Linha de 237 ml mira jovens da geração Z em movimento; no Brasil, o hábito do café coado e da cápsula ainda modera o avanço da bebida gelada
A Nescafé lançou na Austrália uma linha de iced coffee pronta para beber, vendida em latas de alumínio de 237 ml. O anúncio, feito pela Nestlé Austrália em 26 de outubro de 2026, traz três sabores: Iced Latte, Iced Mocha e Iced Caramel Latte.
O produto combina café e leite e foi pensado para o consumo em trânsito. Segundo a empresa, quase 40% dos cafés que a geração Z toma fora de casa são gelados. A lata, diz a marca, acompanha o trajeto até o trabalho, a sessão de estudo e o encontro de última hora.
O comunicado não menciona o Brasil nem indica planos de lançamento por aqui. Mesmo assim, o movimento serve de régua para observar o mercado brasileiro, onde o café gelado cresce de forma gradual e convive com rotinas muito consolidadas de preparo em casa.
Lata de 237 ml, três sabores e campanha para a geração Z
O preço recomendado parte de $ 4,00 por lata (aproximadamente R$ 15,32) ou $ 10 (aproximadamente R$ 38,30) no pack com quatro unidades, em valores locais. A venda começa em redes como 7-Eleven e Woolworths. A partir de novembro, o produto chega também ao IGA e a lojas de conveniência e postos selecionados.
O lançamento sustenta a nova plataforma “Always Ready” (sempre pronto), que celebra uma geração espontânea. A campanha integra vídeo, redes sociais, mídia exterior e criadores de conteúdo. A Nescafé, que se apresenta como a maior marca de café do varejo australiano, diz que quer ampliar sua presença na cultura local do café.
O portfólio de café líquido da marca já inclui sachês inspirados em cafeteria e opções de personalização em casa. A lata soma a esse conjunto o formato de consumo por impulso, pensado para quem compra na hora e bebe em movimento.
Mel Toomey, head de Marketing da Nestlé Austrália, resume a proposta do produto para um público que muda de plano o tempo todo, em tradução livre do comunicado:
“Os jovens australianos estão sempre em movimento e buscam produtos que acompanhem esse ritmo. O Nescafé Iced Coffee foi pensado para os momentos em que os planos mudam, surgem oportunidades e o dia toma um rumo inesperado. É um café gelado delicioso, sempre pronto para quando você estiver.”
No Brasil, o consumo de café gelado ainda é pequeno, mas avança
Por aqui, os números mostram um movimento tímido. Na pesquisa Evolução dos Hábitos e Preferências dos Consumidores de Café no Brasil, encomendada pela ABIC ao Instituto Axxus, a parcela que bebe café gelado com outros ingredientes passou de 7%, em 2023, para 9%, em 2025. Os dados foram citados na coluna Café sem Filtro, do Diário do Comércio.
O avanço aparece sobretudo entre os mais jovens e consumidores em geral que frequentam cafeterias que oferecem variadas opções de cafés gelados. O levantamento indica que 47% dos consumidores de 18 a 24 anos frequentam cafeterias, contra 39% do total da população. Para Sergio Parreiras Pereira, pesquisador do Centro de Café do Instituto Agronômico (IAC) e responsável pelo estudo, essa geração busca conveniência, experiências sensoriais e estilo de vida.
Fora do país, a Nestlé global estima que o café gelado já represente uma em cada três xícaras tomadas fora de casa, principalmente entre millennials e geração Z, conforme o mesmo texto. O dado é global e não retrata diretamente o mercado brasileiro.
Os consumidores no Japão apreciam o café gelado há mais de 30 anos, com opções em lata. A indústria brasileira de café solúvel sempre dedicou boas quantidades de extrato de café congelado para a exportação ao Japão, onde é processado e envasado para o consumo final.
Coado e cápsula: o hábito que molda a preferência
A rotina doméstica ajuda a explicar o ritmo. Na edição de 2023 da pesquisa da ABIC, 55% dos consumidores disseram preparar o café no coador de pano. Outros 33% usam coador de papel e 32% a cafeteira elétrica com filtro de papel, sendo possível dar mais de uma resposta.
A mesma pesquisa mostra que 55% tomam café com leite e açúcar e 43% com leite e adoçante. O dado sugere uma base acostumada a bebidas lácteas e adocicadas, perfil próximo ao dos sabores latte, mocha e caramelo da linha australiana. Trata-se de uma leitura editorial, e não de uma conclusão do estudo.
Pesquisas acadêmicas exploratórias reforçam o peso da tradição. Um grupo de foco da Universidade Federal de Lavras, com seis consumidores de cafés especiais, atribuiu a baixa adesão ao café gelado à cultura do café quente e à pouca oferta do produto.
Já um estudo da Universidade Estadual de Londrina indicou que não consumidores de café estavam mais dispostos a experimentar um café gelado. Entre os consumidores, pesou a expectativa de que a bebida fria preserve aroma e sabor. Ambos os trabalhos são de 2019 e têm amostras pequenas.
Há ainda o fator preço. A pesquisa mais recente da ABIC, divulgada em setembro de 2025, mostra que 24% dos entrevistados reduziram o consumo de café, contra 3% em 2023. Nesse cenário, o preço de uma bebida pronta tende a merecer atenção do consumidor.
O balcão abriu caminho para o gelado
O foodservice já testou a demanda. Em pesquisa encomendada em 2023, a Nestlé Professional constatou que 48% das lojas, cafeterias e lanchonetes que vendem café já ofereciam uma opção gelada. Em alguns pontos, a bebida chegava a quase um terço do faturamento da categoria.
O ticket médio saltava de R$ 6,50, no espresso, para R$ 12,50 na bebida gelada, e as doses vendidas cresciam entre 5% e 10%. Os números foram divulgados em março de 2024, pela Mercado&Consumo, e merecem atualização.
Juliana Reis, gerente de Marketing de cafés e bebidas da Nestlé Professional, defende que as bebidas geladas convivem com o café preto no balcão e atraem outro perfil de cliente, já que:
“Elas geram uma nova demanda e trazem um consumidor diferente.”
O que observar daqui para frente
Para quem já tem o coador ou a cápsula em casa, o iced coffee pronto elimina o preparo, mas disputa o orçamento com o café feito na cozinha. A adesão deve depender de três fatores: preço por unidade, sabor fiel ao café e ocasião de consumo fora de casa.
O Food Forum News já mostrou que o segmento de café pronto para beber é visto como uma das próximas frentes de crescimento no país. Nescafé não indica data para o lançamento no Brasil, mas mostra para onde a categoria caminha entre os consumidores mais jovens.
