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Combinação de produção elevada no Brasil e nos EUA mantém risco baixista sobre cotações na CBOT, enquanto clima e absorção chinesa definem o próximo ciclo

O mercado global de soja atravessa um momento de redefinição de perspectivas. Após uma safra 2025/26 que consolidou o Brasil como maior produtor mundial, com 182 milhões de toneladas confirmadas segundo o RaboResearch, as atenções já se voltam para o ciclo 2026/27, cuja principal incógnita é a capacidade de absorção de um volume ainda maior de grãos. O USDA estima a produção brasileira da próxima safra em 186 milhões de toneladas, enquanto projeta a norte-americana em 121 milhões de toneladas, crescimento de 4% frente ao ciclo atual.

O relatório de junho do USDA aponta ainda para um esmagamento recorde nos Estados Unidos, de 74,8 milhões de toneladas, puxado pela forte demanda de óleo vegetal para biocombustíveis. Globalmente, o esmagamento previsto para 2026/27 deve superar em cerca de 14 milhões de toneladas o volume da safra anterior, sustentando o prêmio do farelo e do óleo em relação ao grão — fator que historicamente estimula a esmagagem em detrimento das exportações de grão.

Absorção chinesa é a variável-chave do mercado

O acordo comercial firmado entre os Estados Unidos e a China em maio amplia o potencial de demanda pela soja norte-americana, mas o efeito líquido sobre o fluxo global ainda é incerto. A principal questão que se coloca é a capacidade do mercado chinês de absorver, de forma simultânea, volumes expressivos tanto dos EUA quanto do Brasil.

A Consultoria Agro do Itaú BBA acompanha de perto essa dinâmica. Francisco Queiroz, especialista da consultoria, avalia que o ponto de atenção central permanece em aberto:

“A principal dúvida do mercado é se a China conseguirá absorver simultaneamente a elevada oferta dos Estados Unidos e do Brasil. O acordo de maio amplia o potencial de demanda pela soja norte-americana, mas o efeito líquido ainda é incerto e depende de confirmação efetiva das compras chinesas.”

Cotações pressionadas enquanto fundamentos prevalecem

No mercado futuro, as cotações na CBOT registraram retração de aproximadamente 5% ao longo de junho de 2026 frente ao mês anterior, conforme dados do RaboResearch. O movimento reflete o avanço do plantio norte-americano em condições favoráveis, que redirecionou o foco do mercado dos fatores geopolíticos — que haviam pressionado os preços para cima no início do ano — para os fundamentos de oferta e demanda.

Nos primeiros meses de 2026, a expectativa de exportações expressivas dos EUA para a China e os impactos do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo e dos óleos vegetais chegaram a elevar as cotações em Chicago a USD 12,20 por bushel em meados de março. No entanto, essa valorização não se traduziu em melhora dos preços recebidos em reais pelos produtores brasileiros, que permaneceram relativamente estáveis — reflexo da compressão dos prêmios e da valorização do real frente ao dólar no período.

Risco baixista domina o horizonte de curto prazo

Para o ciclo 2026/27, o cenário-base consolida uma combinação desfavorável para os preços: possível safra recorde no Brasil e produção elevada nos EUA, caso as condições climáticas de verão se confirmem. Para a Consultoria Agro do Itaú BBA, uma recuperação mais consistente das cotações na CBOT dependeria de problemas climáticos nas safras norte-americana ou brasileira, o que poderia alterar de forma relevante o equilíbrio global entre oferta e demanda.

Há, contudo, dois fatores que podem mudar o quadro: um El Niño mais intenso, que poderia gerar impactos negativos sobre a safra na América do Sul no segundo semestre, e eventuais compras adicionais da China da soja norte-americana. Nenhum desses cenários está precificado pelo mercado no momento, o que os torna potenciais gatilhos de volatilidade.

Exportações brasileiras seguem aquecidas apesar das pressões

Mesmo diante de fretes internos mais caros e de sinais de enfraquecimento pontual da demanda chinesa, as exportações brasileiras de soja mantiveram ritmo elevado. Segundo dados da Cargonave citados pelo RaboResearch, os embarques cresceram 8% entre janeiro e maio de 2026 na comparação anual, com perspectiva de alcançar 113 milhões de toneladas no acumulado do ano. No segmento de esmagamento, o primeiro trimestre de 2026 registrou 14,3 milhões de toneladas processadas, alta de 10% frente ao mesmo período de 2025, sustentada pela melhoria das margens e pelo aumento da demanda por derivados.

A competitividade externa da soja brasileira se manteve elevada mesmo num cenário de apreciação do real, o que diferencia o momento atual dos ciclos de pressão anteriores. O risco de enfraquecimento cambial no segundo semestre, projetado pelo RaboResearch com o dólar chegando a R$ 5,35 ao final de 2026, poderia adicionar impulso adicional às receitas de exportação, caso se confirme.


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