Ferramenta em teste no Sul e no Sudeste troca papel por celular, ajusta ícones e linguagem a produtores com pouca familiaridade digital e prepara um banco de dados para o setor
Preencher páginas e mais páginas de papel para provar que uma alface é orgânica faz parte da rotina de milhares de agricultores brasileiros. A Embrapa quer trocar essa pilha de formulários por um aplicativo de celular. O desafio, porém, vai além da tecnologia: a ferramenta precisa ser entendida por quem nunca teve contato com esse tipo de produto.
O app está sendo desenvolvido para apoiar o processo de certificação participativa de alimentos orgânicos. Além de economizar tempo, a digitalização gera um banco de dados para gerenciar produção e comercialização, especialmente por meio de associações e cooperativas.
A pesquisadora Gisele Freitas Vilela, da Embrapa Territorial e líder do projeto, resume a proposta ao colocar o usuário final no centro da construção da ferramenta:
“Nosso objetivo é entregar uma ferramenta simples, eficiente e totalmente alinhada às necessidades reais dos usuários, fortalecendo a gestão da informação na produção orgânica.”
Quando o disquete não significa “salvar”
A analista Vanessa Maia Aguiar Magalhães, da Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, é especialista em letramento digital. Ela observa que boa parte do público-alvo não reconhece sinais que parecem óbvios para quem acompanhou a evolução das tecnologias de informação e comunicação.
O ícone do disquete, por exemplo, não é associado ao botão de salvar um arquivo. Caixas de preenchimento não são vistas como espaço para digitar, e botões podem nem ser entendidos como botões.
Esse diagnóstico leva a equipe a inverter a lógica habitual do desenvolvimento de software. Vanessa resume o princípio que orienta o trabalho:
“Não queremos que a pessoa se adapte ao sistema, mas que o sistema se adapte à realidade dela.”
Oficinas em três estados do Sul
Para entender de perto as dificuldades e como reduzi-las, a Embrapa realiza oficinas com produtores. Em setembro, a equipe visitou Três Cachoeiras (RS), Garopaba (SC) e Ribeirão Claro (PR) com uma primeira versão do aplicativo.
Os agricultores instalaram o app junto com uma ferramenta que grava a interação. Com esse registro, os desenvolvedores conseguem avaliar o que funciona, onde surgem os obstáculos e o que precisa ser reconfigurado.
Antes da etapa no Sul, a equipe havia feito encontros semelhantes com produtores de São Paulo e Minas Gerais. Além da navegação, coletou informações sobre hábitos de uso de tecnologias digitais, sempre com esclarecimento e autorização dos participantes, seguindo princípios éticos da pesquisa com humanos.
Agora, todo o material está em análise para adaptar linguagem, ícones, interface e navegabilidade. Novos eventos para avaliar a versão revisada já estão previstos.

Celulares modestos e medo do digital
O perfil dos equipamentos também pesa nas decisões de projeto. O público é formado principalmente por pequenos produtores de orgânicos, que usam smartphones com tela pequena, imagens de baixa definição e capacidade limitada de memória e processamento.
Há ainda uma barreira que não depende do aparelho. Vanessa, que integrou a equipe das oficinas, descreve o sentimento que a equipe encontra em campo:
“Também enfrentamos uma resistência ao digital. A pessoa tem medo, tem vergonha de não saber usar, tem receio de que seus dados sejam roubados. Então, há algo a ser construído com eles.”
Autonomia como meta
Segundo Vanessa, o objetivo principal é que o usuário não apenas consiga usar o aplicativo, mas interprete, compreenda e se aproprie da interface e do conhecimento. A meta é desenvolver uma metodologia e uma ferramenta que permitam ao produtor operar de forma autônoma, entendendo o significado de cada campo e de cada ação.
A analista reconhece que, mesmo com um app mais amigável, muitos agricultores ainda precisarão de treinamento e apoio por algum tempo. A expectativa é que esse período seja o menor possível.
Menos papel, mais dados para o setor
O aplicativo nasce para as organizações de certificação geridas pelos próprios agricultores: os Organismos Participativos de Avaliação da Conformidade (OPACs) e as Organizações de Controle Social (OCSs). A elas estão vinculados 65% dos produtores de orgânicos do país.
Reduzir o tempo gasto com documentos é uma das principais vantagens. O volume de informações exigido para comprovar o caráter orgânico da produção é grande e precisa ser refeito periodicamente.
No caso do plantio de alface, por exemplo, o produtor informa a quantidade de sementes e como foram adquiridas, a colheita esperada, cada fertilizante ou produto usado contra doenças e pragas e o destino das vendas. Também entram dados da propriedade, como conservação do solo, proteção de fontes de água e destinação de resíduos.
Com o histórico gravado, o agricultor deixa de preencher repetidamente os campos cujas informações não mudam. Mas a maior vantagem pode estar na formação do banco de dados. Estimativas de produção e insumos mais usados, por exemplo, podem apoiar a comercialização e a organização de compras coletivas.
Espera-se também que essas informações atendam à demanda de órgãos públicos por dados que orientem políticas voltadas ao segmento orgânico. Por isso, o Ministério da Agricultura e Pecuária é parceiro do projeto. Pela Embrapa, além da Territorial e da Gado de Leite, participa a Embrapa Clima Temperado, no Rio Grande do Sul.

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