mel bracatinga Rio Grande do Sul

Da floresta de araucária à mesa, o mel de melato da bracatinga tem origem incomum, certificação oficial e propriedades nutricionais que superam o mel floral convencional

O mel preto de Cambará do Sul não é lenda de apicultor. É ciência documentada, com espécie identificada, cadeia ecológica mapeada e, desde 2021, uma Denominação de Origem registrada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A publicação “Melato: alimento de seres vivos das florestas de araucária e matéria-prima de um mel especial no Sul do Brasil“, lançada em 2024 pelo Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA) da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, reúne mais de uma década de pesquisa sobre esse produto singular.

O livro parte de uma observação de campo realizada em 2008, em um fragmento de 250 hectares de Floresta de Araucária no município de Cambará do Sul, na região nordeste do Rio Grande do Sul. Pesquisadores notaram longos filamentos brancos pendendo dos troncos de bracatinga — e gotas transparentes em suas extremidades sendo visitadas por abelhas e vespas. O que parecia curiosidade entomológica revelou-se um ecossistema produtivo de alto valor nutricional, econômico e ambiental.

A cochonilha por trás do mel

A espécie identificada como responsável pelos filamentos foi a Stigmacoccus paranaensis Foldi, cochonilha da família Stigmacoccidae. Classificada como inseto fitófago, ela introduz seus estiletes na casca da bracatinga (Mimosa scabrella Benth.) até atingir o floema — o tecido que transporta seiva rica em glicose. O excesso de açúcar não absorvido é eliminado em forma de gotas pelo ânus do inseto, por meio de um filamento ceroso oco. Esse líquido é o melato, ou honeydew.

A cochonilha tem ciclo de vida de dois anos. Nas fases de ninfa e cisto, tanto fêmeas quanto machos produzem melato de forma contínua. No segundo ano, quando os insetos atingem a fase adulta, a produção cessa — e um novo ciclo começa com a eclosão das ninfas. É por isso que a colheita do mel de melato da bracatinga ocorre a cada dois anos, geralmente entre dezembro e junho, justamente quando as floradas naturais das florestas de araucária já estão mais escassas.

Um mel diferente do floral

Foto: Liane Castilhos

O mel de melato difere do mel floral em composição físico-química, sensorial e nutricional. Em termos analíticos, apresenta condutividade elétrica média acima de 1.200 mS/cm — indicador de alta concentração de minerais, especialmente potássio e magnésio — além de pH mais elevado, maior acidez, cor mais escura, teor superior de oligossacarídeos e menor concentração de monossacarídeos.

Do ponto de vista sensorial, o resultado é um doce equilibrado, com sabor intenso que lembra melaço de cana, segundo relatos de produtores. A presença de compostos fenólicos, aminoácidos e proteínas sugere propriedades antioxidantes e antibacterianas superiores às do mel floral convencional. Pesquisas internacionais reforçam esse perfil: na Malásia, estudo com mel de melato produzido pela abelha sem ferrão Heterotrigona itama registrou atividade antibacteriana promissora contra cepas resistentes a antibióticos.

Indicação geográfica e mercado

Foto: Fernando Kluwe Dias

Em 2021, o INPI concedeu a Denominação de Origem “Mel de Melato da Bracatinga do Planalto Sul Brasileiro” — a única IG brasileira dedicada exclusivamente ao mel de melato. O território abrangido tem 58.987 km² e compreende 134 municípios dos três estados do Sul: 107 em Santa Catarina, 12 no Paraná e 15 no Rio Grande do Sul. Os critérios de delimitação consideraram altitude mínima de 700 metros, distribuição natural dos bracatingais, clima temperado e chuvoso, e a ocorrência documentada da simbiose entre bracatinga e cochonilha.

A valorização comercial do produto é recente. No município de Cambará do Sul — que concentra cerca de 120 famílias produtoras e produz entre 200 e 250 toneladas de mel por ano em safras normais — o mel de melato chegou a ser descartado no passado, deixado nas colmeias para alimentar as abelhas durante o inverno. Hoje, é comercializado a preços equivalentes ao mel branco da carne-de-vaca, entre R$ 35 e R$ 38 por quilo no varejo local, e exportado para França, Alemanha e Estados Unidos.

O extensionista rural Neimar Fonseca e Silva, chefe do Escritório Municipal da Emater-RS Ascar em Cambará do Sul e referência técnica para os apicultores da região há mais de dez anos, situa bem essa virada de percepção. A divulgação das pesquisas científicas sobre o mel de melato foi o fator determinante para criar demanda e agregar valor a um produto que antes não tinha preço.

“Com a divulgação das pesquisas realizadas com o mel de melato, destacando as suas características, criou-se uma demanda por este tipo de mel, e os apicultores podem obter renda através de sua comercialização.”

Ecologia ampliada: além das abelhas

O melato não alimenta apenas Apis mellifera. A publicação documenta que o líquido açucarado produzido pela S. paranaensis é consumido por ácaros, vespas, formigas, moscas, besouros e aves. No Brasil, estudo realizado no Parque Estadual Carlos Botelho, em São Paulo, registrou 25 espécies de aves utilizando o melato de S. paranaensis em ingazeiros — entre elas cambacica e sanhaços.

Abelhas sem ferrão (Meliponini) também acessam o recurso, especialmente em períodos de escassez de floradas. A publicação aponta o potencial ainda pouco explorado do melato como alternativa econômica para meliponicultores da Floresta de Araucária — caminho já trilhado por apicultores nas florestas de carvalho da Colômbia, onde a cochonilha Stigmacoccus asper em associação com Quercus humboldtii gera produto análogo.

O apicultor Sélvio de Macedo Carvalho, que trabalha com abelhas há cerca de 50 anos em Cambará do Sul e cuja propriedade foi o ponto de partida das pesquisas do DDPA, resume com precisão a centralidade da bracatinga nesse sistema. Para ele, a árvore é muito mais do que uma planta melífera de inverno.

“A bracatinga, fazendo tudo certinho, podemos ter grande produção com ela. As flores dessa planta fornecem pólen em abundância para as abelhas, e néctar para produção de mel, mas a árvore ainda oferece o mel de melato, o que ocorre em anos alternados, através de um inseto, a cochonilha, que provoca em seu caule uma excreção adocicada.”

Desequilíbrio ambiental como risco

A publicação também levanta um alerta relevante para gestores e produtores. Populações de Stigmacoccus tendem a ser mais controladas em ambientes florestais preservados. Nas bordas de fragmentos e em áreas com maior exposição solar e temperatura elevada — resultado da retirada de madeira —, a infestação aumenta, comprometendo a saúde das árvores hospedeiras pelo excesso de fumagina, fungo que se desenvolve sobre o melato acumulado e interfere na fotossíntese.

O manejo cuidadoso das matas de bracatinga é, portanto, condição para a sustentabilidade da cadeia produtiva do mel de melato. A preservação ambiental não é apenas um valor ético: é requisito técnico para a qualidade e continuidade do produto. Os apicultores de Cambará do Sul, ao dependerem das floradas nativas e do equilíbrio ecológico da floresta, assumem de fato o papel de guardiões do bioma — e a IG reforça esse vínculo entre produto, território e conservação.

Leia aqui o estudo completo:


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