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A startup que prova ser possível ganhar dinheiro preservando o Cerrado — e ainda alimentar o mundo com mais proteína, fibra e menos impacto ambiental

A castanha de baru, fruto nativo do Cerrado brasileiro, não é mais um segredo guardado pelas comunidades do Brasil Central. Na edição de 2026 do Web Summit Rio — o maior evento de tecnologia da América Latina, que reuniu mais de 40 mil participantes de mais de 100 países no Riocentro entre os dias 8 e 11 de junho — a Bio2me, startup responsável por comercializar o baru sob a marca Vista, apresentou ao mundo sua proposta de bioeconomia inovadora: conservar o Cerrado produzindo nele, e não destruindo-o.

A presença da empresa no evento reforça uma tendência clara: inovação alimentar, sustentabilidade e tecnologia estão cada vez mais entrelaçadas. E o baru é um dos personagens centrais dessa história.

O que é o Baru?

O baru (Dipteryx alata) é uma semente comestível extraída do baruzeiro, árvore típica do Cerrado brasileiro. Também chamados de “superfoods” — ou superalimentos —, esses são alimentos com características nutricionais muito acima da média: alto índice de nutrientes e baixo valor calórico ou de açúcares.

E o baru se encaixa perfeitamente nessa definição. De acordo com a tabela nutricional do produto Vista, cada 100g de castanha de baru contém:

  • 558 kcal de valor energético — mas com menos de 25% das calorias de outras castanhas
  • 19g de proteínas — sendo que em cada 100g, 31% são proteínas, segundo o material da marca
  • 9,8g de fibras alimentares
  • 41g de gorduras totais, sem gorduras trans e sem colesterol
  • 5,1 mg de ferro, 217 mg de magnésio, 1.007 mg de potássio, 172 mg de cálcio e 5,4 mg de zinco
  • Vitamina E e alto nível de antioxidantes — 3 vezes mais do que castanhas comuns

Além do perfil nutricional impressionante, o baru contribui para o controle do colesterol, fortalece o sistema imunológico, previne anemias e dores articulares, e é uma excelente fonte de energia sustentada. Um alimento completo, com tudo que o corpo precisa.

A Bio2me e a Vista: da Preservação ao Supermercado

A Bio2me foi fundada pelos primos Cláudio Fernandes (CEO, engenheiro elétrico) e Márcio Campos (CFO, economista), ambos do Rio de Janeiro. A história começa quando Fernandes herdou uma fazenda em Luziânia (GO) e se recusou a derrubar o Cerrado para valorizar a terra.

“Não tive coragem de botar o cerrado no chão. Meu pai preservou aquilo a vida inteira”, recorda o empreendedor.

A saída foi criar, em 2021, a Vista Produtos Sustentáveis — braço comercial da Bio2me para a venda de bioativos do Cerrado. Em 2022, com a percepção de que a cadeia produtiva era desorganizada, os sócios fundaram a Bio2me para estruturar a produção de ponta a ponta.

Hoje, a empresa opera com integração vertical completa — da semente à mesa —, usando tecnologias de inteligência artificial e IoT para mapear e calcular o potencial produtivo de áreas preservadas do Cerrado. As castanhas são colhidas manualmente, respeitando o tempo natural de queda dos frutos, e processadas com tecnologias de baixo impacto ambiental, gerando farinhas, óleos, snacks e outros produtos.

No Web Summit Rio 2026, a Bio2me apresentou esse modelo de inovação ao lado de outras 1.572 startups participantes do evento — e demonstrou que a bioeconomia do Cerrado pode ser, ao mesmo tempo, altamente lucrativa e regenerativa.

O Baru e a ILPF: Um aliado astratégico da agropecuária

Um dos aspectos menos conhecidos — e mais promissores — do baruzeiro é seu papel nos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Essa estratégia, desenvolvida e amplamente defendida pela Embrapa, integra atividades agrícolas, pecuárias e florestais na mesma área, em cultivo consorciado ou rotacionado, buscando efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema.

