desperdicio e perda de alimentos

Novo estudo global revela que o problema corrói margens, concentra-se na logística e impacta 32% da receita das empresas brasileiras

O desperdício de alimentos deixou de ser apenas uma questão ambiental. Ele já é, hoje, uma das maiores ameaças à rentabilidade das empresas da cadeia alimentar global. Um novo estudo da Avery Dennison, empresa global de ciência de materiais e soluções de identificação digital, projeta que o custo do desperdício ao longo da cadeia de suprimentos pode alcançar US$ 540 bilhões ainda em 2026 — ante US$ 526 bilhões registrados no ano anterior.

No Brasil, o impacto é ainda mais direto e mensurável. Os custos associados ao desperdício de alimentos equivalem, em média, a 32% da receita anual total das empresas que atuam no varejo alimentício, do campo ao ponto de venda. O dado está no relatório “Tornando o invisível visível: liberando o valor oculto do desperdício de alimentos para impulsionar crescimento e rentabilidade”, publicado pela Avery Dennison com base em pesquisa quantitativa realizada pela Censuswide com 3.502 tomadores de decisão em sete países.

O que os líderes não enxergam: o problema da invisibilidade

A pesquisa expõe uma contradição preocupante: ao mesmo tempo em que o desperdício cresce, as empresas não sabem ao certo onde ele acontece. Dos líderes do varejo e da cadeia de suprimentos ouvidos pelo estudo, 61% afirmam não ter visibilidade completa sobre onde as perdas ocorrem dentro de suas operações.

Esse ponto cego operacional é um dos principais obstáculos para a redução das perdas. Sem dados precisos, não há como agir nos pontos críticos — e a cadeia continua sangrando margens silenciosamente.

Flavio Marqués, Diretor de Marketing, Vendas e Comunicação para a América Latina da Avery Dennison, aponta que o problema começa exatamente nessa falta de compreensão:

“Para conseguir superar um desafio, especialmente tão impactante como esse, o primeiro passo é ter compreensão do problema. E essa se mostra a primeira dificuldade, uma vez que 61% dos líderes do varejo sequer têm conhecimento das adversidades, o que os impede de trabalhar para superá-las. Com a inovação adequada, é possível transformar essa perda em valor mensurável e reposicionar o desperdício de alimentos: de um tema exclusivamente ligado à sustentabilidade para uma questão crítica de negócios, capaz de gerar eficiência e crescimento em toda a cadeia.”

Logística e transporte: onde mais se perde sem que ninguém saiba

Entre os pontos críticos identificados, a logística aparece como o maior gargalo. Mais da metade dos entrevistados — 56% — admite não compreender quanto desperdício ocorre durante o transporte dos alimentos. É um trecho da cadeia onde perecíveis enfrentam oscilações de temperatura, atrasos e manuseio inadequado, sem que sistemas digitais de monitoramento estejam presentes.

O problema se aprofunda quando se olha para a gestão de estoques: 67% das empresas ainda realizam o controle de inventário majoritariamente por meio de contagens manuais. Um processo intensivo em mão de obra, sujeito a erros e incompatível com a velocidade exigida pelo varejo moderno de alimentos frescos.

O estudo indica que superar esse gargalo requer uma combinação de soluções que inclui visibilidade de inventário em nível de item, previsão de demanda e gestão de vida útil em tempo real — tecnologias disponíveis, mas ainda sub-adotadas pelo setor.

As categorias mais difíceis: carnes, frutas e panificação no centro da crise

Quando questionados sobre as categorias mais desafiadoras em termos de desperdício, os líderes foram diretos: 50% apontaram as carnes, 45% indicaram frutas e verduras e 28% destacaram produtos de panificação como os segmentos mais complexos de gerenciar.

No caso das carnes, o impacto é especialmente expressivo. Projeções econômicas independentes do Centre for Economics and Business Research (Cebr) indicam que o desperdício nessa categoria pode representar US$ 94 bilhões em perdas globais em 2026 — quase um quinto do impacto econômico total do desperdício de alimentos no período. O mercado de frutas, verduras e hortaliças vem logo atrás, com projeção de US$ 88 bilhões em perdas.

No Brasil, o quadro para as carnes é ainda mais crítico. Cerca de 72% dos líderes da cadeia de suprimentos apontam essa categoria como o principal desafio de gestão — reflexo do alto custo unitário do produto e da complexidade logística envolvida no transporte e armazenamento refrigerado.

Inflação e mudança de comportamento agravam as perdas

A volatilidade econômica tem funcionado como um amplificador das ineficiências da cadeia. O estudo mostra que 74% dos varejistas afirmam que a inflação tornou mais difícil prever a demanda por carnes. Ao mesmo tempo, 73% observam um aumento na procura por porções menores ou por alternativas à proteína animal.

Essa mudança de perfil de consumo — com famílias optando por quantidades menores e proteínas mais acessíveis — redesenha a equação de compras e de estoque, impactando diretamente tanto a rentabilidade quanto os níveis de desperdício no varejo.

Além disso, mais da metade dos líderes empresariais ouvidos — 51% — reconhece que a gestão de estoque e o excesso de inventário contribuem de forma significativa para as perdas dentro de suas próprias operações.

O prazo da ONU e o alerta para 2030

O cenário projetado pelo estudo coloca em risco uma das metas centrais da agenda global de sustentabilidade. Se as tendências atuais se mantiverem, o custo acumulado do desperdício de alimentos entre 2025 e 2030 pode atingir US$ 3,4 trilhões — um número que coincide com o prazo do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12.3 da ONU, que prevê a redução pela metade do desperdício alimentar global até 2030.

O relatório revela que 27% dos líderes já acreditam que não conseguirão cumprir essa meta dentro do prazo estabelecido. Para o diretor da Avery Dennison para a América Latina, o setor precisa mudar de perspectiva sobre o tema:

“Durante muito tempo, o desperdício de alimentos foi tratado quase exclusivamente como uma questão ambiental e social. Ele também envolve negócios e representa uma grande oportunidade, tanto globalmente como no Brasil. Os US$ 540 bilhões em valor perdido devem servir como um claro chamado à ação para que a cadeia de suprimentos do varejo alimentício reduza perdas e aumente a eficiência.”

Tecnologia e dados como caminho para transformar perda em crescimento

O relatório não se limita a mapear o problema — ele aponta caminhos concretos. A adoção de tecnologias de identificação digital, rastreamento em tempo real e gestão inteligente de estoques aparece como o principal vetor de transformação. Com visibilidade em nível de item, é possível antecipar perdas, ajustar pedidos com base em dados de demanda e reduzir o excesso de inventário.

A pesquisa reforça que o desperdício de alimentos, quando tratado como questão de negócios — e não apenas como problema socioambiental — abre uma janela relevante de crescimento de receita. No Brasil, reverter parte dos 32% de receita comprometidos pelas perdas representa, na prática, uma alavanca financeira de grande escala para o varejo alimentício.

O relatório completo da Avery Dennison está disponível para download no site da empresa, com dados detalhados por categoria, por país e por elo da cadeia de suprimentos.


Sobre a pesquisa: Pesquisa quantitativa encomendada pela Avery Dennison, realizada pela Censuswide entre 13 e 26 de junho de 2025. Total de 3.502 entrevistados — tomadores de decisão de nível sênior em varejo alimentício e cadeia de valor dos alimentos nos Estados Unidos, Alemanha, França, China, Brasil, Reino Unido e Índia. A pesquisa econômica foi conduzida pelo Centre for Economics and Business Research (Cebr).


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