Familiar, artesanal e com 80% de mulheres na equipe, a Bracco Bosca aposta em pequenos lotes sustentáveis, no enoturismo e em um moscatel que quebrou um estereótipo
Há uma árvore solitária no meio de um vinhedo uruguaio, e ela guarda uma das histórias mais curiosas do vinho sul-americano. Dizem os antigos moradores que, sob o ombu, uma panela cheia de ouro ficava escondida.
A lenda pertence à terra onde nasceu a Bracco Bosca, vinícola familiar localizada em Atlántida, a cerca de 8 quilômetros do mar. O vinhedo fica ao lado da Laguna del Cisne, área ecologicamente protegida.
Hoje, o ombu é o símbolo da casa e traduz a filosofia de uma empresa de pequeno porte, que prefere cuidar de cada garrafa a competir por volume.
Cinco gerações entre o mar e a Laguna del Cisne
A vinícola foi fundada em 2005, mas os vinhedos estão na família há cinco gerações. Originários do Piemonte, na Itália, os antepassados se estabeleceram na região de Atlántida para seguir a tradição vinícola.
Foram Darwin Bracco e Mirtha Bosca que compraram o terreno antes pertencente aos “Gallegos”, em frente à casa principal. Ali ergueram a adega, exatamente onde estava o ombu.
Segundo a família, os antigos donos tinham um armazém na propriedade e escondiam as economias sob a árvore. Quando alguém saía para as compras, a brincadeira era dizer que o dinheiro vinha do ombu.
Anos depois, um raio atingiu a árvore durante uma tempestade. A família ainda brinca que ela funcionava como para-raios, por causa do metal enterrado. Com o tempo, o ombu voltou a brotar, e o episódio ganhou peso emocional para todos.
O moscatel seco que desafiou o estereótipo
Entre os rótulos da casa, um tem lugar especial no coração de Fabiana, executiva da Bracco Bosca. É o moscatel seco, que a vinícola apresenta como o primeiro do tipo no Uruguai.
A base é a moscatel de Hamburgo, uva tinta vinificada em branco. Segundo a executiva, foi a primeira variedade plantada no país, o que torna a escolha uma forma de inovar sem abrir mão da tradição.
A ideia nasceu de um incômodo antigo do mercado. Ao explicar a origem do projeto, Fabiana Bracco, executiva da Bracco Bosca, lembra o estereótipo que cercava o consumo feminino de vinho:
“Todo mundo falava que as mulheres só tomavam vinho doce e que a gente não sabia beber. Então eu me propus a fazer, com o moscatel tradicional do Uruguai, um grande vinho fino, mas seco e elegante, para que os homens também bebessem.”
O resultado conversa com a própria composição da empresa, onde as mulheres ocupam papel central. Para a Bracco Bosca, o rótulo mostra que tradição e ousadia podem caminhar juntas.
Fabiana, entre tantas conversas que ocorreram no corredor com amigos e clientes, explicou muito bem o vinho:
Pequena produção, grande identidade
O caráter boutique aparece com mais força no Gran Reserva Gran Ombu, elaborado com uvas Cabernet Franc. Por ser uma empresa de pequeno porte, a vinícola produz apenas 600 garrafas desse vinho. Particularmente, foi um dos melhores que tive oportunidade de degustar na Prowine.
A escala reduzida não é limitação, e sim escolha. Os vinhos são elaborados em pequenos lotes e contam com certificação de sustentabilidade em 100% da produção, segundo a própria vinícola.
Esse perfil dialoga com o cenário uruguaio. De acordo com dados divulgados na ProWine São Paulo, o país tem 156 vinícolas, em sua maioria familiares.
O mesmo levantamento mostra que o vinho uruguaio cresceu 25% no mercado brasileiro entre os primeiros semestres de 2025 e 2026. O Brasil é o principal destino das exportações do país.
Enoturismo para viver o processo
A busca por uma experiência sensorial completa levou a família a investir no enoturismo. A propriedade abriga a Posada Viña Viva, pensada para que o visitante se hospede dentro do vinhedo.
Os hóspedes acompanham de perto o processo produtivo, participam de degustações e almoçam no salão de eventos da vinícola. A proposta aproxima o consumidor de quem faz o vinho.
Para Fabiana, o que sustenta esse projeto é uma ideia simples, que ela resume ao falar do ombu como emblema da marca:
“É uma árvore que chama a atenção e mostra que o vinho quebra preconceitos, para as pessoas conhecerem como é possível fazer coisas maravilhosas quando se coloca carinho e um pouco de história no que se faz.”
Quem quiser conhecer a vinícola encontra a Bracco Bosca na Carretera Sosa Díaz, km 43.500, em Piedra del Toro, Atlántida. Mais informações estão no site oficial e no Instagram da vinícola.