O baruzeiro se encaixa com maestria nesse modelo:

  • Sombreamento e bem-estar animal: As copas dos baruzeiros oferecem sombra natural para o gado, fundamental em regiões do Cerrado onde as temperaturas podem ultrapassar os 40°C no verão. O conforto térmico melhora diretamente a produtividade e a saúde dos animais. Na fazenda do casal de produtores Luis Fernando Devicari e Viviana Barbosa, em Brejo (MA), parceiros da Bio2me, a inserção do baru na paisagem foi celebrada especialmente por esse benefício.
  • Fonte de alimentação animal: A polpa e os resíduos do processamento da castanha têm potencial comprovado como insumo para nutrição animal. A Bio2me já tem estudos em andamento, em parceria com a Nestlé, sobre o uso da polpa de baru como componente da alimentação do gado — reduzindo custos e aumentando a circularidade do sistema produtivo.
  • Espaço para lavoura e pastagem: Plantado em renques — fileiras espaçadas de árvores — o baruzeiro libera espaço entre as fileiras para o cultivo de grãos como soja e milho, ou para pastagens. Esse arranjo permite o uso de máquinas agrícolas nas entrelinhas, tornando o sistema compatível com a agricultura mecanizada.
  • Enriquecimento do solo: Como toda árvore nativa integrada ao sistema ILPF, o baruzeiro contribui para a melhoria da qualidade do solo, reduz a erosão, aumenta a retenção de umidade e promove o aporte de matéria orgânica por meio de folhas e galhos.
  • Créditos de carbono: A manutenção dos baruzeiros em áreas de Cerrado preservado ou em recuperação abre caminho para a monetização de créditos de carbono, adicionando uma nova camada de rentabilidade ao produtor rural.

A Bio2me estima que um hectare de baru possa gerar até R$ 45 mil por ano a partir da venda da castanha — além dos ganhos indiretos com créditos de carbono e venda de mudas.

Recuperação do Cerrado: Uma Missão com Escala

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e um dos mais ameaçados do planeta. A Bio2me enxerga na castanha de baru uma ferramenta concreta de recuperação e conservação desse território. A empresa inaugurou em 2025 sua primeira fazenda dedicada, a Baru 1, na região da Chapada dos Veadeiros, em Cavalcante (GO), com 1.700 hectares combinando produção de baru e pequi com um modelo de impacto ambiental positivo.

Com investimento inicial de R$ 2 milhões — sendo R$ 1 milhão destinado a um viveiro de 500 mil mudas nativas —, a Baru 1 projetou receita de até R$ 8 milhões em 2025 e potencial de R$ 45 mil por hectare em sete anos, totalizando R$ 38 milhões em receita futura.

O modelo da Bio2me demonstra, na prática, que é possível monetizar áreas de conservação sem destruí-las. “Desenhamos um modelo que conecta performance ambiental, social e financeira. A Baru 1 entrega valor em múltiplas dimensões”, afirma Márcio Campos, CFO da Bio2me.

Segundo o CEO Cláudio Fernandes:

“A Baru 1 materializa nosso propósito: valorizar o Cerrado, gerar renda e respeitar o bioma.”

E vai além: a empresa acredita que “o baru vai ser para o Cerrado o que o açaí foi para a Amazônia” — uma previsão alinhada com o Ministério da Agricultura, que aponta o baru como o próximo grande produto de exportação do bioma em um horizonte de dez anos.

A Bio2me é parte do Programa de Soja Sustentável do Cerrado (PSSC) e integra a plataforma de inovação aberta Panela Nestlé, reforçando sua inserção em grandes cadeias produtivas da alimentação global. Em paralelo, a empresa tem parceria com a Embrapa para produção de mudas melhoradas geneticamente e desenvolvimento de tecnologias de manejo.

O Ciclo Sustentável: Do Cerrado ao Mundo

O modelo da Bio2me respeita o ciclo natural do baruzeiro: aguarda a queda natural dos frutos, coleta manualmente com mão de obra local, processa com baixo impacto ambiental e distribui o produto com rastreabilidade. Esse ciclo garante a conservação do bioma, a geração de renda para comunidades tradicionais e a oferta de um produto de altíssimo valor nutricional para o mercado nacional e internacional.

A meta da empresa é exportar até 100% de sua produção futura — e levar o baru aos mercados da Europa, América do Norte e Ásia, onde a demanda por superfoods naturais e sustentáveis cresce a dois dígitos ao ano. O mercado global de bioativos, avaliado em US$ 186 bilhões em 2023, deve atingir US$ 317 bilhões até 2030, segundo a Grand View Research.


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