Eleita a melhor vinícola do mundo em 2025, a chilena VIK lança linha vinificada em ânforas artesanais e revela os bastidores da criação de seu vinho ícone
A Viña VIK apresentou as duas iniciativas que resumem sua filosofia de vinificação: o vinho ícone da casa, batizado apenas de “VIK”, e uma segunda linha batizada de “vinho circular”, vinificada em ânforas artesanais enterradas no solo na propriedade. As informações foram detalhadas pelo enólogo-chefe Cristián Vallejo na Festa da Vendímia, realizada em Araçoiada da Serra – SP no dia 26 de setembro.
A vinícola foi fundada em 2004 pelos empresários noruegueses Alexander e Carrie Vik, no Vale de Millahue, na região vinícola de Cachapoal. A evolução da VIK é notável: em novembro de 2025, a VIK foi eleita a melhor vinícola do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Vineyards, depois de ter ficado em segundo lugar em 2024 e em terceiro em 2023.
Personalidade, não estilo
Para Vallejo, o objetivo da vinícola nunca foi copiar um modelo europeu de vinho. Ele resumiu o posicionamento na masterclass conduzida no evento:
“O que buscamos não é ter um estilo, porque estilo é imitar alguém. O que buscamos é personalidade — a expressão genuína deste lugar”
Essa busca também apareceu na escolha do terreno no Chile, feita ainda antes da fundação da vinícola. A empresa trabalhou extensivamente no estudo sobre o uso racional e sustentável dos elementos naturais onde instalou a estrutura dos vinhedos e do hotel. Segundo Vallejo, os fundadores passaram por um processo de dois anos de estudos com climatologistas, geólogos e agrônomos antes de definir onde plantar.
O critério decisivo foi a formação geológica da Cordilheira da Costa chilena, que Vallejo descreve como uma das mais antigas da América do Sul. Segundo o enólogo, essa cordilheira teria cerca de 200 milhões de anos, contra cerca de 80 milhões de anos da Cordilheira dos Andes — o que, na sua leitura, resultaria em solos mais complexos e diversos para o cultivo da uva.
A evolução do corte do vinho ícone
O vinho “VIK” é um blend, majoritariamente entre Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, que muda de composição percentual a cada safra. Segundo Vallejo, essa variação reflete a filosofia da casa de não seguir uma fórmula fixa de corte:
“Aprendi na França que o millésime é importante. Por isso não me fixo em uma única fórmula: a natureza muda a cada ano, e o vinho tem que refletir isso”, explicou o enólogo.
O exemplo mais recente e verificável dessa filosofia é a safra 2021, um corte de 77% Cabernet Franc e 23% Cabernet Sauvignon. O rótulo recebeu 100 pontos do crítico James Suckling e ocupou a 6ª posição em seu ranking dos 100 melhores vinhos do mundo de 2024, sendo o vinho chileno e sul-americano mais bem colocado da lista.
Segundo Vallejo, a decisão sobre o percentual de barrica nova (já descrevi este processo de construção própria de barricas) de cada safra só é tomada em fevereiro, após observar como foi a primavera e parte do verão no hemisfério sul — o que permite calibrar o nível de tosta da madeira de acordo com as características específicas de cada ano.
Vinho circular: ânforas artesanais e biodinâmica
Além do tinto ícone, a VIK apresentou em 2025 sua primeira safra do que Vallejo chama de “vinho circular”: um vinho vinificado em ânforas artesanais, feitas por um oleiro parceiro e enterradas na propriedade, seguindo princípios de agricultura regenerativa, orgânica e biodinâmica.
De acordo com o enólogo, o processo de instalação das ânforas envolveu escavações progressivas no terreno, chegando a oito metros de profundidade, e um período de ajuste com o próprio artesão para que as peças de barro não trincassem durante a cura.
Vallejo também descreveu um experimento interno com a mesma parcela e a mesma uva, fermentada por dois processos distintos — um com leveduras nativas de flores, outro por método convencional — que teria resultado em dois vinhos com perfis sensoriais claramente diferentes.
“Isso mostra como o vinho é um produto natural, e você precisa deixar o processo acontecer”, afirmou.

Também um Champagne próprio
A VIK mantém produção de seu próprio vinho classificado como Champagne, a partir de parcelas de uma propriedade adquirida pelos fundadores na região de Champagne, na França. Esse cuidado se deve ao respeito às características próprias e únicas dos vinhos da região, mantendo a tradição e respeito aos processos seculares de vinificação dos espumantes.
Segundo Vallejo, o espumante é um blend de Chardonnay e Pinot Noir, elaborado com vinhas acompanhadas por 12 anos antes do primeiro lançamento comercial.
A degustação do champagne VIK na masterclass mostrou características excepcionais e muito peculiares comparando com outras opções de champagnes e espumantes no mercado: finas e delicadas borbulhas, baixa acidez, sabor e aromas com várias notas de brioche, frutas vermelhas, pêssego. Excelente vinho.
E agora, como fica o futuro da VIK no mercado?
Chegar ao topo do ranking mundial pelo 50 Best é uma honra e ao mesmo tempo um desafio para a VIK. Com tantas variáveis incontroláveis no processo de cultivo das uvas e de vinificação, em especial as relacionadas às mudanças climáticas e ameaças no solo, Vallejo se sente desafiado em buscar processos alternativos para a vinificação e guarda dos vinhos:
“Muito bem, chegamos ao topo. E agora? O que mais podemos fazer para melhorar e poder entregar as boas experiências ao mercado no futuro?”
O entendimento é que os investimentos em pesquisa e processos alternativos com fundamentos de biodinâmica podem trazer esses resultados diferenciados. A VIK já demonstrou que não tem pressa: trabalha com projetos de longo prazo e mirando excelência. Prova disso são os 12 anos na elaboração de seu champagne.
Já a operação no Brasil, em Araçoiaba da Serra, inicialmente tem somente fins imobiliários. A área do condomínio residencial está praticamente toda vendida, com previsão de entregar várias instalações e amenidades usuais desses empreendimentos, e a construção do hotel de luxo está em andamento.
O terreno para o cultivo de uvas ainda está em fase de análise quanto a viabilidade. A área necessária para dar suporte à produção local de vinhos VIK certamente tem que ser expressiva e demandará ainda muito trabalho para ser viável.









