sucessao no agro

Por Vitor Souza

O agro brasileiro discute muito produtividade, custo de insumo e crédito. Um problema estrutural, no entanto, segue sem entrar na pauta da maior parte das propriedades: o que acontece com o patrimônio quando a geração que o construiu sai de cena.

A sucessão rural costuma ser tratada como um problema a ser resolvido depois. Depois do inventário. Depois que o pai falece. Depois que já existe mais de um herdeiro com visões diferentes sobre a propriedade.

Quando é esse o momento, o custo não é apenas financeiro. A discussão judicial consome tempo, o processo trava a venda de ativos, o acesso a crédito fica comprometido, e a propriedade perde anos de produtividade enquanto o patrimônio está sendo discutido.

Existe ainda um fator agravante que é específico do agro. Grande parte do patrimônio familiar está concentrado em imóveis e ativos produtivos, não em recursos líquidos. A propriedade tem valor elevado, mas não tem liquidez. E divisão patrimonial em contexto de baixa liquidez costuma terminar em dois desfechos civilizados e ruins: venda forçada de ativos abaixo do valor justo, ou uma situação em que um herdeiro assume a dívida dos demais.

Uma parte relevante dos conflitos sucessórios no campo não começa por interesse econômico desmedido. Começa porque nunca houve conversa e nunca houve estrutura. A família discutia a safra e ficava quieta sobre a herança.

Do ponto de vista prático, existem ferramentas que não resolvem tudo, mas organizam o terreno: holding familiar rural, doação com reserva de usufruto, testes e revisão dos instrumentos, seguro de vida como provisionamento de liquidez para o inventário, separação clara entre o patrimônio da família e o caixa da operação, e definição de quem conduz o negócio quando o fundador não estiver mais lá.

Nenhuma dessas ferramentas funciona sem dois elementos não técnicos: conversa e antecedência. Ambos dependem do fundador, e apenas um depende de dinheiro.

Existe também um ponto incômodo que raramente aparece em artigo sobre sucessão. Quem organiza a sucessão não abre mão de controle. A estrutura correta não é uma entrega de patrimônio, é uma definição de regras. A família não perde a propriedade quando o documento está assinado, ela perde quando o documento não existe.

Organizar a sucessão não antecipa o fim de nada. Antecipa uma conversa que, mais cedo ou mais tarde, o tempo vai forçar, só que em contexto mais adverso, com mais pessoas envolvidas e com muito menos margem de escolha.

A safra se planeja antes de plantar. O patrimônio também.

Vitor Souza é assessor de investimentos e desenvolve ações de educação financeira para empresas.

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