Anuário do Mapa aponta 965 vinícolas e mais de 300 milhões de litros no país; nos EUA, a Gundlach Bundschu recorre ao Chapter 11 e revela as dificuldades para os produtores locais

O vinho brasileiro vive um momento de expansão que contrasta com a crise nos Estados Unidos. O primeiro Anuário do Vinho, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), registra produção declarada acima de 300 milhões de litros em 2025. O país fechou o ano com 965 vinícolas registradas, distribuídas por 327 municípios.

O número de vinícolas cresceu 41,5% desde 2020, segundo o levantamento detalhado pelo portal A Vindima. As exportações subiram 25,9% em volume e chegaram a 7,35 milhões de litros. Já as importações somaram 165,66 milhões de litros, o que indica espaço para o vinho nacional avançar. A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) também aponta alta de 9,6% na área plantada brasileira em 2025, para 91 mil hectares.

É nesse cenário que a ProWine São Paulo acontece, de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte. A feira reúne cerca de 2 mil expositores. Segundo dados da organização divulgados pelo JWave, o setor movimentou R$ 21,1 bilhões em 2025, e os espumantes bateram recorde de 4,5 milhões de caixas.

Califórnia encolhe: vinhedos arrancados e uma vinícola de 1858 em crise

Nos Estados Unidos, o movimento é inverso. A Gundlach Bundschu, fundada em 1858 no Vale de Sonoma, é a vinícola familiar mais antiga da Califórnia em operação contínua. Ela entrou com pedido de Chapter 11 em 23 de setembro. A modalidade permite reestruturar dívidas sem interromper as atividades.

De acordo com o San Francisco Chronicle, o passivo ultrapassa US$ 37 milhões e tem origem, em parte, na compra de uma propriedade em Glen Ellen, em 2020. A empresa negocia com um possível investidor ainda não identificado. A vinícola e a sala de degustação seguem abertas durante o processo.

A família destacou o peso local da marca no comunicado que acompanhou o pedido. Jeff Bundschu, CEO da Bundschu Company e integrante da sexta geração, disse, segundo o TheStreet:

“Durante seis gerações, nossa família acreditou que a Gundlach Bundschu é mais do que uma vinícola.”

O caso não é isolado. A Signorello, em Napa, enfrenta execução hipotecária, segundo o SF Chronicle. Cerca de um quarto dos vinhedos californianos saiu de produção. Metade da safra deste ano chegou à colheita sem contratos de compra, contra 70% a 80% em um ano típico, conforme a Associated Press, reproduzida pelo Washington Times.

A demanda explica parte do quadro. O consumo global de vinho recuou 2,7% de 2024 para 2025 e 14% desde 2018. Nos EUA, as vendas em caixas caíram 23% entre 2020 e 2025. A moagem californiana de 2025 ficou em cerca de 2,76 milhões de toneladas, queda de 6,2%, conforme noticiado pelas mídias locais nos Estados Unidos.

O que separa os dois cenários

A comparação exige cautela. O Brasil parte de uma base menor e ainda importa um volume expressivo de vinho. Na Califórnia, o problema é excesso de oferta diante de consumidores que bebem menos, sobretudo entre os mais jovens.

“O mercado brasileiro praticamente dobrou nos últimos 10 anos, e bateu recorde de importação ano após anos , nos últimos 3 anos. Acreditamos que o mercado brasiliro tem potencial para continuar crescendo com uma visão de longo prazo, e dobrar novamente na próxima década, baseado na expansão de cultura de vinhos no nosso países.”, afirma Christian Burgos, diretor da ProWine São Paulo.

A dimensão internacional será um dos destaques de 2026. Estarão representados: África do Sul, Alemanha, Argentina, Armênia, Austrália, Áustria, Azerbaijão, Brasil, Bulgária, Chile, China, Chipre, Escócia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Líbano, Macedônia do Norte, México, Moldávia, Nova Zelândia, Portugal, Romênia, Rússia, Sérvia, Suíça, Trindade e Tobago, Turquia, Ucrânia e Uruguai.

O portfólio que chega à ProWine mostra como parte do setor brasileiro responde a essa mudança. Há lançamentos sem álcool, de baixo teor alcoólico, vinhos de altitude e projetos ligados ao enoturismo. Os expositores abaixo ilustram o movimento.

