Debates no Agro em Código 2026 apontam que unir informações sobre origem, produção e conformidade é estratégico para reduzir riscos e ampliar a competitividade
Comprovar de onde vem um alimento e como ele foi produzido pode pesar cada vez mais nas negociações internacionais. O tema esteve no centro do Agro em Código 2026, realizado em outubro, em São Paulo. O evento foi promovido pela Embrapa e pela Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil, com apoio do Cubo Itaú.
O desafio, porém, vai além da adoção de tecnologias. O setor precisa integrar informações hoje dispersas entre diferentes sistemas e garantir a confiabilidade dos registros. Só assim esses dados se transformam em evidências aceitas por compradores e mercados importadores.
A rastreabilidade permite acompanhar a trajetória de um produto e comprovar atributos como origem, qualidade, segurança e conformidade socioambiental. Para isso, os itens precisam de identificação única e padronizada, da produção até o consumidor. Na prática, o recurso apoia a gestão das cadeias e facilita respostas a questionamentos comerciais. Também ajuda empresas brasileiras a demonstrar o cumprimento de requisitos de outros países.
Dados fragmentados dificultam a comprovação
Um dos principais entraves está na fragmentação das informações. Na cadeia pecuária, por exemplo, o trânsito de animais e a regularidade ambiental das propriedades seguem registros e sistemas distintos. Durante o encontro, especialistas apontaram a necessidade de integrar essas bases. O objetivo é construir uma comprovação mais consistente sobre origem e condições de produção.
A questão ganha peso diante das exigências do mercado internacional, que podem pedir detalhes sobre a procedência dos produtos e de seus insumos. No segmento de proteína animal, o debate destacou a necessidade de avançar na rastreabilidade dos insumos usados na produção. Esse passo se soma aos controles já existentes nas etapas de criação e processamento.
Da obrigação de comprovar à oportunidade de negócio
A rastreabilidade também pode ajudar produtores a mostrar o que diferencia seus produtos. Um dos exemplos apresentados no evento vem do café, com uma iniciativa que usa QR Codes para compartilhar origem, qualidade, pontuação e região de produção. Segundo os dados apresentados, mais de 4 mil produtores participam, e os códigos já foram acessados em mais de 100 países.
O potencial, contudo, depende de demonstrar o valor dessas informações. Representantes de empresas e organizações lembraram que ter dados de rastreabilidade não garante que o consumidor os consulte. Também não garante que ele aceite pagar mais pelo produto. Empresas do setor de alimentos relatam que QR Codes e páginas detalhadas nem sempre atraem a atenção do público.
Por isso, a comunicação precisa tornar os dados compreensíveis e relevantes para a decisão de compra. Isso sem perder de vista a função da rastreabilidade na gestão da cadeia e na comprovação de atributos. Para os negócios, o retorno pode aparecer ainda na redução de riscos, no aprimoramento de processos e na capacidade de responder a exigências comerciais.

Tecnologia sozinha não resolve
Os profissionais que participaram do evento ressaltaram que ferramentas como o blockchain podem ajudar a preservar registros. Sua utilidade, porém, depende da qualidade e da confiabilidade dos dados que alimentam os sistemas. A integração entre bases públicas, registros de produção e informações das empresas é, portanto, um ponto necessário. Sem dados primários confiáveis e critérios compatíveis entre sistemas, a capacidade de comprovar origem permanece limitada.
O desafio também envolve pequenos produtores e negócios, que nem sempre têm estrutura ou recursos para cumprir as mesmas exigências das empresas de maior porte. Soluções acessíveis e iniciativas de capacitação podem ampliar a adoção da rastreabilidade sem criar barreiras adicionais de acesso ao mercado.
