendência de consumo em expansão entre os brasileiros, especialmente nas grandes metrópoles.
A aposta foi certeira. Em 2011, nasceu o Grupo Da Terrinha, e em 2012 a operação fabril própria ganhou corpo em São Paulo. Hoje, a unidade industrial da empresa ocupa mais de 20 mil m² na capital paulista.
Mercado e distribuição principais se concentram fora do Nordeste
A Da Terrinha ocupa hoje uma posição singular no mercado brasileiro de tapioca. Por ser um produto com raízes culturais no Nordeste — região que conta com ampla oferta local —, Josias explica que a distribuição da goma de tapioca se concentra nas regiões Sudeste e Sul do país, onde a penetração da marca é mais estratégica e o potencial de crescimento ainda é relevante.
A expansão para além das fronteiras nacionais começou em 2015, com as primeiras exportações para Portugal — destino natural para um produto carregado de brasilidade. A estratégia inicial mirou o chamado “mercado da saudade”, focando nos brasileiros que vivem no exterior. O resultado foi além do esperado: a marca passou a ser encontrada nos principais canais de varejo de Portugal e Espanha.
A entrada no mercado europeu, porém, não foi trivial. A empresa exportou um contêiner de tapioca para Portugal que ficou encalhado, sem vendas. Josias comenta a estratégia ousada:
“Quando o comprador comunicou que o produto estava próximo do vencimento e desejava desfazer o negócio, tomamos uma decisão ousada: distribuir tudo gratuitamente para que os consumidores locais experimentassem e comprovassem a qualidade do produto por conta própria”.
A estratégia funcionou. O consumidor europeu entendeu o produto, tornou-se fiel e passou a comprá-lo de forma recorrente — abrindo espaço para que a Da Terrinha expandisse suas vendas para outros países do continente. Hoje, a empresa exporta para Portugal, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Irlanda, Suíça e Estados Unidos, entre outros destinos.
A empresa já anunciou planos de instalar uma unidade de processamento de tapioca em Portugal para atender à demanda crescente de consumidores locais, não apenas da comunidade brasileira.
Da mandioca brava à tapioca: como é o processamento e a matéria-prima
A tapioca é produzida a partir da fécula da mandioca — especificamente da mandioca brava, variedade distinta da mandioca mansa consumida in natura nas residências. A distinção entre os dois tipos é feita com base nos teores de compostos cianogênicos nas raízes: a mandioca brava possui concentrações mais elevadas dessa substância e, por isso, precisa ser processada antes do consumo, sendo utilizada como matéria-prima nas indústrias de farinha e fécula.
A fécula de mandioca é uma matéria-prima versátil e amplamente utilizada pela indústria de alimentos. O amido entra como ingrediente na produção de pães, biscoitos, misturas para bolos, tapioca, massas, embutidos, queijos, requeijão, iogurtes e bebidas lácteas — com a vantagem de ser naturalmente isento de glúten. Segundo a Embrapa, a aplicação do amido de mandioca alcança mais de 800 usos industriais, incluindo tecidos, papéis, colas, tintas, embutidos de carne, cosméticos e embalagens biodegradáveis.
Para dar conta do volume de produção, a Da Terrinha recebe de 4 a 5 carretas carregadas de fécula por dia em sua fábrica. A matéria-prima chega processada: os produtores de mandioca concentrados no Paraná — estado que lidera a produção nacional destinada à indústria — têm compromissos de entrega com a empresa de até 1.000 toneladas de mandioca processada por dia para obtenção da fécula. Para se ter uma ideia da proporção envolvida, são necessários aproximadamente 5 kg de mandioca para obter 400 gramas de polvilho utilizado na fabricação da tapioca.
O Paraná é o principal estado produtor de mandioca para a indústria, seguido por Mato Grosso do Sul e São Paulo. Juntos, esses três estados representam quase 37% da produção brasileira da raiz e mais de 80% da produção nacional de fécula.
Cadeia produtiva e desafios agrícolas
O ciclo de produção da mandioca brava impõe ao setor uma dinâmica própria que exige planejamento de médio prazo. Segundo pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, a planta pode ser colhida a partir de nove meses, mas muitos produtores optam por estender o ciclo até 18 meses para aumentar a concentração de amido nas raízes. O plantio costuma começar entre abril e maio, podendo se estender até agosto, dependendo da região.
Esse ciclo longo cria um desafio estrutural para empresas que operam em escala industrial: garantir fornecimento contínuo em um mercado que cresce mais rápido do que a lavoura consegue responder. O grande volume de compras da Da Terrinha gerou, inicialmente, desconfiança entre os agricultores, que hesitavam em assumir compromissos de produção de longo prazo para um comprador que eles ainda não conheciam bem.
Josias conta que foi preciso firmar uma série de contratos de compra antecipada para sustentar o crescimento da produção. Em plantações comerciais, é fundamental sincronizar os períodos de plantio com os ciclos das variedades cultivadas e com os momentos de colheita, para assegurar um suprimento contínuo de matéria-prima ao processamento industrial.
Outro desafio relevante para o setor está na colheita, que em muitas regiões ainda é realizada de forma manual. Especialistas da Embrapa apontam que o futuro da cadeia passa pela ampliação da mecanização e pela adoção de práticas mais sustentáveis ao longo do processo produtivo.
Portfólio ampliado mantém crescimento da empresa

A Da Terrinha não é mais apenas uma empresa de tapioca. Ao longo dos anos, os sócios expandiram significativamente o portfólio. Hoje, o grupo conta com mais de 240 produtos alimentícios, entre farofas, especiarias, batata palha, alho processado, grãos e temperos. Em 2022, a empresa adquiriu a Okker Alimentos, especializada em alho processado, ampliando sua atuação no segmento de condimentos para uso doméstico e foodservice. O portfólio inclui ainda snacks, bolachas, sucos, molhos, derivados de coco, panetone, leite condensado e, desde 2020, café nas versões tradicional e extraforte com grãos 100% arábica.
E por que a Da Terrinha se tornou a maior fabricante de tapioca do mundo? A resposta é simples e revela um diferencial competitivo difícil de replicar: a tapioca é um produto genuinamente brasileiro, produzido com matéria-prima nacional, e nenhuma outra empresa no mundo opera nessa escala com esse produto. A missão declarada da companhia é clara: tornar-se uma das maiores e melhores empresas de tapioca do mundo, estar presente em todo o território nacional e nos quatro continentes.
O mercado aquecido pelo interesse crescente por alimentos sem glúten e com apelo saudável coloca vento a favor. Josias demonstra otimismo com as perspectivas para o ano. Animado, sinaliza que a empresa está se posicionando para aproveitar dois grandes momentos de pico de consumo em sequência neste ano:
“Já estamos com nosso planejamento e lançamentos para as promoções nas festas juninas, que se somarão à Copa do Mundo de futebol!”
