Nova avaliação global aponta manejo insustentável na maior parte do planeta, enquanto o Brasil soma recordes de agricultura de conservação e de desmatamento no mesmo território
O solo raramente vira manchete, mas sustenta mais de 95% de tudo o que comemos. Um novo diagnóstico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostra que esse recurso segue sendo tratado como infinito, mesmo não sendo.
O relatório Status of the World’s Soil Resources 2026, elaborado pelo Painel Técnico Intergovernamental sobre Solos (ITPS) e lançado durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), reúne evidências de 75 países produzidas entre 2015 e 2025. É a atualização mais completa desde o primeiro levantamento do gênero, publicado uma década atrás.
A conclusão central preocupa: cerca de metade das avaliações regionais registra adoção baixa ou muito baixa de práticas de manejo sustentável do solo, e apenas 10% mostram tendência de melhora. Para o setor de alimentos e bebidas, cuja cadeia começa literalmente na terra, o dado é um alerta direto sobre a base da produção futura.
Erosão lidera a lista de ameaças interligadas
Entre as sete ameaças analisadas — erosão, perda de carbono orgânico, desequilíbrio de nutrientes, perda de biodiversidade, salinização, poluição e selamento por expansão urbana —, a erosão aparece como a mais grave e mais disseminada. Em 81% das avaliações regionais, o manejo para conter esse processo é considerado ruim ou muito ruim, e 65% mostram piora desde 2015.
O relatório destaca que as ameaças não atuam isoladamente: a perda de topo fértil reduz a profundidade de enraizamento, esgota nutrientes e carbono, compromete a infiltração de água e aumenta o risco de enchentes e secas. Práticas isoladas ajudam pouco; combinações de plantio direto, cobertura vegetal permanente e manejo integrado de fertilidade produzem resultados mais duradouros.
Diante desse cenário, a FAO reforça que o conhecimento técnico já existe e está mais consolidado do que em 2015, mas a aplicação em escala continua distante do necessário. A vice-diretora-geral da FAO, Beth Bechdol, resumiu o dilema por trás do lançamento do relatório.
Beth Bechdol afirmou que hoje há evidências muito melhores sobre as pressões que os solos enfrentam e as práticas capazes de protegê-los, mas que a prioridade agora é dar a países, agricultores e outros usuários da terra o conhecimento, a capacidade e os incentivos necessários para colocar essas soluções em prática, segundo o comunicado da FAO.
Cinco prioridades para destravar a adoção de práticas sustentáveis
O documento também explica por que o conhecimento disponível não se traduz em mudança de comportamento no campo. Quando uma prática sustentável gera ganho econômico rápido — maior fertilidade, produtividade ou resiliência à seca —, produtores tendem a adotá-la. Já benefícios que recaem sobre a sociedade como um todo, como menor emissão de gases de efeito estufa ou recarga de aquíferos, avançam mais devagar sem apoio de política pública.
Para reverter esse quadro, o ITPS elenca cinco frentes prioritárias: fortalecer a governança e os marcos legais sobre solo; investir em educação, capacitação e troca de conhecimento, incluindo saberes tradicionais e indígenas; aprimorar o monitoramento com dados harmonizados; ampliar incentivos econômicos para a adoção de manejo sustentável; e garantir decisões mais inclusivas e multissetoriais.
O relatório também chama atenção para a desigualdade de gênero no acesso à terra, já que mulheres respondem por parcela relevante do trabalho agrícola em diversas regiões, mas frequentemente não têm poder formal de decisão sobre o manejo do solo.
Destaque Brasil: o Cerrado é ao mesmo tempo vitrine e ponto de alerta
O capítulo regional dedicado à América Latina e ao Caribe, com liderança técnica de pesquisadores brasileiros, traz um retrato ambíguo do país. Por um lado, o Brasil aparece como referência global em agricultura de conservação: eram 43 milhões de hectares sob esse sistema em 2018/2019, o maior volume da América do Sul, à frente da Argentina. No Cerrado, estados como Mato Grosso (87% da área de lavouras anuais) e Goiás (70,7%) lideram a adoção do plantio direto no país.
Por outro lado, o Brasil registrou a maior perda líquida de floresta de qualquer país do mundo entre 2015 e 2022, com 9,7 milhões de hectares desmatados, segundo dados da FAO citados no relatório. O ritmo de perda florestal no Cerrado desacelerou, de 850 mil hectares por ano entre 1985 e 2015 para 570 mil hectares por ano entre 2015 e 2022, mas o bioma segue perdendo área de vegetação nativa para lavouras e pastagens.
Há também sinais de recuperação: a qualidade das pastagens do Cerrado melhorou no mesmo período, com a área de pastagem degradada caindo e a de pastagem em boa condição subindo para pelo menos 33,4% do bioma, conforme dados do MapBiomas reproduzidos pelo relatório. Os estoques de carbono orgânico no solo da região permaneceram estáveis entre 2015 e 2021.
O relatório também traz um dado pouco divulgado sobre o papel da biodiversidade do solo na economia agrícola brasileira: micro-organismos nativos fixadores de nitrogênio, usados na produção de soja no Cerrado, reduzem os custos com fertilizantes nitrogenados em até 15,2 bilhões de dólares por ano no país. É um lembrete de que solo saudável também é competitividade.
O que isso significa para quem trabalha com alimentos e bebidas
Para chefs, compradores e executivos do setor, o relatório reforça uma equação que já vinha se impondo pela via da rastreabilidade e do compliance ambiental: a origem da matéria-prima — soja, café do Cerrado Mineiro, proteína animal, grãos — está cada vez mais atrelada à saúde do solo onde ela nasce.
O documento também é insumo direto para as discussões que o Brasil sediará na COP30, em Belém, quando o país deve reforçar seu discurso de ganhos de produtividade sem expansão proporcional de área. Os números da FAO servem tanto para sustentar esse argumento quanto para cobrar dados mais robustos sobre desmatamento e uso de agroquímicos no Cerrado.
