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Acordo Mercosul-União Europeia amplia oportunidades, mas nova régua europeia deve exigir mais rastreabilidade, governança e comprovação socioambiental da cadeia cafeeira

O café brasileiro já tem mercado, qualidade reconhecida e presença consolidada na Europa. Mas a próxima disputa não será apenas por preço, volume ou qualidade do grão. Será por confiança. Em um ambiente europeu cada vez mais orientado por rastreabilidade, due diligence e controle de cadeias produtivas, produtores, cooperativas, armazéns, exportadores, torrefadores e indústrias precisarão provar, com dados e documentos, a origem e a conformidade socioambiental do café.

O alerta é da especialista em ESG, conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli, Eliana Camejo. Segundo ela, é justamente esse ponto que parte da cadeia ainda pode estar subestimando.

ESG como sistema de controle, não como discurso

Investir em ESG não significa apenas elaborar relatório, aderir a uma pauta reputacional ou responder a uma tendência de mercado. Para o café brasileiro neste novo contexto, ESG passa a significar capacidade de preservar acesso comercial, reduzir risco para compradores europeus, agregar valor ao produto e evitar que uma boa produção seja fragilizada por falta de evidência.

A discussão ganha peso diante da entrada em vigor da aplicação provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. O café solúvel brasileiro, por exemplo, terá redução inicial de 1,8% na tarifa, com previsão de zerar completamente a alíquota de 9% a partir do quinto ano. O cenário é de abertura. Mas abertura com exigência.

O que o comprador europeu vai perguntar

Mesmo empresas e produtores que já exportam para a União Europeia podem precisar elevar o nível de comprovação. A questão não é começar do zero, mas acompanhar uma régua que está ficando mais exigente. Eliana Camejo detalha o que tende a ser demandado pelos importadores:

“O comprador europeu tende a perguntar cada vez mais de onde veio o café, em que área foi produzido, quem participou da cadeia, se há regularidade ambiental, se houve desmatamento após o marco regulatório, como os lotes foram segregados, quais documentos sustentam essas informações e quem governa esses dados.”

EUDR: a base regulatória que dá urgência ao tema

A pressão tem fundamento jurídico claro. O Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR) inclui o café entre os produtos sujeitos a exigências de rastreabilidade. Conforme proposta da Comissão Europeia divulgada em outubro de 2025, haverá um novo plano de implementação com período de adaptação escalonado: grandes e médias empresas entram em vigor em 30 de dezembro de 2026, com seis meses sem penalidades; micro e pequenas empresas seguem o mesmo formato a partir de 30 de dezembro de 2026.

Na prática, importadores europeus precisarão demonstrar diligência devida, e essa exigência tende a descer para produtores, cooperativas, armazéns, beneficiadores, transportadoras e exportadores brasileiros — que deverão comprovar rastreabilidade da origem até o talhão, com geolocalização, uso da terra e regularidade no CAR.

O que o Brasil já tem — e o que ainda falta

O setor cafeeiro brasileiro parte de uma posição relativamente favorável. Praticamente todas as fazendas de café do Brasil já foram georeferenciadas para fins de registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR), o que representa uma vantagem significativa em termos de conformidade com o EUDR.

Em resposta à demanda crescente, a Conab lançou, em parceria com a UFMG, a Plataforma Parque Cafeeiro, ferramenta pública, gratuita e de acesso universal voltada a toda a cadeia produtiva do café, desenvolvida para certificar o produto como livre de desmatamento, com chancela do governo federal. O Cecafé também atua nessa frente, em parceria com a Serasa Experian, com uma plataforma de rastreabilidade que cruza dados georreferenciados de toda a cadeia exportadora.

Mesmo com esses avanços, Eliana Camejo aponta que ter os dados não é suficiente. É preciso governá-los, documentá-los e apresentá-los de forma que o comprador europeu consiga cumprir sua própria obrigação regulatória.

Quem se preparar sai na frente

A abertura comercial do acordo Mercosul-UE representa uma janela real para o café brasileiro. Mas janelas não ficam abertas indefinidamente — especialmente quando há regulação determinando quem pode passar por elas.

“O café brasileiro já é competitivo, mas a nova pergunta do mercado europeu não será apenas sobre qualidade. Será sobre prova. Quem conseguir demonstrar origem, rastreabilidade, regularidade ambiental e governança da cadeia tende a ganhar confiança. Quem tratar ESG como discurso, e não como sistema de controle, pode perder valor justamente em um momento de abertura comercial”, afirma Eliana Camejo, especialista em ESG, conselheira de administração e vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli.

O recado vale para toda a cadeia — do produtor ao exportador. Não basta ter um café de qualidade. É preciso ter um café que possa ser provado.


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