De florestas amazônicas a campos do Paquistão, iniciativas da parceria entre as duas organizações provam que produzir alimentos e proteger o meio ambiente não são objetivos opostos
A pressão sobre os sistemas alimentares globais nunca foi tão intensa. Ao mesmo tempo em que a demanda por comida cresce, o planeta enfrenta crise climática, perda de biodiversidade e degradação acelerada do solo. O desafio é encontrar caminhos que produzam alimentos com menos impacto — e há países que já estão mostrando como fazer isso.
É nesse contexto que a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e o GEF (Fundo para o Meio Ambiente Mundial) publicaram um relatório destacando quatro iniciativas bem-sucedidas em diferentes regiões do mundo. O portfólio FAO-GEF já supera US$ 2 bilhões em doações e alavancou mais de US$ 14 bilhões em cofinanciamento para ações de meio ambiente, clima e biodiversidade por meio de sistemas alimentares em países parceiros. As quatro soluções apresentadas são exemplos concretos do que essa parceria tem produzido em campo. FAO
Amazônia peruana: sabedoria ancestral como ferramenta de conservação
A perda de floresta tropical na Amazônia é um problema com múltiplas faces: emissões de carbono, colapso de biodiversidade e ameaça direta à segurança alimentar das populações que dependem do ecossistema. No Peru, a resposta veio de dentro das próprias comunidades.
O projeto Amazónicos, implementado com povos indígenas, o Ministério do Meio Ambiente do Peru e a ONG local PROFONANPE, atua nas regiões de Loreto, Ucayali e Junín. A iniciativa restaura ecossistemas degradados, fortalece a governança de áreas protegidas e promove economias locais baseadas em produtos florestais nativos. O conhecimento ancestral das comunidades — com destaque para o papel das mulheres indígenas — orienta a gestão territorial, as ações de prevenção de incêndios e o desenvolvimento de cadeias de valor sustentáveis. Até agora, três parques nacionais com mais de 3,4 milhões de hectares operam sob estruturas de gestão aprimoradas, protegendo alguns dos ecossistemas mais intactos da Amazônia.
Iraque: agricultura de conservação reverte desertificação no sul do país
As províncias de Thi-Qar e Al-Muthanna, no sul do Iraque, reúnem algumas das condições mais adversas para a produção agrícola: seca intensa, salinização do solo e rendimentos em queda. Nesse cenário, a FAO — com financiamento do GEF e parceria com o Ministério da Saúde e Meio Ambiente — lançou um programa de capacitação para agricultores locais.
O projeto apoia 1.600 produtores na adoção de técnicas de agricultura de conservação, como o preparo mínimo do solo, rotação de culturas, cobertura orgânica e manejo eficiente da água. Os resultados são expressivos já no primeiro ano: produtividade agrícola subiu 25%, os ciclos de irrigação foram reduzidos em quase 30% e os custos de produção caíram cerca de 20%. A paisagem agrícola da região, antes ameaçada pelo avanço do deserto, começa a dar sinais de recuperação.
Ásia Central: cooperação transfronteiriça para salvar rios e meios de vida
O Mar de Aral, que já foi o quarto maior lago de água doce do mundo, encolheu para cerca de 10% de seu tamanho original após mais de um século de irrigação intensiva e manejo insustentável da terra. As consequências se espalham por cinco países — Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão — afetando milhões de pessoas que dependem dos rios Amu Dária e Sir Dária para sua alimentação e renda.
A FAO articula uma resposta integrada entre esses países: práticas agrícolas sustentáveis, restauração de ecossistemas terrestres e aquáticos, e o uso de monitoramento por satélite para orientar decisões de gestão hídrica. A abordagem trata água, solo e biodiversidade como sistemas interligados — e o acordo de cooperação transfronteiriça é, em si, um avanço significativo em uma região historicamente marcada por disputas pelo acesso à água.
Paquistão: resíduo de banana vira fibra têxtil e reduz uso de agrotóxicos

O Paquistão é um dos dez maiores produtores têxteis do mundo e tem no algodão sua principal matéria-prima. O problema é que o cultivo do algodão consome grandes volumes de água e agrotóxicos. A alternativa encontrada parte de um resíduo abundante: o Paquistão produz cerca de 317 mil toneladas de banana por ano, e grande parte dos caules, folhas e talos da planta vai para o lixo — ou é queimada, liberando gases nocivos.
Com apoio técnico da FAO e financiamento do GEF, o governo paquistanês lança uma solução de bioeconomia: transformar esses resíduos em fibras naturais para tecidos, artesanato e embalagens. O projeto abrange 20 mil hectares e envolve mais de 73 mil pessoas na produção de bioprodutos inovadores. Além de eliminar químicos perigosos das cadeias têxteis, a iniciativa cria novas fontes de renda para famílias rurais.
Uma parceria de 20 anos com resultados no campo
A transformação dos sistemas agroalimentares exige que governança e políticas de apoio estejam integradas a todos os investimentos técnicos, segundo Dubravka Bojic, oficial de programa da FAO para Governança e Políticas. É exatamente esse modelo — que conecta ciência, política pública, capacidade de implementação e monitoramento rigoroso — que sustenta os projetos da parceria FAO-GEF em 140 países.
Desde 2006, a colaboração entre as duas organizações tem ajudado agricultores a construir resiliência frente às mudanças climáticas, restaurar solos e ecossistemas degradados e garantir alimentos mais diversos e nutritivos. Os quatro casos apresentados no relatório não são exceções: são modelos replicáveis que mostram o que é possível quando há investimento, conhecimento local e cooperação. À medida que o mundo se aproxima do prazo de 2030 para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, escalar essas soluções pode ser decisivo.
