Com 95% de probabilidade de intensidade muito forte até dezembro, fenômeno pode afetar o desenvolvimento das plantações, elevar custos e pressionar a oferta de amêndoas
A intensificação do El Niño coloca a produção agrícola brasileira em alerta e traz desafios adicionais para a cadeia do cacau. O fenômeno altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do país. Com isso, pode afetar o desenvolvimento das plantações, dificultar o manejo e aumentar os custos de produção.
As previsões oficiais reforçam a preocupação. O quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027 traz os números mais recentes. Divulgado por órgãos como o Inmet, o INPE e o Cemaden, o documento indica 95% de probabilidade de intensidade muito forte entre outubro e dezembro. A previsão também aponta seca mais intensa no Norte e no Nordeste, regiões com áreas importantes de produção agrícola.
Nesse cenário, projetos estruturados para lidar com adversidades climáticas ganham peso. Eles podem ajudar produtores e comunidades rurais a reduzir vulnerabilidades e preservar a continuidade de suas atividades.
Como o estresse hídrico atinge o cacaueiro
O cacaueiro depende de umidade adequada para se desenvolver. Secas prolongadas e temperaturas elevadas podem comprometer o crescimento das plantas e a atividade fotossintética. Um estudo publicado em 2024 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira identificou queda na capacidade fotossintética e no crescimento de mudas de cacau sob estresse hídrico prolongado.
O impacto, porém, vai além da planta isolada. Para Fernando Vincenti, sócio-fundador da Verthic, consultoria socioambiental que já coordenou projetos de plantio de cacau com comunidades indígenas na Amazônia, é preciso avaliar a capacidade de adaptação de todo o sistema produtivo:
“Quando falamos de produção agrícola diante de eventos climáticos extremos, precisamos considerar não apenas o impacto imediato sobre as plantas, mas também a capacidade de adaptação de todo o sistema produtivo. A falta de água, o calor excessivo e as mudanças no regime de chuvas podem dificultar o estabelecimento de novas mudas, aumentar a necessidade de manejo e comprometer a produtividade. A intensidade desses efeitos depende das condições de cada região e das características da plantação”.
Oferta, custos e preços dependem de vários fatores
Se o clima afetar a produtividade e a oferta de amêndoas, a cadeia pode sentir pressão sobre custos e preços. Esse efeito, porém, não é automático.
Estoques, demanda internacional, produção de outros países e condições de mercado também pesam na equação.
Preparação começa antes dos impactos
A preparação para adversidades climáticas deve começar antes que os prejuízos se concretizem. A escolha de espécies e variedades adequadas, o planejamento do plantio, o manejo do solo e da água e o monitoramento ambiental podem tornar os sistemas produtivos mais resilientes.
Em projetos agroflorestais, a combinação planejada de espécies agrícolas e florestais pode diversificar a produção e favorecer o funcionamento do ecossistema. Os resultados, no entanto, dependem do desenho do sistema, das condições locais e do manejo adotado.
Ao defender uma abordagem sob medida, Fernando Vincenti, sócio-fundador da Verthic, afirma que cada território exige soluções próprias:
“Não existe uma solução única para todos os territórios. Um projeto consistente exige conhecimento técnico, experiência de campo e uma equipe capaz de compreender tanto as características ambientais quanto a realidade social e econômica das comunidades envolvidas. É preciso planejar, acompanhar os resultados e adaptar as estratégias conforme as condições mudam”.
Abordagem interdisciplinar na prática
Criada em 2011, a Verthic estrutura sua atuação em uma equipe interdisciplinar. O time reúne profissionais de engenharia florestal, agronomia, biologia, ecologia, antropologia e gestão ambiental.
A consultoria atua em iniciativas de plantio de cacau, sistemas agroflorestais, restauração e regeneração florestal e conservação territorial. Segundo a empresa, o trabalho considera as particularidades de cada localidade e a autonomia das comunidades.
Em períodos de maior instabilidade climática, integrar planejamento produtivo, conservação ambiental e conhecimento do território pode ajudar a reduzir riscos. Mais do que reagir aos prejuízos, a preparação antecipada contribui para construir sistemas agrícolas capazes de manter suas atividades no longo prazo.
