Sistemas públicos de pesquisa e desenvolvimento agrícola ultrapassam US$ 50 bilhões e registram crescimento médio de 1,8% ao ano nas últimas duas décadas
A pesquisa e o desenvolvimento agrícola público cresceram de forma consistente no mundo. Os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram que os investimentos globais chegaram a US$ 50,4 bilhões em 2023, ante US$ 35,9 bilhões registrados em 2004. O número de pesquisadores do setor também avançou, saltando de 204 mil para 316 mil profissionais em tempo integral no mesmo período.
Os números fazem parte de um novo domínio de dados lançado no FAOSTAT, o maior banco de dados agrícolas do mundo. A iniciativa, financiada pela Fundação Gates, retoma e moderniza um serviço que teve início em 1981, desenvolvido originalmente em parceria com o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI) e o extinto Serviço Internacional para a Pesquisa Agrícola Nacional (ISNAR).
Asía lidera, disparidades persistem
A distribuição dos investimentos não é uniforme. A Ásia concentra 45% dos pesquisadores agrícolas públicos do mundo e responde por 48% dos gastos globais no setor. Europa vem em segundo lugar em número de pesquisadores (24%), seguida pelas Américas (14%), África (13%) e Oceania (3%). Em termos de gastos, as Américas ocupam a segunda posição, com 22% do total, seguidas de Europa (20%), África (8%) e Oceania (3%).
O crescimento mais expressivo ao longo do período analisado foi registrado na Ásia Central, tanto em número de pesquisadores quanto em volume de investimentos. Na outra ponta, o Sul da África registrou a maior queda no número de pesquisadores, enquanto o Sul da Europa apresentou o declínio mais acentuado nos gastos.
Indicadores de intensidade revelam desigualdade
A razão de pesquisadores agrícolas por 100 mil trabalhadores do campo varia de forma expressiva entre os países, com intervalo que vai de 5 a 1.692 profissionais por grupo. O gasto médio dos países equivale a 1,3% do valor adicionado gerado pelos setores agrícolas nacionais, com mediana de apenas 0,6%. Bélgica, Dinamarca, Suíça, Coreia do Sul e Eslovênia figuram entre os países com os maiores índices de intensidade de investimento.
Essa variação reflete diferenças em renda nacional, tamanho do setor agrícola, dinâmicas de comércio exterior e economias de escala. Os dados granulares agora disponíveis no FAOSTAT permitirão análises mais precisas sobre necessidades e boas práticas em sistemas agroalimentares sustentáveis.
P&D como alavanca para sistemas alimentares mais eficientes
A pesquisa agrícola está no centro de transformações que vão além da produção. Segundo a FAO, o investimento nessa área está associado à redução dos preços dos alimentos, à melhoria na eficiência do uso de recursos naturais e à diminuição da pegada de carbono da produção. O setor também é fundamental para adaptar culturas-chave às mudanças climáticas.
José Rosero Moncayo, Estatístico-Chefe da FAO, destacou a relevância do novo serviço para a formulação de políticas baseadas em evidências. Para ele, a iniciativa preenche uma lacuna histórica ao criar, pela primeira vez, um arcabouço global, regular e acordado para monitorar a P&D agrícola nos países membros.
“Este novo domínio fortalecerá a formulação de políticas baseadas em evidências e a defesa de sistemas de pesquisa agrícola mais eficazes. Aborda uma lacuna de longa data ao fornecer, pela primeira vez, um arcabouço global regular e acordado para monitorar a P&D agrícola.”
Dados abertos para mais de 120 países
O novo domínio já está disponível com dados de mais de 120 países-membros da FAO, com cobertura prevista para ser ampliada ainda este ano. O levantamento abrange o período de 2004 a 2023 e inclui tendências globais, regionais e nacionais em capacidade de pesquisa e gastos públicos.
A base do projeto remonta ao esforço conjunto entre IFPRI e ISNAR iniciado em 1981, hoje incorporado formalmente à estrutura da FAO, com o objetivo de institucionalizar o monitoramento da ciência e tecnologia agrícola como um bem público global.
