Relatório Agro Mensal do Itaú BBA aponta alta expressiva da ureia e do MAP; nitrogenados lideram movimento de preços em março e início de abril
A escalada do conflito no Oriente Médio está se traduzindo em custos mais altos para o agronegócio brasileiro. Entre março e o início de abril de 2026, o mercado global de fertilizantes operou sob pressão crescente, com impactos diretos sobre a produção, a logística e os preços de energia nos países do Golfo Pérsico. Os dados constam do Agro Mensal, relatório da Consultoria Agro do Itaú BBA, divulgado em 22 de abril.
Os nitrogenados lideram o movimento de alta no período. No mercado brasileiro, a ureia acumulou valorização expressiva, alcançando aproximadamente USD 760 por tonelada CFR em 10 de abril. A combinação de oferta mais restrita, petróleo e gás natural em alta e aversão ao risco no cenário internacional explica a trajetória ascendente do insumo.
Nitrogenados sob pressão máxima
A dependência da região do Golfo Pérsico como fornecedora de fertilizantes nitrogenados coloca o Brasil em posição vulnerável. O país importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que consome, segundo estimativas do setor, e o Oriente Médio responde por parcela relevante desse volume — especialmente em ureia e amônia, cujo processo de fabricação depende fortemente do gás natural abundante na região.
O cenário de curto prazo, segundo o Itaú BBA, é de mercado ajustado e volátil. A instituição avalia que as incertezas sobre a duração do conflito e a normalização dos fluxos logísticos globais tendem a sustentar os preços elevados por ora. A aversão ao risco no cenário internacional amplifica o movimento, dificultando previsões confiáveis para os próximos meses.
Fosfatados também registram alta
O segmento de fosfatados também foi afetado nas últimas semanas, combinando pressões geopolíticas com fatores específicos de mercado. Além dos impactos diretos do conflito em uma região estratégica para matérias-primas, o mercado sofreu influência adicional da alta do enxofre, insumo fundamental na produção de ácido sulfúrico.
No Brasil, os preços do enxofre acumulam elevação significativa desde fevereiro, elevando os custos de produção de fosfatados. O MAP atingiu aproximadamente USD 890 por tonelada CFR no mercado doméstico, alta de cerca de 7% no período. O movimento é considerado estrutural no curto prazo: mesmo com demanda agrícola ainda avançando de forma gradual, a combinação entre oferta ajustada, custos elevados e incerteza geopolítica sustenta os preços em patamares firmes.
A presença do Oriente Médio na cadeia de suprimentos de fertilizantes é estratégica justamente pela abundância de gás natural na região. O protagonismo do Golfo Pérsico no fornecimento de ureia, enxofre e amônia decorre do baixo custo da principal matéria-prima: o gás natural, cujas moléculas são quebradas para extração de hidrogênio, que é então combinado com nitrogênio atmosférico para sintetizar amônia — base da ureia sólida.
Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, aponta os limites da substituição de fornecedores nesse contexto.
“No curto prazo, o impacto sobre o agronegócio brasileiro se dá principalmente via aumento de custos. A possibilidade de substituição de fornecedores existe, mas é limitada no curto prazo. O mercado global de fertilizantes depende de cadeias logísticas complexas.”
Potássicos têm maior estabilidade relativa
Em comparação aos nitrogenados e fosfatados, o mercado de potássicos apresenta comportamento mais estável. A oferta internacional segue relativamente equilibrada, com Rússia e Belarus mantendo participação relevante no comércio global do insumo. Ainda assim, os potássicos também sentem os efeitos do aumento das incertezas globais e dos custos logísticos, embora em menor intensidade.
Para os próximos meses, a expectativa do Itaú BBA é de avanço gradual da demanda agrícola, com preços se mantendo sustentados no segmento. A volatilidade deve ser menor do que nos demais grupos de nutrientes, mas o patamar de preços segue elevado em termos históricos.
Impacto na rentabilidade do produtor
A alta simultânea dos principais grupos de fertilizantes comprime a rentabilidade dos produtores brasileiros, especialmente em culturas como milho e soja, que consomem volumes expressivos de ureia e fósforo. Bruno Fonseca, analista de Fertilizantes e Insumos do Rabobank Brasil, observa que o Affordability Index do banco, que mede o poder de compra dos produtores, registra deterioração diante das altas nos preços dos adubos sem que as commodities acompanhem o movimento.
Fonseca também ressalta que os canais de fornecimento alternativos abertos após o início do conflito na Ucrânia, em 2022, continuam ativos e devem ser mobilizados neste novo ciclo de pressão.
“Após o início do conflito na Ucrânia, o Brasil foi bastante hábil em acessar outras fontes para os produtos. Acredito que estes canais continuam ativos e, neste momento de oferta reduzida, serão essenciais para garantir o acesso dos produtores brasileiros a esses produtos.”
O que esperar nos próximos meses
O cenário projetado para o segundo trimestre de 2026 combina demanda gradualmente crescente com preços em patamar elevado. O calendário agrícola brasileiro joga papel importante nessa equação: as compras de fertilizantes nitrogenados pelos produtores tendem a se intensificar nos meses finais do ano, antes do plantio da safrinha de milho, o que pode adicionar nova pressão de demanda sobre um mercado já ajustado.
A normalização dos fluxos logísticos globais e o desfecho do conflito no Oriente Médio são as variáveis que mais influenciarão a trajetória dos preços nos próximos meses. Enquanto isso, o mercado opera com volatilidade elevada e margens apertadas para toda a cadeia, do produtor rural às indústrias de alimentos que dependem de grãos como matéria-prima.
