Juciara de Lima Silva_agricultura familiar

No Dia Nacional do Agricultor, produtores mostram como a transição agroecológica fortalece a renda no campo e leva alimentos mais saudáveis às escolas brasileiras

Aos 45 anos, o agricultor Rogério Negoseki, de São José dos Pinhais (PR), não se imagina fazendo outra coisa além de cultivar a terra. Filho de agricultores, ele chegou a tentar outros caminhos na juventude, mas voltou ao campo por vocação. Hoje produz batata-doce, abóboras e morangos, e já implanta novos pomares com pitaya, uva e ponkan.

Há mais de duas décadas vivendo exclusivamente da agricultura, Rogério acompanha de perto as mudanças no setor, das transformações do mercado aos desafios impostos pelo clima. Mesmo diante das dificuldades, nunca pensou em abandonar a atividade aprendida ainda na infância, ao lado da família. Agora, sonha em ver a filha seguir seus passos e cursar Agronomia:

“Eu costumo dizer que quero morrer como agricultor, só não quero morrer com uma enxada na mão. Quero trabalhar na agricultura buscando tecnologias, novos manejos de produção e tudo o que agregue valor para que a gente possa sobreviver disso”, conta o produtor paranaense.

Para Rogério, produzir alimentos vai muito além da geração de renda. A própria família é a primeira consumidora daquilo que sai da lavoura, o que reforça sua preocupação com a qualidade da produção. Em casa, a filha cresceu colhendo frutas diretamente da estufa, sem receio de consumir alimentos recém-colhidos.

“Eu vejo minha filha comendo nosso morango sem nenhum tipo de defensivo. Ela saía de casa, ia até a estufa, colhia e comia. Eu ficava tranquilo porque sabia exatamente o que ela estava consumindo”, comenta.

Escassez de água não impede produção agroecológica no semiárido

A realidade muda de cenário, mas o propósito se mantém o mesmo a quase três mil quilômetros dali. Em Caruaru (PE), a agricultora Juciara de Lima Silva, de 36 anos, enfrenta diariamente um dos maiores desafios do semiárido nordestino: a escassez de água. Mãe de três filhos, ela produz hortaliças sem agrotóxicos, mantém um quintal produtivo e cria galinhas caipiras.

No sítio onde vive, a rotina é marcada pelo cuidado diário com a horta e os animais. Em uma região onde a chuva é escassa, produzir exige criatividade, persistência e planejamento. Ainda assim, Juciara optou por uma produção totalmente livre de agrotóxicos.

“A maior conquista é saber que posso fazer aquilo que amo. Criar e produzir alimento saudável. A dificuldade que encontramos é a falta de água. Precisamos comprar água para conseguir produzir. Isso nos entristece, mas nada faz com que o verdadeiro agricultor desista”, diz a agricultora pernambucana.

Além dos desafios do clima, Juciara também enfrenta barreiras por ser mulher no campo e defende políticas públicas voltadas a mulheres e jovens agricultores. “Se a juventude não plantar, infelizmente vamos sofrer muito no futuro”, acrescenta.

PNAE Agroecológico conecta pequenos produtores às escolas públicas

Rogério e Juciara integram o programa PNAE Agroecológico, iniciativa conduzida nacionalmente pelo Instituto Comida do Amanhã, em correalização com AOPA, Centro Ecológico, CETAP, Instituto Regenera, Centro Sabiá e Instituto Fome Zero (IFZ), com apoio do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP) no Brasil e da Fundação Rockefeller.

Lançado em 2025, o programa promove a transição para a agroecologia na agricultura familiar por meio da alimentação escolar, fortalecendo a oferta de alimentos saudáveis nas redes públicas de ensino. O projeto atua em quatro territórios: Caruaru; São José dos Pinhais; um grupo de cidades do Pará (Barcarena, Abaetetuba, Marituba e Benevides); e outro no Rio Grande do Sul (Caxias do Sul, Antônio Prado, Ipê, Montenegro e Porto Alegre).

Nessas localidades, a iniciativa estuda os sistemas alimentares junto a gestores municipais, apoia soluções para facilitar a compra de alimentos agroecológicos pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e produz recomendações para aprimorar a política pública em âmbito nacional.

Gabriela Rodrigues, coordenadora de projetos do Instituto Comida do Amanhã, destaca o propósito da iniciativa e a importância de políticas públicas para o setor.

“Fortalecer a agricultura familiar e a transição agroecológica é investir na saúde de quem produz, de quem consome e dos nossos territórios. O PNAE Agroecológico nasce com esse propósito: apoiar famílias agricultoras em sua transição agroecológica e fortalecer sistemas alimentares em cada território, tendo a alimentação escolar como um importante motor dessa transformação.”

Menos insumos químicos, mais valorização do produtor

Para Rogério, a agroecologia representa uma oportunidade de aprender novos manejos e reduzir a dependência de insumos químicos. “O agricultor precisa entender que nem tudo precisa de muito químico para produzir. Às vezes produzir um pouco menos, com menor custo e mais valorização, é melhor”, explica.

Ele também destaca o impacto de alimentos com menos agrotóxicos na saúde das crianças e defende que essa qualidade chegue à merenda escolar desde cedo.

Para Juciara, participar do programa representa a chance de ampliar a comercialização e contribuir para uma alimentação mais nutritiva nas escolas.

“Os benefícios são saber que as crianças vão consumir um alimento saudável e que isso vai trazer mais vida. Também vamos ter uma venda garantida da produção agroecológica, o que nos incentiva a produzir cada vez mais e levar sustento para nossa casa”, finaliza.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 15,1 milhões de produtores rurais, dos quais aproximadamente 3,9 milhões são agricultores familiares — responsáveis por 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e por empregar cerca de 10,1 milhões de pessoas.

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