Iniciativa avaliou mais de 61 mil hectares nos estados do Pará, Rondônia e Acre e apresentou tecnologias regenerativas como biochar e remineralização de solos
A produção de soja na Amazônia está no centro de uma transformação que vai além da produtividade. Em Santarém (PA), produtores, pesquisadores e representantes da cadeia produtiva se reuniram para debater caminhos concretos rumo a uma agricultura mais eficiente e responsável — sem abrir mão da viabilidade econômica.
No dia 7 de maio, o evento Sustensoja – Caminhos para a Soja Sustentável reuniu os principais agentes envolvidos nessa agenda. A iniciativa foi promovida pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal (Imaflora), em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) e a AgriTierra, com apoio da Alauda Consulting e da organização britânica Jacobs Futura Foundation (JFF).
Diagnóstico em campo: 69 produtores e mais de 61 mil hectares avaliados
O evento apresentou os avanços do Projeto Soja Sustentável na Amazônia, iniciativa que busca converter práticas agrícolas convencionais em sistemas regenerativos nas regiões do Acre, Rondônia e Pará. O projeto avalia as propriedades rurais a partir de cinco dimensões: ambiental, governança, econômica, biodiversidade e agronômica.
O pesquisador da Fundepag Lucas Lima conduziu o diagnóstico junto aos produtores da região e apresentou os resultados durante o Sustensoja. Segundo ele, o levantamento revelou um alto potencial para a adoção de práticas mais sustentáveis na área avaliada.
“Conversamos com 69 produtores desses três estados, em uma área de cultivo superior a 61 mil hectares. Na região avaliada, foram identificados mais de 32 mil hectares de cultivo de soja com potencial para adoção de práticas regenerativas e sustentáveis.”
Tecnologia a serviço da regeneração: biochar e remineralização de solos
Entre as soluções apresentadas no evento, duas tecnologias ganharam atenção especial: o biochar, voltado ao sequestro de carbono de longo prazo, e a remineralização de solos, que reduz a dependência de insumos químicos e aumenta a resiliência hídrica das propriedades. Ambas integram a proposta de um modelo produtivo que concilia desempenho agronômico e regeneração ambiental.
O protocolo de diagnóstico utilizado pelo projeto vai além do ESG tradicional. Lucas Lima explica que a abordagem é sistêmica e orientada para a ação, entregando resultados práticos diretamente aos produtores participantes.
“A ideia é entender os sistemas produtivos e sugerir caminhos para que a agricultura possa ser regenerativa, menos impactante ao meio ambiente e economicamente viável para os produtores. Os participantes responderam a um questionário digital e já saíram com um diagnóstico completo da propriedade e recomendações de melhoria nas áreas agronômica, ambiental, social e de governança.”
Mercado internacional como indutor da transição
O Sustensoja também colocou em pauta o impacto das novas exigências globais sobre a soja brasileira. O Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) e o crescimento do mercado de soja Non-GMO foram apontados como vetores de mudança que exigem rastreabilidade, certificação e conformidade socioambiental ao longo de toda a cadeia produtiva.
A representante do Imaflora Caroline Anelli destacou o papel estratégico do evento para construir pontes entre os diferentes elos da cadeia. Para ela, o momento é de articulação entre produção, mercado e governança.
“A região tem potencial para avançar em produtividade ao mesmo tempo em que fortalece práticas mais sustentáveis. O Sustensoja foi um espaço de diálogo para conectar quem produz, quem compra e quem atua na governança da cadeia, buscando caminhos viáveis para essa transição.”
Ciência, mercado e território: uma equação possível
A viabilidade da transição para a agricultura regenerativa na Amazônia depende de integração entre diferentes atores. O setor produtivo precisa de segurança técnica e econômica; o mercado, de garantias de rastreabilidade; e as regiões produtoras, de desenvolvimento sustentável real.
Denys Biaggi, líder de novos negócios da Fundepag, reforçou que o evento demonstrou ser possível construir modelos que atendam a todas essas demandas simultaneamente.
“O evento mostrou que é possível unir produtividade, sustentabilidade e geração de valor para os produtores. É possível criar modelos viáveis de transição, capazes de fortalecer a competitividade da soja brasileira e, ao mesmo tempo, contribuir para a preservação ambiental e o desenvolvimento das regiões produtoras.”
