Foodtechs como Papapá e Merendô mostram que nutrição infantil pode combinar sabor, composição limpa e escala comercial — e começam a redefinir o que vai à lancheira e à gôndola
O que uma criança come entre uma aula e outra tem consequências que vão muito além do recreio. Uma revisão científica publicada na revista Frontiers in Nutrition revelou que o consumo frequente de alimentos ultraprocessados na infância está associado a prejuízos cognitivos: dificuldades de concentração, piora na memória e impacto direto na capacidade de aprendizado. O achado reforça o que especialistas em nutrição já alertam há anos — e coloca o lanche escolar no centro de um debate que agora também interessa ao varejo.
É nesse cenário que duas empresas brasileiras estão construindo posicionamentos distintos, mas complementares, no mercado de alimentação infantil. De um lado, a Papapá lança uma nova marca voltada ao grande varejo e mira diretamente os líderes históricos de faturamento do setor. Do outro, a Merendô, marca da Polpa Brasil, atende redes de ensino público com barrinhas de fruta minimamente processadas. Juntas, elas revelam um mercado em transformação — mais exigente, mais informado e mais disposto a romper com a ideia de que saudável e gostoso não combinam.
Papapá aposta em nova marca para disputar gôndola com PepsiCo e Mondelez

A Papapá, foodtech que se consolidou como referência em papinhas naturais para bebês, anunciou na feira Naturaltech o lançamento da marca Papapá Era Uma Vez, linha de lanches voltada para crianças de 3 a 9 anos. O portfólio inclui achocolatados adoçados com suco de maçã, sucos, bolacha recheada e salgadinhos assados com baixo teor de sódio e sem adição de açúcar.
O movimento é deliberadamente agressivo. A empresa não quer ser rotulada como mais uma opção dentro do nicho saudável — quer disputar volume de vendas e presença de gôndola com produtos como Cheetos e Todynho (PepsiCo), Kapo (Coca-Cola) e marcas da Mondelez. Para isso, foram 14 meses de pesquisa e testes às cegas com o público infantojuvenil, com um critério não negociável: o produto precisava entregar o mesmo perfil de sabor e indulgência dos concorrentes convencionais.
Leonardo Afonso, cofundador e CEO da Papapá, explica o raciocínio por trás da estratégia:
“O mercado saudável infantil tradicional costuma errar em um ponto crucial: ele esquece de combinar o produto com o gosto da criança. Comida saudável que não é gostosa resulta em baixa rotação na gôndola. O nosso critério foi rigoroso: o produto precisava preservar o perfil de sabor e a indulgência característica daquilo que o mercado chama de ‘porcaria’, além de ter preço competitivo e um posicionamento visual atraente para o ecossistema infantil.”
Vácuo de prateleira e entrada no Nordeste
A estreia no varejo veio com resultado concreto: durante o lançamento, a Papapá fechou o cadastro dos novos produtos com a Rede G Barbosa, principal bandeira supermercadista do Nordeste pertencente à Cencosud, um dos maiores conglomerados de varejo multiformato da América Latina.
A escolha do momento não é aleatória. A linha assume um espaço físico deixado por marcas que recuaram da categoria: a Unilever descontinuou os salgadinhos infantis Zooreta, da Mãe Terra, e a W Nutricional encerrou a produção dos sucos LifeMix. A Papapá se posiciona como fornecedora para suprir essas lacunas — mas com foco no consumidor de massa, e não apenas nos compradores do nicho saudável.
Outro fator acelerou as negociações com o varejo: o avanço dos inibidores de apetite (as chamadas canetas emagrecedoras) reduziu o consumo de commodities e ultraprocessados hipercalóricos, pressionando o faturamento de atacarejos e supermercados. Afonso contextualiza o que isso significa para a categoria:
“O uso massivo dessas canetas emagrecedoras gerou um impacto forte no faturamento das lojas tradicionais. Isso forçou o supermercadista a buscar inovação de alto valor agregado para recompor suas margens de lucro. É nesse cenário de busca por rentabilidade e giro rápido que a nossa nova linha entra no grande varejo, oferecendo o volume de vendas dos líderes tradicionais com o apelo moderno da composição limpa.”
O que vai para a mochila importa — e a escola sabe disso
Enquanto a Papapá aposta no varejo de massa, a Merendô, marca da Polpa Brasil, empresa sediada em Fraiburgo (SC), atua pelo lado da alimentação escolar institucional. Suas barrinhas de fruta — sem adição de açúcar, sem conservantes — já chegam a 1.500 crianças de escolas públicas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A iniciativa ganha reforço regulatório: uma nova resolução do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), em vigor desde fevereiro, determina que ao menos 85% dos recursos federais destinados à merenda sejam aplicados na compra de alimentos in natura ou minimamente processados. A medida pressiona redes de ensino a reestruturar cardápios e a escolher fornecedores com portfólios alinhados a esses critérios.
A nutricionista Andressa Meira, que integra a equipe comercial da Merendô, explica o impacto da má alimentação dentro da sala de aula:
“Crianças com dietas pobres em nutrientes tendem a apresentar mais dificuldade de concentração, menor capacidade de memorização, fadiga e oscilações de energia ao longo do dia. Isso impacta diretamente o rendimento escolar e até a interação social dentro da escola.”
A escola como formadora de hábitos alimentares
Para muitas crianças brasileiras, a merenda escolar é a refeição mais equilibrada do dia. O custo dos alimentos saudáveis, a falta de tempo das famílias e a onipresença dos ultraprocessados no varejo criam um contexto em que a escola assume, na prática, um papel estratégico na formação de hábitos.
A vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, afirmou em discurso na Cúpula de Sistemas Alimentares que a alimentação escolar é muito mais do que um prato de comida. A ciência confirma: padrões alimentares estabelecidos na infância influenciam escolhas ao longo de toda a vida.
Andressa Meira reforça esse papel formador e aponta o que os produtos precisam entregar para funcionar nesse ambiente:
“O mais importante é observar a composição do produto. Opções feitas com ingredientes naturais, sem excesso de aditivos e com processamento mínimo, contribuem para ampliar a oferta de lanches equilibrados na rotina escolar, e ainda facilitam a logística das escolas e das famílias.”
Sabor e composição limpa: uma equação possível
O que aproxima casos tão diferentes como Papapá e Merendô é a mesma premissa: não é preciso escolher entre produto palatável e composição adequada. A diferença está no canal — varejo de massa versus alimentação escolar pública — e no perfil de quem decide a compra: o comprador comercial do supermercado, de um lado, e o gestor público de merenda, do outro.
Nos dois casos, no entanto, quem come é a criança. E o critério final é o mesmo: o produto precisa ser consumido, não descartado. A indústria brasileira parece finalmente levar isso a sério.
