Por Oliver Morrison *
De produtos biológicos a melhoramento de sementes e biocombustíveis, a edição paulista do World Agri-Tech destaca o vasto potencial que esta região possui em escalar a inovação.
Agora em seu quinto ano, o evento retorna a São Paulo nos dias 24 e 25 de junho, onde 700 líderes de todo o cenário global de agtech se reunirão para impulsionar a inovação, a colaboração e o investimento no setor.
Como o MRV pode corresponder melhor às realidades tropicais?
A principal preocupação deste ano é como garantir que as metodologias MRV (medição, relatório e verificação) reflitam as realidades tropicais.
Com a COP30 sediada no Brasil se aproximando rapidamente, o papel da América do Sul na agricultura resiliente ao clima está sob escrutínio. As melhorias do MRV são essenciais para mostrar sucessos de mitigação, como a redução de 23,4% do metano na Colômbia ou os cortes de 50% na Argentina por meio da melhoria da eficiência da pecuária.
Mas o problema é que a agricultura tropical da América do Sul depende de práticas como fixação biológica de nitrogênio, integração lavoura-pecuária-floresta e manejo de conservação do solo. Esses sistemas geralmente sequestram carbono, mas são mal representados pelas estruturas globais de MRV, que tendem a superestimar as emissões usando fatores genéricos.
Um bate-papo informal entre os especialistas em MRV no evento explorará como poderá ser ajustado para mostrar melhor os benefícios ecológicos da agricultura tropical e desbloquear novos fluxos de receita potenciais valiosos para os agricultores.
Cooperar ou entrar em colapso?
Os pequenos produtores sul-americanos enfrentam desafios notórios, como volatilidade de preços, poder de barganha limitado e altos custos de insumos. As cooperativas desempenham um papel importante na abordagem dessas questões, reunindo recursos, permitindo compras em massa de suprimentos a custos mais baixos e garantindo melhores preços para os produtos por meio do marketing coletivo.
Mas com as mudanças climáticas ameaçando culturas como café e cacau, o que mais as cooperativas da região podem fazer para promover práticas inteligentes para o clima? E, apesar de seus benefícios, as cooperativas muitas vezes lutam com ineficiências de gestão, desengajamento de membros e concorrência do agronegócio.
Outro bate-papo com especialistas no evento refletirá sobre como as cooperativas podem garantir uma governança transparente e adaptar o apoio aos pequenos produtores para impulsionar a agricultura sustentável.
A demanda por safras de alto valor se manterá ou dobrará?
As culturas de alto valor desempenham um papel significativo na agricultura latino-americana, contribuindo para o crescimento econômico, a segurança alimentar e a biodiversidade. As culturas especiais de alto valor da América Latina, como frutas, nozes, vegetais e ervas, estão ganhando destaque devido ao aumento da demanda global.
Essas culturas geralmente oferecem maior lucratividade em comparação com os alimentos básicos tradicionais, como soja ou milho. Por exemplo, quinoa e cañihua, nativas dos Andes, tornaram-se mundialmente populares, aumentando a renda de pequenos agricultores na Bolívia e no Peru.
Mas, apesar de seu potencial, essas culturas de alto valor enfrentam obstáculos. Lacunas de infraestrutura, como instalações precárias de transporte e armazenamento, podem limitar o acesso ao mercado, especialmente para pequenos agricultores. As secas e a degradação do solo ameaçam a produtividade, principalmente em regiões como os Cerrados brasileiros. Alternativas mais baratas e produzidas em massa dominam as preferências do consumidor, prejudicando as safras locais.
Outro bate-papo quente analisará como tecnologias de precisão, como irrigação por gotejamento, sensores de umidade e sistemas de gerenciamento de água orientados por IA, podem otimizar o uso da água para melhorar o rendimento e a qualidade das safras de produtos frescos. Os especialistas também explorarão como os governos e o setor privado podem colaborar para desenvolver tecnologias de irrigação acessíveis e escaláveis que atendam às necessidades dos pequenos agricultores.
Como acelerar a inovação em edição genética e melhoramento de precisão
A edição genética tem se tornado cada vez mais essencial na agricultura da América Latina, impulsionando inovação, sustentabilidade e crescimento econômico. Países como Brasil, Argentina e Chile adotaram políticas progressistas, diferenciando culturas editadas geneticamente de transgênicos (OGMs).
A edição genética melhora características como o valor nutricional (por exemplo, milho biofortificado) e a resistência a pragas, aspectos considerados críticos para pequenos produtores. No entanto, algumas nações como Peru e Equador proíbem a edição genética devido a preocupações com OGMs, enquanto outras enfrentam entraves burocráticos.
A complexidade da propriedade intelectual e o financiamento desigual em P&D (pesquisa e desenvolvimento) também retardam o progresso em países como Bolívia e Paraguai. Ao mesmo tempo, culturas editadas geneticamente poderiam ajudar a atender às exigências do Green Deal (Acordo Verde) da União Europeia. No entanto, ONGs continuam cautelosas quanto aos riscos.
Uma nova conversa em formato “fireside chat” trará atualizações sobre os mais recentes avanços regulatórios relacionados às culturas geneticamente editadas na América do Sul e analisará como instituições de pesquisa da região estão colaborando com centros de pesquisa globais e empresas privadas de biotecnologia para criar estruturas que apoiem tanto o avanço científico quanto a comercialização dessas culturas.
O setor de biocombustíveis pode manter o pé no acelerador?
Os biocombustíveis também estão desempenhando um papel importante na agricultura latino-americana, oferecendo benefícios econômicos, ambientais e de segurança energética.
Os biocombustíveis criam novos fluxos de receita usando subprodutos agrícolas e culturas dedicadas, como cana-de-açúcar (Brasil), soja (Argentina) e óleo de palma (Colômbia). Isso aumenta o emprego rural e reduz a pobreza. Países como o Brasil tornaram-se líderes globais na produção de etanol, atraindo investimentos estrangeiros e melhorando as balanças comerciais.
Os biocombustíveis estão se mostrando um setor transformador na agricultura latino-americana, mas seu sucesso depende de práticas sustentáveis e políticas equitativas.
Outro bate-papo ao lado relevante explorará como os agricultores podem participar dos mercados de carbono, incorporando a produção de biocombustíveis a partir de fluxos de resíduos e culturas energéticas. Os especialistas ponderarão quais mecanismos de políticas inovadoras, como precificação de carbono, incentivos fiscais e mandatos de combustíveis renováveis, se mostraram eficazes na América do Sul e questionarão: quais lições podem ser aprendidas com esses sucessos?
*Oliver Morrison é editor do AgTech Navigator
Conteúdo reproduzido com autorização do autor. Link para o texto original no AgTech Navigator.
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