Estudo da Embrapa mostra que espécie sem ferrão potencializa colheitas e é compatível com defensivos agrícolas; FAO celebra Dia Mundial das Abelhas com agenda global em maio
Uma abelha nativa brasileira pode ser a aliada que a cafeicultura precisava para ganhar produtividade sem ampliar área plantada. Pesquisa conduzida pela Embrapa Meio Ambiente e parceiros mostra que o manejo da Scaptotrigona depilis — a popular mandaguari — eleva em até 67% a produção de frutos do café arábica. O estudo foi publicado na revista científica Frontiers in Bee Science e avança em uma linha de pesquisa que relaciona polinizadores e cafeicultura em condições reais de campo.
Os pesquisadores instalaram colônias nas fazendas na proporção de dez colônias por hectare, antes da florada. A comparação entre ramos próximos e distantes das colônias foi o método que permitiu atribuir o ganho à atividade das abelhas. O resultado surpreende especialmente porque o aumento foi verificado em cultivares autocompatíveis — variedades que conseguem se fecundar com o próprio pólen e que, em teoria, dependeriam menos de polinizadores externos.
Meliponíneos entram em cena
A mandaguari pertence ao grupo dos meliponíneos, as abelhas sem ferrão. São insetos sociais, nativos do Brasil, presentes em diferentes biomas. Enquanto estudos anteriores com café trabalharam principalmente com abelhas africanizadas (Apis mellifera), esta pesquisa é um dos primeiros a quantificar o impacto direto de uma espécie nativa manejada sobre a produção, em condições comerciais.
O diferencial do trabalho está também nos dados inéditos sobre a interação entre polinizadores nativos e insumos químicos. Os pesquisadores monitoraram colônias expostas ao tiametoxam, inseticida neonicotinoide amplamente usado em safras de café. Foram avaliados indicadores como produção de cria, mortalidade de larvas e atividade de coleta de alimentos.
Os resíduos do produto e de seu metabólito, a clotianidina, foram detectados em néctar e pólen acessíveis às abelhas, mas os parâmetros das colônias não apresentaram diferenças estatisticamente significativas em relação às colônias mantidas em áreas orgânicas.
Sustentabilidade e produtividade juntas
O debate sobre compatibilidade entre defensivos e polinizadores costuma gerar tensão no setor. Os resultados desta pesquisa apontam para um caminho diferente. A bióloga Jenifer Ramos, primeira autora do estudo e bolsista de estímulo à inovação na Embrapa Meio Ambiente, ressalta o potencial da descoberta para a cafeicultura nacional.
“O estudo demonstra que o uso de abelhas nativas manejadas pode gerar ganhos expressivos de produtividade, ao mesmo tempo em que contribui para a conservação dos polinizadores e para o fortalecimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis. Trata-se de uma solução baseada na natureza com grande potencial de aplicação na cafeicultura brasileira.”
O pesquisador Cristiano Menezes, coordenador do trabalho na Embrapa Meio Ambiente, reforça que a pesquisa não trata apenas de produtividade. Segundo ele, os resultados indicam que é possível integrar manejo fitossanitário e preservação de polinizadores quando as recomendações técnicas são seguidas.
“A pesquisa traz evidências importantes de que é possível conciliar o manejo fitossanitário com a manutenção da saúde das colônias de abelhas, desde que sejam seguidas as recomendações técnicas. Isso contribui para o desenvolvimento de estratégias integradas que aumentam a produtividade agrícola e promovem a sustentabilidade no campo.”
Contexto mais amplo de pesquisa
Este estudo se insere em uma linha de investigação iniciada em 2021 em fazendas comerciais de São Paulo e Minas Gerais. Um trabalho anterior, que avaliou abelhas africanizadas nas mesmas condições, estimou ganho potencial de R$ 22 bilhões por ano para a cadeia do arábica com a adoção da polinização assistida em larga escala. Os dois estudos são complementares e compõem um esforço conjunto de pesquisa que envolve a Esalq/USP, a UFRGS, a Natural England e a Eurofins Agroscience Services, com apoio da Syngenta.
