ceasa pacto contra a fome

Levantamento do Pacto Contra a Fome mapeia 44 centrais de abastecimento do país e propõe metodologia nacional para transformar perdas em refeições

O Brasil desperdiça 340 mil toneladas de alimentos por ano só dentro das Centrais de Abastecimento (Ceasas), segundo o relatório “Ceasa Desperdício Zero”, lançado pelo Pacto Contra a Fome. O volume representa R$ 1,5 bilhão em perdas anuais e 510 mil toneladas de CO₂ liberadas na atmosfera, em produtos que, na maioria, ainda estariam próprios para consumo.

O material foi desenvolvido em cooperação técnica com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e a Associação Brasileira das Centrais de Abastecimento (Abracen). A metodologia nasceu de visitas técnicas a nove estados e da análise de 12 experiências nacionais de referência em bancos de alimentos.

Hoje, apenas 15 mil toneladas de alimentos são redistribuídas anualmente pelos bancos de alimentos instalados nas Ceasas brasileiras. O documento defende que esse número pode chegar a 102 mil toneladas por ano, um salto que colocaria a rede de redistribuição em outro patamar de relevância social.

Um problema concentrado onde mais se produz alimento saudável

Das 44 centrais de abastecimento do país, que administram 75 entrepostos ou mercados atacadistas, apenas 32 possuem banco de alimentos em funcionamento. Outros 43 mercados atacadistas ainda não contam com essa estrutura, segundo dados da Abracen citados no relatório.

O recorte chama atenção porque os produtos que circulam nas Ceasas são majoritariamente frutas, legumes e verduras in natura — exatamente os alimentos de maior valor nutricional e os que mais faltam na mesa de quem vive em insegurança alimentar. De acordo com o IBGE, 54,7 milhões de brasileiros estavam em condição de insegurança alimentar em 2025, dos quais 6,4 milhões enfrentavam fome.

O cenário nacional reflete um problema global: segundo o Pnuma, 1,05 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos no mundo, e entre 8% e 10% das emissões globais de gases de efeito estufa estão associadas a perdas e desperdício de alimentos, com custo econômico estimado em US$ 1 trilhão anuais.

Uma hierarquia de destinos antes do descarte

O relatório adota a hierarquia de estratégias da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) para orientar o destino dos alimentos que perdem valor comercial. A ordem de prioridade recomendada é: doação para consumo humano, reaproveitamento em processamento, alimentação animal, compostagem, biodigestão e, apenas como último recurso, aterro sanitário ou incineração.

Atualmente, 75% dos resíduos das Ceasas brasileiras seguem para aterros sanitários, segundo dados gerenciais da Abracen. O relatório estima que 1 kg de alimento redistribuído é capaz de gerar 2,5 refeições complementadas, o que projeta um potencial de 698,6 mil refeições complementadas por dia e 232,9 mil pessoas com as três refeições diárias garantidas, caso a meta de redistribuição seja atingida.

O custo de levar a estrutura a todas as centrais do país

O documento também detalha o investimento necessário para implantar e qualificar bancos de alimentos em todas as centrais de abastecimento brasileiras: cerca de R$ 834,4 milhões. A estimativa considera três portes de unidade, de acordo com o volume de doações recebido por mês — até 20 toneladas, de 20 a 100 toneladas e de 100 a 300 toneladas —, com custos de construção em alvenaria que variam de R$ 7,9 milhões a R$ 9,7 milhões por unidade.

Como etapa final da hierarquia de reaproveitamento, o relatório também estima o investimento em usinas de bioenergia para biodigestão dos resíduos que não podem mais ser consumidos. Uma planta com capacidade de 25 toneladas por dia demandaria cerca de R$ 9 milhões de capital inicial e poderia gerar biogás suficiente para abastecer uma família brasileira por cerca de um mês de eletricidade a cada tonelada de resíduo processado.

Responsabilidade compartilhada entre governos e sociedade civil

O relatório reforça que a transformação das Ceasas em centrais de desperdício zero depende de decisão orçamentária e articulação política nos três níveis de governo. Entre as recomendações estão a formação de equipes técnicas dedicadas dentro das centrais e a garantia de orçamento público para infraestrutura, logística e operação das estratégias de reaproveitamento.

O programa Ceasa Desperdício Zero já resultou em anúncios concretos, como a modernização do banco de alimentos da Ceagesp e da CeasaMinas, apresentados em parceria entre o Pacto Contra a Fome e as próprias centrais de abastecimento. Mais informações sobre o projeto e o material completo estão disponíveis no site do Pacto Contra a Fome.

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