Por Fabiane Zanoti
O mercado brasileiro de suplementos alimentares entrou em uma nova era. Durante anos, a conversa girou em torno do crescimento, com o surgimento de novas marcas, formatos, consumidores e categorias de produtos. Os números refletem esse impulso. Segundo a BRASNUTRI, com base em dados da Euromonitor International (fonte), o setor de suplementos no Brasil cresceu 15% em 2025 e deve atingir R$ 13,8 bilhões até 2030, impulsionado pelo crescente interesse dos consumidores por saúde preventiva, bem-estar e longevidade.
O crescimento, no entanto, traz uma questão importante: o que acontece com a qualidade e a segurança dos produtos quando um mercado se expande de forma tão acelerada?
Essa discussão é especialmente relevante à medida que o setor se prepara para a implementação do aumento da supervisão regulatória dos suplementos alimentares em setembro de 2026, com a entrada em vigor dos requisitos previstos na RDC nº 843 da Anvisa. Muito já se falou sobre os novos prazos regulatórios, notificações e exigências técnicas. Ainda assim, o impacto mais significativo talvez não seja regulatório, mas sim cultural.
O setor de suplementos precisará mudar sua mentalidade: da velocidade para a consistência, da inovação para a validação e das promessas para as evidências.
Para os consumidores, os suplementos alimentares passaram a fazer parte do dia a dia. Produtos como creatina, proteínas em pó, multivitamínicos e formulações funcionais ganharam popularidade e deixaram de ser consumidos apenas por atletas ou grupos específicos de consumidores, como nutricionistas ou preparadores físicos. À medida que a adoção desses produtos cresce, as expectativas também evoluem naturalmente. Os consumidores não buscam apenas conveniência e inovação; cada vez mais, esperam transparência, confiabilidade e comprovação das alegações feitas sobre os produtos. É aí que começa a maturidade de um mercado.
Os recentes avanços regulatórios promovidos pela Anvisa reforçam um princípio já adotado pelos mercados de suplementos mais maduros do mundo: a qualidade dos produtos precisa ser demonstrada, documentada e sustentada por evidências. Exigências relacionadas à estabilidade dos produtos, documentação e comprovação técnica têm, em última análise, um único objetivo: garantir que os consumidores possam confiar que aquilo que um produto declara conter no rótulo é, de fato, o que ele entrega ao longo de todo o seu prazo de validade.
Organizações com sistemas robustos de qualidade e forte governança técnica investem há anos em testes realizados por terceiros independentes. No entanto, muitos fabricantes brasileiros, especialmente as marcas mais novas, podem estar mais suscetíveis a lacunas decorrentes da rápida expansão comercial. A confiança do consumidor tornou-se uma vantagem competitiva. Quando os consumidores não conseguem verificar de forma independente a qualidade de um suplemento, tendem a perder confiança naquele produto.
Uma pesquisa realizada pela Appinio a pedido da NSF mostrou que 81% dos consumidores brasileiros estão dispostos a pagar mais por um produto que possua certificação de terceira parte. O resultado indica que as certificações estão sendo cada vez mais percebidas e valorizadas como indicadores de qualidade, segurança e verificação independente.
Em resposta à crescente demanda por padrões mais elevados de qualidade e transparência, a NSF lançou em 2025 o programa NSF 229BR, voltado a fabricantes de suplementos alimentares e ingredientes. A certificação contempla requisitos relacionados a testes de contaminantes, verificação da autenticidade dos rótulos, boas práticas de fabricação, rastreabilidade e comprovação da conformidade com a gestão de alérgenos.
Varejistas, distribuidores e órgãos reguladores também dependem cada vez mais de documentação e avaliações realizadas por terceiros para analisar consistência, garantia da qualidade e integridade dos produtos. Em um mercado mais sofisticado, a reputação, por si só, já não é suficiente.
À medida que cresce a demanda por validação independente, é provável que o setor também veja um aumento no número de programas de certificação, selos e esquemas de verificação. Trata-se de uma resposta natural de um mercado que busca mais segurança e diferenciação. No entanto, nem todos os programas de qualidade são equivalentes.
Para as marcas, selecionar um organismo independente com reconhecida expertise técnica, reconhecimento internacional e processos robustos de auditoria é tão importante quanto obter a própria validação independente. A verificação independente jamais deve ser vista apenas como um ativo de marketing. Seu valor está no rigor que a sustenta e na capacidade de avaliar controles de fabricação, verificar processos, analisar a consistência entre lotes de produção e gerar confiança de que os requisitos estão sendo cumpridos ao longo do tempo.
Essa distinção se tornará cada vez mais importante à medida que o setor evolui e as empresas forem tentadas a adotar atalhos, avaliações simplificadas ou trabalhar com organizações de experiência técnica limitada. Embora essas abordagens possam parecer atraentes no curto prazo, raramente oferecem o nível de segurança esperado por reguladores, parceiros comerciais e consumidores.
Portanto, os fabricantes devem avaliar cuidadosamente a competência técnica, a independência e a credibilidade das organizações que escolhem para apoiar seus programas de qualidade e conformidade.
Globalmente, há um padrão que se repete tanto no setor de alimentos quanto no de suplementos alimentares: empresas que investem cedo em verificação por terceiros conseguem se adaptar com mais facilidade à evolução regulatória, à expansão do mercado e ao aumento das expectativas dos consumidores. O mesmo princípio se aplica ao Brasil.
Setembro de 2026 não deve ser visto apenas como um marco de conformidade regulatória. É um sinal de que a indústria brasileira de suplementos está entrando em uma nova etapa de maturidade — uma etapa em que qualidade, segurança e confiança serão fatores cada vez mais determinantes para o sucesso de longo prazo.
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Fabiane Zanoti é engenheira de alimentos com mais de 20 anos de experiência em segurança de alimentos, auditorias e conformidade regulatória, trabalhando diretamente com indústrias e operações de fabricação. Atualmente, ela é Managing Director Latam na NSF, uma organização líder global independente de serviços dedicada a proteger e promover a saúde humana há mais de 80 anos, por meio do desenvolvimento de normas de saúde pública e da prestação de serviços de ensaio, inspeção, certificação, consultoria e soluções digitais de nível internacional para os setores de alimentos, água e produtos de bem-estar.