Vale do São Francisco leva vinho tropical e baixo álcool à feira

O Vale do São Francisco volta à feira com quatro vinícolas pernambucanas reunidas pelo VINHOVASF: Botticelli, Garziera, Rio Sol e Rio Valley. Elas realizam degustações guiadas na Estação Velho Chico, espaço criado dentro do estande para aprofundar o conhecimento sobre a região e seus vinhos.

A pauta ganha relevância com os dados do Anuário do Mapa. O Nordeste é a segunda maior região produtora do país em volume. Pernambuco lidera a região, com 15 vinícolas e 347 vinhos registrados. Lagoa Grande (PE), na IP Vale do São Francisco, ocupa a 12ª posição nacional, com 230 cadastros.

Entre os lançamentos, a Botticelli apresenta o Espumante 40 Anos Extra Brut, 100% Chardonnay, e a Edição Limitada Caboclo de Lança 2024. O tinto reúne 40% Malbec, 30% Cabernet Sauvignon, 20% Petite Syrah e 10% Alicante Bouschet.

A Garziera traz o Seven Baixo Álcool, feito com castas brancas mediterrânicas, além do Chardô e do Chenin Barricado, fermentados e envelhecidos em carvalho francês. A Rio Sol renova a identidade de seus espumantes e lança duas versões Zero Álcool, com castas da família Moscato.

Serra da Mantiqueira estreia com enoturismo como aposta

A Vinícola Rio Manso, projeto boutique de altitude em Jacutinga (MG), participa pela primeira vez da ProWine. Seus vinhos já receberam medalhas no Decanter World Wine Awards e no Vinalies Internationales. O estande antecipa elementos do projeto de enoturismo que a propriedade prepara.

A vinícola ocupa 82 hectares cercados por Mata Atlântica, dos quais 11 são de vinhedos. Produz Pinot Noir, Chardonnay, Viognier, Cabernet Franc e Syrah. A linha completa será servida nos três dias, com sete rótulos, entre eles Dança do Tangará, Voo do Tucano e Olhar da Onça.

A CEO e diretora de Operações, Aline Mabel, resume a intenção da marca ao explicar o que o visitante deve encontrar no estande:

“O estande foi pensado para que o visitante consiga sentir um pouco da experiência que, futuramente, encontrará na vinícola.”

A região conta atualmente com algumas iniciativas de construção de empreendimentos mistos de condomínios com residências e parcelas de terras para o cultivo de uvas, fortalecendo ainda mais a produção de vinhos e o destino para enoturismo.

Importadora e Portugal ampliam a oferta internacional

A importadora Épice ocupa um estande concebido como a “casa da Épice”, com doze marcas da Europa e da América do Sul. Ela traz quatro lançamentos: Viña Tarapacá Etiqueta Dorada, Mateus Vinho Verde feito exclusivamente para o Brasil, Catarina No Alcohol, da Bacalhôa, e Louis Roederer Collection 246.

O sócio Luli Dias explica a lógica da curadoria ao apresentar o espaço voltado a clientes e parceiros:

“Um dos nossos pilares é o relacionamento e, portanto, criamos um espaço onde as pessoas são bem-vindas.”

Portugal também marca presença institucional. O NERGA, em parceria com a CIMRBSE, leva ao evento seis produtores da Beira Interior e Serra da Estrela: Rui Roboredo Madeira, Casa dos Amados, Quinta dos Termos, Abegoaria, Adega Cooperativa de Pinhel e Vinolive. A região tem cerca de 9 mil hectares, 58 castas nativas e vinhedos entre 300 e 750 metros de altitude.

A ProWine funciona como termômetro para o mercado. De um lado, o Brasil planta, registra e lança rótulos. Do outro, a Califórnia e outras regiões pelo mundo tradicionais produtoras de vinhos mostram o custo de produzir mais vinho do que o mercado consome.

Cabe ao produtor brasileiro aprender com o segundo caso sem frear o primeiro.

Serviço

ProWine São Paulo 2026
Data:
 6 a 8 de outubro de 2026
Horário: das 12h às 19h
Local: Expo Center Norte — pavilhões Branco e Azul
Rua José Bernardo Pinto, 333 — Vila Guilherme, São Paulo (SP)
Evento gratuito e exclusivo para profissionais do setor
Credenciamento:
 https://easyexpo.com.br/v3/prowine/26/indvis
Informações: www.prowinesaopaulo.com.br
Instagram: @prowinesaopaulo

Inscrições para visitantes https://easyexpo.com.br/v3/prowine/26/indvis

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