Pesquisadora da UnB propõe modelo que conecta economia local e desenvolvimento urbano — e simula retorno de R$ 48 milhões para cada R$ 20 milhões investidos em município baiano
O Brasil tem mais de 3.300 municípios com menos de 20 mil habitantes — e praticamente nenhum instrumento de planejamento urbano pensado para a realidade deles. Essa lacuna é o ponto de partida da tese de doutorado da urbanista Carlla Brito Furlan Pourre, defendida na Universidade de Brasília (UnB), que propõe um modelo de desenvolvimento urbano ancorado nas vocações econômicas locais — com destaque para o papel das agroindústrias.
A pesquisa parte de um dado revelador do IBGE: cerca de 70% dos municípios brasileiros têm menos de 20 mil habitantes, mas os instrumentos de planejamento disponíveis foram concebidos para grandes centros. O resultado é um vácuo de políticas que deixa essas cidades à margem do desenvolvimento — mesmo quando estão inseridas em regiões economicamente dinâmicas, como o agronegócio.
O diagnóstico: soja que sai, riqueza que não fica
O estudo de caso escolhido pela pesquisadora foi Baianópolis, município do oeste da Bahia com cerca de 14 mil habitantes, localizado no Matopiba — região formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e uma das fronteiras agrícolas mais ativas do país.
Apesar de estar cercada por extensas lavouras de soja e milho, a cidade aproveitava pouco esse potencial. O diagnóstico inicial mostrou que apenas 20% da cadeia produtiva dessas culturas estava estruturada localmente, sem indústrias de processamento e com baixa oferta de serviços de apoio. A consequência é conhecida: migração de trabalhadores para centros maiores, informalidade, pobreza e perda de renda para fora do município.
A tese aponta que o planejamento urbano precisa ser construído exatamente a partir dessa realidade — e não imposto de cima para baixo, com instrumentos que não se encaixam na escala nem na dinâmica local.
Cadeias de negócios como eixo do planejamento

A proposta central da pesquisadora é tratar o planejamento urbano como uma extensão da política econômica local. Em vez de pensar apenas em desenho urbano — onde construir, o que reformar, quais equipamentos instalar — o modelo defende que as decisões de desenvolvimento precisam estar articuladas às cadeias produtivas já existentes ou com potencial de crescimento na região.
A urbanista Carlla Pourre, mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional pela UnB, explica como o modelo funciona na prática:
“A tese propõe um modelo de desenvolvimento baseado em cadeias de negócios, no qual o planejamento urbano deixa de ser pensado apenas como desenho urbano e passa a ser articulado à dinâmica econômica local.”
Isso significa mapear as vocações de cada município, identificar gargalos nas cadeias produtivas e usar essa leitura para orientar decisões de infraestrutura, serviços e políticas públicas. O objetivo é estimular a circulação de renda internamente, ao invés de deixar que o valor gerado no campo escape para outros centros.
R$ 20 milhões investidos, R$ 48 milhões de retorno
A simulação realizada na pesquisa testou a implantação de uma esmagadora de soja em Baianópolis, com investimento estimado em R$ 20 milhões. Os resultados projetados indicam um impacto econômico total de aproximadamente R$ 48 milhões — ou seja, um multiplicador de 2,4 vezes o capital aplicado.
Além do retorno financeiro, a simulação aponta criação de cerca de 285 empregos diretos, indiretos e induzidos, e geração de aproximadamente R$ 8 milhões em renda anual. A completude da cadeia produtiva de soja e milho no município avançaria de 20% para 41%, incorporando novos serviços e atividades econômicas.
Carlla Pourre destaca o que esses números representam para a população local:
“O município de Baianópolis aproveitaria novos fluxos de capital, pessoas e serviços, aumentando a qualidade de vida da população local.”
O vácuo de políticas para pequenas cidades
A pesquisa também aponta por que os instrumentos atuais de planejamento urbano não funcionam para municípios de pequeno porte. Ferramentas como a Operação Urbana Consorciada — parceria entre poder público e iniciativa privada para viabilizar intervenções urbanas — e os Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepac) foram concebidas para mercados imobiliários aquecidos, comuns em grandes centros.
Em municípios menores, essas ferramentas não atraem o interesse do setor privado, pois o potencial de retorno financeiro é reduzido. Pior: quando são aplicadas, costumam ser definidas sem estudos adequados e sem integração com as necessidades reais da população.
A urbanista reforça o ponto:
“Há um verdadeiro ‘vácuo’ de políticas de planejamento urbano voltadas às pequenas cidades. Esses municípios demandam modelo híbrido de fomento, que combine recursos públicos, financiamento de desenvolvimento, capital privado e fundos multilaterais.”
Um modelo replicável
A tese não se esgota em Baianópolis. A pesquisadora defende que a metodologia proposta pode ser adaptada a qualquer município que queira atrair investimentos com base em suas vocações econômicas reais, reduzir desigualdades e construir estratégias de crescimento mais sustentáveis.
Na prática, isso significa criar condições para reter população local com mais trabalho e renda, ampliar serviços urbanos e dinamizar a economia a partir do que o território já oferece — em vez de importar modelos genéricos que ignoram o contexto.
Para o setor de alimentos e agronegócio, a mensagem é direta: municípios próximos a regiões produtoras representam oportunidades reais de instalação industrial, com potencial de impacto econômico significativo e apoio de políticas públicas locais — desde que o planejamento seja feito de forma integrada e baseado em dados.
