Programa anunciado pelo governo federal amplia recursos e reduz taxas de juros, mas especialistas apontam que exigências regulatórias seguem sendo o principal obstáculo para a liberação efetiva do dinheiro no campo
Aguardado pelo agronegócio, o Plano Safra 2026/2027 foi anunciado nesta semana pelo governo federal. Com vigência entre 1º de julho e 30 de junho de 2027, o programa traz ampliação dos recursos, redução das taxas de juros e incentivo aos investimentos, à produtividade e à sustentabilidade.
Nas principais modalidades de custeio e investimento, as taxas foram reduzidas entre 0,5 e 1,5 ponto percentual. O anúncio reacende, porém, uma discussão recorrente no setor: o crédito bilionário anunciado chega, de fato, ao produtor rural?
Mais recursos para agricultura empresarial, Pronamp e Pronaf
Para a agricultura empresarial, foram anunciados R$ 525,1 bilhões, aumento de quase 2% em relação ao ciclo anterior. O destaque é a alta de 38% nos recursos para investimentos, que passaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões, impulsionando áreas como armazenagem, irrigação, inovação e aquisição de máquinas. Para custeio, foram destinados R$ 384,9 bilhões.
No Pronamp, voltado aos médios produtores, serão disponibilizados R$ 72,6 bilhões, com taxa máxima de juros de 9% ao ano, ante os 10% da safra passada. A agricultura familiar contará com R$ 85,2 bilhões via Pronaf, valor 9% superior ao ciclo anterior, com taxas nas linhas prioritárias variando de 1% a 7,5% ao ano.
O governo federal também incentiva a adoção de boas práticas ambientais e o aumento da produtividade. Os produtores podem obter redução de até 1 ponto percentual nas operações de custeio: até 0,5 ponto para propriedades com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado e mais 0,5 ponto para quem adotar práticas sustentáveis.
Sicredi Dexis projeta R$ 4 bilhões e recomenda antecipação do crédito
Para este ciclo, a Sicredi Dexis projeta liberar R$ 4 bilhões em operações de custeio, investimento, comercialização, industrialização, Cédula de Produto Rural (CPR) e soluções de proteção de risco, como instrumentos cambiais.
O gerente de Desenvolvimento Agro da cooperativa, Vitor Pasquini, orienta os produtores a antecipar as solicitações de crédito, já que algumas linhas costumam se esgotar em poucos dias. As operações de custeio para soja e milho estão entre as mais demandadas, enquanto os investimentos em modernização, como aquisição de máquinas, também têm alta procura.
“Ao contratar o crédito com antecedência, o produtor alinha o fluxo de recursos ao calendário produtivo, evitando imprevistos no fluxo de caixa.”
O produtor deve manter o cadastro atualizado e procurar uma das 114 agências da Sicredi Dexis no Paraná e em São Paulo para verificar suas necessidades de crédito. Além do crédito rural, a cooperativa oferece seguro rural, seguro para máquinas e equipamentos, cartões, investimentos e consórcios.
Do anúncio bilionário ao crédito na conta do produtor

Apesar do volume recorde de recursos, especialistas alertam que o desafio não está na oferta de crédito, mas na capacidade de transformar o valor anunciado em financiamento efetivamente contratado. O advogado Igor Fernandez de Moraes, sócio do Silva Nunes Advogados e especialista em Direito do Agronegócio, explica que muitos produtores ainda enfrentam dificuldades para cumprir as exigências bancárias necessárias para a aprovação do crédito.
“O volume de recursos ajuda, mas, sozinho, não resolve, porque o gargalo é de absorção, e não de oferta. O agricultor familiar médio nem sempre tem estrutura para lidar com exigências bancárias, como comprovação de renda, projeto técnico e cadastro ambiental.”
Simulador do Pronaf ataca a falta de informação, mas não resolve a lentidão bancária
Entre as novidades do programa está o simulador de crédito do Pronaf, criado para orientar produtores sobre as linhas mais adequadas ao seu perfil. A medida busca reduzir dúvidas e facilitar o acesso à informação, mas não elimina outros obstáculos do processo de contratação.
Moraes avalia que o simulador resolve apenas parte do problema. “O governo lançou o simulador de crédito do Pronaf, permitindo que o produtor chegue ao banco já sabendo qual linha melhor se encaixa no seu perfil. A medida ataca o problema da informação, mas não resolve o processamento bancário em si, que continua, em regra, lento.”
Malha fina socioambiental e o bloqueio tecnológico do crédito

Já para o advogado Fabiano Jantalia, sócio-fundador do Jantalia Advogados e especialista em Direito Bancário e Econômico, o principal entrave está nas regras que envolvem a concessão do crédito rural. O volume recorde de recursos anunciado seria positivo do ponto de vista macroeconômico, mas insuficiente para garantir acesso na prática.
“O volume recorde de cerca de R$ 610 bilhões é uma excelente sinalização do ponto de vista macroeconômico, mas não garante, por si só, o acesso ao crédito. Na prática, observamos um abismo entre o recurso disponível no papel e o crédito efetivamente contratado na ponta.”
Na visão de Jantalia, o acesso ao crédito esbarra em uma burocracia que passou a se basear em um verdadeiro bloqueio tecnológico, já que as instituições financeiras são obrigadas a submeter cada operação a uma malha fina socioambiental e fundiária. Segundo o advogado, qualquer inconsistência no cadastro da propriedade ou no zoneamento climático pode travar a operação já na origem, sob risco de sanções por falhas de compliance para a instituição financeira.
O advogado destaca que o gargalo não está no sistema financeiro nem nas instituições, mas na hiper-regulação estatal construída para a liberação desses recursos. Ele alerta que, enquanto o custo de observância regulatória permanecer desproporcional à realidade do campo, o Plano Safra continuará enfrentando dificuldade para se traduzir em crédito depositado na conta do produtor.
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