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Estudo da Embrapa revela que o Brasil exporta a US$ 1,58/kg enquanto a Suíça revende o mesmo produto por até US$ 34,60 — e aponta caminhos para virar esse jogo

O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, mas segue capturando uma fatia pequena do valor que a bebida gera ao longo da cadeia. Um estudo da pesquisadora Rita de Cássia Milagres, da Embrapa, apresentado no debate “Mercado brasileiro do café: perspectivas, desafios e oportunidades”, organizado pela Rede de Socioeconomia da Embrapa, traça um diagnóstico detalhado do setor — e não faltam alertas.

A análise integra dados da FAO, do Comex/MDIC e do IBGE, combinando séries históricas com números atualizados. O resultado é um mapa abrangente de um mercado em expansão — mas com gargalos estruturais que o Brasil ainda não equacionou.

Mercado global em crescimento acelerado

A produção mundial de café saltou de cerca de 8,5 milhões para 11,6 milhões de toneladas entre 2010 e 2024. No mesmo período, o consumo global cresceu aproximadamente 44%, atingindo 11,7 milhões de toneladas. O Brasil ocupa a liderança da produção com folga, à frente de Vietnã, Indonésia e Colômbia, com estimativa de cerca de 66 milhões de sacas para 2026, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Apesar da posição privilegiada em volume, a produtividade média brasileira ainda fica abaixo de concorrentes diretos. Rita de Cássia Milagres, pesquisadora da Embrapa e autora do levantamento, contextualiza o desafio antes de trazer os números:

“A China registra rendimento de 3.744 kg por hectare e o Vietnã ultrapassa os 3 mil kg/ha, o Brasil apresenta média de 1.752 kg/ha.”

Produtividade como prioridade estratégica

Para elevar esse indicador, o estudo aponta uma combinação de fatores: inovação tecnológica, adaptação genética, sustentabilidade e melhor uso da informação. Uma das apostas centrais é a reconfiguração varietal, com maior atenção ao café canéfora. No cenário interno, o canéfora já apresenta produtividade média de 2.128 kg/ha, superior ao arábica, que registra cerca de 1.399 kg/ha.

A pesquisadora defende ainda a incorporação de inteligência artificial, agricultura de precisão e automação como ferramentas para otimizar o manejo das lavouras. Outro vetor é a rastreabilidade, com apoio de tecnologias como blockchain, que além de atender exigências de mercado, contribui para organizar e melhorar os sistemas produtivos:

“Embora esse ponto esteja associado às exigências de mercado, ele também contribui para organizar a produção e induzir melhorias nos sistemas produtivos.”

O paradoxo do valor: muito volume, pouco preço

Se a produtividade é um desafio, o problema do valor agregado é ainda mais agudo. O Brasil responde por parcela predominante do volume exportado entre os principais produtores, mas vende barato. Rita de Cássia resume o problema com clareza:

“Somos bons em commodities, mas não sabemos agregar valor.”

O café brasileiro é exportado a cerca de US$ 1,58 por quilo. Países europeus chegam a vender o mesmo produto por valores até 22 vezes maiores. A Suíça, por exemplo, alcança até US$ 34,60 por quilo. A pesquisadora usa o mercado de cápsulas para ilustrar como o diagnóstico certo pode mudar a trajetória de um segmento inteiro: o Brasil chegou a exportar café em grão para importar cápsulas industrializadas — e políticas públicas ajudaram a reverter esse ciclo, tornando o país exportador do produto.

O caminho, na avaliação da pesquisadora, passa por ampliar a participação em segmentos como café torrado, moído e solúvel, além de explorar novos produtos derivados e canais digitais de venda direta ao consumidor internacional.

Concentração regional e impacto econômico

A produção brasileira permanece concentrada no Sudeste, responsável por 84,5% do total. Minas Gerais responde por quase metade da produção nacional, seguido por Espírito Santo, São Paulo e Bahia. Estados como Rondônia ganham relevância na produção de canéfora, especialmente no Norte do país.

O peso econômico do café é significativo. Em 2025, o produto contribuiu com aproximadamente US$ 15 bilhões para o superávit da balança comercial do agronegócio, representando quase 22% de um total de cerca de US$ 68 bilhões.

Riscos geopolíticos e gargalos logísticos

Marcos Matos, diretor executivo do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), trouxe a perspectiva do mercado internacional ao debate. Ele alertou para um ambiente de crescente instabilidade geopolítica e regulatória, com impactos diretos nas cadeias de fornecimento.

“O pior prejuízo é não estar no blend.”

Matos estima que gargalos portuários fizeram o Brasil deixar de exportar o equivalente a US$ 2,6 bilhões. Apesar dos riscos, ele vê sinais positivos na demanda: crescimento do consumo em mercados maduros como a Alemanha e expansão de novos polos consumidores.

Base institucional e necessidade de gestão de risco

Silvio Farnese, diretor do Departamento de Análise Econômica e Políticas Agropecuárias do Ministério da Agricultura e Pecuária, destacou os avanços institucionais e tecnológicos construídos ao longo de décadas. Segundo ele, mais de R$ 100 milhões foram destinados nos últimos anos a pesquisa e capacitação pelo Ministério e pelo Funcafé.

Farnese também destacou o papel das cooperativas na difusão tecnológica entre pequenos produtores, mas sinalizou uma lacuna importante: a capacitação dos cafeicultores para a gestão de risco e uso de instrumentos financeiros de mercado:

“O produtor precisa entender o mercado, não apenas produzir.”

Vantagem comparativa que precisa virar competitiva

Ao encerrar o debate, Rita de Cássia Milagres sintetizou o momento do setor com uma imagem direta: o Brasil tem “a faca e o queijo na mão” no campo da sustentabilidade. O país possui vantagens comparativas — clima, escala, pesquisa, diversidade varietal — mas ainda não as converteu em diferenciação competitiva mensurável e comunicável no mercado global.

A janela de oportunidade existe. Mercados emergentes como China, Coreia do Sul e Turquia abrem espaço para produtos de maior valor agregado. O comércio digital permite venda direta ao consumidor internacional sem intermediários. E o crescimento dos cafés especiais — que avança a taxas superiores ao mercado convencional — aponta o caminho que o setor precisa trilhar com mais velocidade.


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