Produção mundial certificada cresce, demanda avança 9,5% e Brasil responde por 83% do volume global; desafio ainda é ampliar valor percebido ao longo da cadeia
A Mesa Global da Soja Responsável (RTRS) encerrou 2025 com um marco expressivo: a produção mundial de soja certificada atingiu 10,3 milhões de toneladas. O resultado consolida a expansão do padrão de certificação e evidencia que práticas agrícolas sustentáveis estão ganhando escala real, não apenas discursiva, ao longo da cadeia global de produção de alimentos.
Pelo lado da demanda, o avanço foi igualmente significativo. A procura global pelo grão certificado cresceu 9,5% em 2025, somando 8,1 milhões de toneladas. O movimento reflete o maior engajamento de indústrias de ração animal e alimentos diante de pressões crescentes por cadeias mais rastreáveis e com menor impacto ambiental.
Brasil concentra 83% da produção mundial certificada
O protagonismo do Brasil na soja responsável é inegável. O país concentra 220 unidades certificadas, responde por 77% da área total e por 83% da produção global de soja RTRS. Os dados posicionam o Brasil como principal fornecedor de soja responsável ao mercado internacional, à frente de Argentina, Paraguai, Uruguai, Índia e Uganda — os outros países com produtores certificados pela RTRS.
A demanda pelo grão certificado segue liderada por mercados europeus. Holanda e Dinamarca puxam o consumo impulsionados por regulamentações ambientais mais rígidas e pela pressão de consumidores e redes de varejo por rastreabilidade comprovada. Para a indústria de alimentos e bebidas, esse movimento representa tanto uma exigência de mercado quanto uma oportunidade de diferenciação competitiva.
Crescimento da rede e diversificação para o milho
A base produtiva da certificação também se expandiu. A RTRS reúne hoje mais de 84 mil produtores certificados, além de uma rede que inclui centenas de unidades de armazenamento, portos e indústrias conectando diferentes elos da cadeia.
Em 2025, 17 novas empresas e 41 novos sites foram certificados, ampliando a presença da organização em mercados estratégicos como Brasil, Argentina, Índia e Paraguai. Outro dado relevante é a diversificação: a produção de milho certificado RTRS cresceu 17% no período, alcançando 5,4 milhões de toneladas — um indicador de que o modelo está se expandindo para além da soja.
Desafios: valor percebido e acesso de pequenos produtores
Apesar dos avanços, ampliar a demanda qualificada e gerar valor ao longo da cadeia seguem como os grandes desafios da certificação. O gerente de Desenvolvimento de Mercado Brasil da RTRS, Alvaro A. P. Queiroz, explica que a soja está presente em inúmeros alimentos, mas de forma invisível ao consumidor final — o que limita o reconhecimento do diferencial da certificação.
“A cadeia da soja é longa e complexa, e o consumidor final não percebe claramente sua presença nos produtos. Como resultado, a percepção de valor da soja certificada é baixa, limitando a captura de prêmio ao longo da cadeia.”
Queiroz aponta que barreiras como o custo de adesão e o desconhecimento sobre o processo ainda restringem a participação de pequenos e médios produtores. Ao mesmo tempo, ressalta que boa parte dos produtores brasileiros já cumpre os critérios exigidos, graças à legislação nacional vigente — o que reduz a complexidade real da adesão.
“Muitos ainda enxergam a certificação como um processo complexo, quando, na prática, boa parte dos produtores brasileiros já cumpre diversos critérios exigidos, graças à legislação nacional.”
Oportunidades em novos mercados e na agenda ESG
Para os próximos anos, a RTRS mira expansão para novos mercados — com destaque para o Sudeste Asiático e o setor de aquacultura — e vê na certificação uma ferramenta estratégica para atender exigências crescentes de rastreabilidade e pegada de carbono.
O executivo reforça que a certificação vai além do combate ao desmatamento. Ela abrange condições de trabalho, relacionamento com comunidades e boas práticas agrícolas — critérios que dialogam diretamente com as exigências de programas ESG e com regulamentações como o Regulamento de Produtos Livres de Desmatamento da União Europeia (EUDR).
“É importante que os mercados compreendam o que é a certificação e como ela contribui para uma cadeia mais responsável. Ela vai além do combate ao desmatamento, abrangendo também condições de trabalho, relacionamento com comunidades e boas práticas agrícolas.”
Para o setor alimentício, o recado é claro: a soja certificada RTRS não é apenas uma credencial ambiental. É uma resposta concreta às exigências de mercados mais exigentes — e uma vantagem competitiva que começa no campo e deve chegar ao prato.