Para os pesquisadores, os resultados com a mandaguari ainda são iniciais. O potencial dos polinizadores nativos na cafeicultura pode ser ainda maior, à medida que novos estudos ampliem a escala e a diversidade de condições avaliadas.

FAO marca Dia Mundial das Abelhas com agenda em Roma e Eslovênia
O estudo brasileiro chega a público em momento de atenção global ao tema. A FAO celebra o Dia Mundial das Abelhas em 20 de maio de 2026 com uma série de eventos que destacam o papel central dos polinizadores na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade e nos sistemas agroalimentares sustentáveis.
O tema escolhido para este ano — “Bee Together for People and the Planet” — celebra a relação histórica entre humanos e abelhas e enfatiza como o conhecimento tradicional e a inovação na apicultura podem apoiar meios de vida, inclusive de mulheres e jovens.
Na sede da FAO em Roma, o diretor-geral Qu Dongyu inaugurará uma exposição temporária dedicada às abelhas e à apicultura sustentável, com artefatos históricos, colmeias tradicionais e modernas, e inovações do setor. O evento inclui conexão virtual ao vivo com o Terceiro Fórum Internacional para Ação em Apicultura Sustentável e Polinização, realizado em Maribor, na Eslovênia, entre 20 e 21 de maio.
O fórum, organizado conjuntamente pela FAO e pelo governo esloveno, reúne governos, pesquisadores e formuladores de políticas para debater o fortalecimento da interface entre ciência e política pública, a expansão de práticas agrícolas favoráveis aos polinizadores e os desafios emergentes relacionados à qualidade do mel e ao comércio internacional.
Como parte das celebrações, uma instalação de arte pública dedicada aos polinizadores silvestres foi inaugurada no Jardim Botânico de Roma em 18 de maio. A obra, criada pelo artista Cyril de Commarque com apoio técnico da FAO, une arte e ciência para ampliar a consciência sobre a importância dos polinizadores e da biodiversidade.
A data tem respaldo institucional consolidado. O Dia Mundial das Abelhas foi estabelecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2017, por iniciativa do governo da Eslovênia, e é celebrado anualmente desde 2018. Os números justificam a atenção: cerca de 75% das principais culturas agrícolas do mundo se beneficiam, ao menos em parte, da ação de polinizadores — com destaque para frutas, hortaliças e oleaginosas. Quase 90% das plantas silvestres com flores dependem, em algum grau, dos polinizadores para se reproduzir.
Pressão global no mercado de café

O avanço da pesquisa com a mandaguari é especialmente relevante diante do cenário atual. Dados da Organização Internacional do Café mostram que a produção mundial no ciclo 2023/24 ficou em torno de 178 milhões de sacas de 60 kg, enquanto o consumo alcançou 177 milhões — uma margem mínima que deixa o mercado vulnerável a oscilações climáticas. Para 2024/25, a estimativa global foi revisada para 176,2 milhões de sacas, mantendo o quadro de abastecimento apertado.
A FAO apontou que condições climáticas adversas em 2024 — seca no Brasil, estiagem no Vietnã, excesso de chuvas na Indonésia — contribuíram para alta de 38,8% nos preços internacionais do café. Nesse cenário, estratégias que aumentem produtividade sem ampliar área cultivada ganham peso econômico e ambiental. O manejo de polinizadores nativos, como sugere o estudo com a mandaguari, desponta como uma dessas alternativas.
O consumo global de café segue em expansão, com crescimento próximo de 2% ao ano, impulsionado pela abertura de novos mercados e pela consolidação da bebida em países tradicionais importadores. Esse movimento pressiona por sistemas produtivos mais resilientes e eficientes — e coloca o Brasil, principal produtor mundial de arábica, no centro das atenções para a safra 2025/26.
