crianças felizes sentadas mesa com alimentos saudaveis

* Prof. Dr. Luiz Gustavo de Quadros

Gustavo Quadros médico

Para quem convive com uma pessoa autista, algumas situações à mesa são conhecidas. Há alimentos que não podem encostar uns nos outros, texturas que provocam rejeição imediata, marcas que precisam ser mantidas e preparações que não podem mudar. Em alguns casos, pequenas alterações na rotina alimentar já são suficientes para provocar desconforto.

Essas particularidades ajudam a entender por que falar em alimentação no autismo exige mais cuidado. A relação com a comida pode envolver aspectos sensoriais, comportamentais e de rotina que não aparecem quando avaliamos apenas o que está no prato.

Uma criança que aceita cinco ou seis alimentos, por exemplo, pode ter dificuldade para ampliar esse repertório. Trocar alimentos de forma repentina, retirar aqueles que ela aceita ou estabelecer uma dieta rígida pode produzir o efeito contrário ao desejado. Antes de pensar em restrição, é necessário saber quais alimentos fazem parte daquela rotina, por que são aceitos e quais possibilidades existem para ampliar gradualmente essa variedade.

Essa questão ganha outra dimensão quando existe excesso de peso. Uma alimentação restrita pode conter alimentos com alta densidade calórica e poucos grupos nutricionais, enquanto a própria dificuldade de experimentar novos alimentos limita as possibilidades de substituição. O problema, portanto, não se resolve simplesmente com uma lista do que pode ou não pode ser consumido.

Também é importante separar duas questões que muitas vezes aparecem juntas. Ter autismo não significa necessariamente ter obesidade, e não existe hoje uma estatística nacional consolidada capaz de indicar quantas pessoas autistas no Brasil apresentam a condição. O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas autistas no país. Estudos internacionais apontam uma frequência relevante de sobrepeso e obesidade nessa população, mas esses resultados não podem ser transferidos diretamente para a realidade brasileira.

Há outros elementos envolvidos nessa relação. O uso de determinados medicamentos pode alterar apetite e peso. Alterações no funcionamento intestinal também podem estar relacionadas à qualidade e à variedade da alimentação. O nível de atividade física pode ser afetado por preferências, características sensoriais e dificuldades de adaptação a determinados ambientes.

Nada disso deve ser interpretado isoladamente. Uma criança ou adulto que evita determinados alimentos por causa de textura, por exemplo, pode precisar de uma estratégia completamente diferente daquela indicada para alguém cuja principal dificuldade seja o excesso de ingestão. O mesmo vale para a atividade física. Uma rotina que respeite as características do paciente pode ter mais possibilidade de continuidade do que uma prescrição genérica.

Por isso, o acompanhamento precisa reunir diferentes áreas. Nutrição, medicina, psicologia, educação física e participação da família podem ter funções distintas ao longo do tratamento. O objetivo não é transformar a alimentação em mais uma fonte de conflito, mas encontrar caminhos possíveis dentro da realidade de cada pessoa.

Quando o controle do peso continua sendo um problema mesmo depois dessas medidas, o tratamento da obesidade pode incluir medicamentos, procedimentos endoscópicos ou cirurgia, conforme a avaliação clínica. A gastroplastia endoscópica é uma dessas possibilidades. O procedimento é realizado por endoscopia, sem cortes externos, e reduz o volume do estômago.

No caso de pacientes autistas, a indicação de qualquer tratamento precisa levar em conta as condições clínicas e também a relação da pessoa com a alimentação. Um procedimento pode reduzir a capacidade gástrica, mas não modifica sozinho hábitos, preferências alimentares ou questões sensoriais. O acompanhamento posterior continua sendo parte essencial do tratamento.

Talvez esse seja o principal ponto quando falamos de obesidade no autismo. O prato não conta toda a história. Para entender o peso, muitas vezes é necessário entender primeiro a rotina, os sentidos, os comportamentos e as possibilidades daquela pessoa diante da comida.

É a partir daí que a alimentação deixa de ser apenas uma prescrição e passa a fazer parte de um cuidado realmente individualizado.

* Luiz Gustavo de Quadros é médico, mestre e doutor em Cirurgia.

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