SP Ventures captacao investimento agro

Fundo de terceira geração da gestora paulista reúne investidores globais e reforça aposta em tecnologia agrícola, resiliência climática e segurança alimentar

SP Ventures, gestora brasileira especializada em venture capital para o setor agroalimentar, anunciou que o seu terceiro fundo, o AGV III (AgVentures III), alcançou a marca de US$ 50 milhões em captação. A expectativa é chegar a US$ 80 milhões nos próximos meses, com meta final de US$ 100 milhões.

O fechamento mais recente reuniu um grupo diversificado de investidores globais e regionais, consolidando a estratégia de longo prazo da gestora na intersecção entre sistemas agroalimentares e resiliência climática na América Latina. A captação acontece num cenário de alta volatilidade nos mercados globais de venture capital, o que torna a trajetória do fundo ainda mais relevante para o ecossistema agtech brasileiro.

Novos investidores do fechamento

O novo grupo de investidores inclui nomes de peso com perfis complementares entre si. O IDB Lab (braço de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento), a JICA (Agência Japonesa de Cooperação Internacional), o Grupo Colorado (produtor brasileiro de açúcar e etanol), a Manuelita (grupo agroindustrial colombiano), a The Nest Family Office e o Soros Economic Development Fund (SEDF) se juntam ao fundo nesta rodada.

Eles se somam aos investidores já comprometidos no fundo: Grupo BiosSilver BlueBASFPromotora Social MexicoMinerva FoodsFundeaCheck24BIDRA Ventures (CVC da OCP), FMC e AGCO Ventures. O conjunto forma uma base de instituições geograficamente diversas, abrangendo setores, origens e expertises distintas, mas totalmente alinhadas com os objetivos do AGV III.

O fundo III e os critérios de seleção

O terceiro fundo da SP Ventures aprofunda a estratégia desenvolvida nos fundos anteriores, com foco em investimentos de alto impacto ao longo de toda a cadeia de valor agroalimentar — dentro e fora da porteira. Ao longo dos próximos quatro anos, o AGV III pretende investir em 20 a 22 empresas que desenvolvam soluções voltadas ao aumento de produtividade, resiliência e sustentabilidade, endereçando segurança alimentar e mudanças climáticas.

Os setores prioritários incluem bioinsumos agrícolas, mitigação e adaptação climática, serviços financeiros para o agro, eficiência na cadeia de suprimentos, entre outros. O ticket médio de investimento gira entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões por empresa, com reserva de capital para rodadas de follow-on.

Francisco Jardim, cofundador e sócio-gestor da SP Ventures, explicou em entrevista ao portal AgTech Navigator o peso que o fundo de terceira geração representa para qualquer gestora de venture capital:

“Há um ditado que diz que o terceiro fundo é o mais difícil, pois separa quem vai se manter no negócio. No fundo três, já se passaram de 7 a 9 anos desde os primeiros investimentos. Não há como enganar ninguém. É preciso mostrar resultados concretos — que se investiu em empreendedores incríveis e que se criou valor real para toda a cadeia.”

Francisco Jardim, cofundador e sócio-gestor da SP Ventures

Grupo Colorado estreia no venture capital

Um dos novos investidores mais emblemáticos deste fechamento é o Grupo Colorado, que lançou seu braço de corporate venture capital, o Colorado Ventures, no ano passado. O acordo com a SP Ventures representa o primeiro grande investimento da estrutura.

Elias Samuel Mozambani Ospina, head de inovação aberta e corporate venturing do Colorado Ventures, comentou ao AgTech Navigator o que motivou a escolha pela SP Ventures:

“Analisamos todos os retornos que eles tiveram até agora. São o melhor venture capital aqui no Brasil e na América Latina para o agronegócio. Não encontramos ninguém maior do que eles.”

Segundo Mozambani Ospina, o Colorado Ventures tem como prioridade em 2026 investimentos em startups de biocombustíveis sustentáveis, mas a parceria com a SP Ventures permite presença também em bioinsumos, agricultura de precisão e robótica.

IA, clima e geopolítica: os três vetores que moldam o agro

Para Francisco Jardim, o ano de 2025 foi marcado por três grandes forças de transformação que afetam diretamente o setor agrícola e o ecossistema de investimentos em agtech.

A inteligência artificial ocupa o centro das atenções da gestora. Jardim avalia que a tecnologia representa uma das maiores mudanças estruturais da história recente, e que a SP Ventures já incorporou a IA em seus processos internos — chegando a nomear um chief AI officer e contratar consultor externo para identificar onde é possível construir agentes que melhorem a velocidade e a qualidade das decisões de investimento.

Sobre como a SP Ventures avalia startups sob a ótica da IA, Jardim foi direto ao explicar o que busca nos fundadores:

“Queremos ver alguém que enxergue a IA como parceira central do negócio. Também somos early adopters internamente. Nomeamos um chief AI officer no fundo e trouxemos consultores externos para identificar onde podemos construir agentes para melhorar a velocidade e a qualidade das decisões.”

O segundo vetor é a volatilidade climática. O Brasil registrou um aumento de 460% nos desastres relacionados ao clima desde os anos 1990, segundo relatório de agências governamentais. Esse dado torna o agronegócio o setor mais vulnerável às mudanças climáticas no país — e, ao mesmo tempo, o campo mais urgente para inovação e investimento.

O terceiro fator é a geopolítica. Com a reconfiguração das regras do comércio internacional, o agronegócio brasileiro — que exporta para mais de 160 países e tem cerca de 80% da produção voltada ao mercado externo — enfrenta pressões crescentes de tarifas, volatilidade cambial e choques geopolíticos. Para Jardim, não é possível falar em impacto social e suporte às comunidades rurais sem falar em agtech.

Trajetória da SP Ventures e o contexto do ecossistema

Fundada há mais de uma década no âmbito de um programa do BNDES para catalisar investimentos de venture capital em setores de alto impacto, a SP Ventures lançou seu primeiro fundo em 2014, com cerca de R$ 105 milhões e foco exclusivo em tecnologia para o agronegócio. Em 2020, veio o segundo fundo, um veículo de US$ 58 milhões focado na América Latina, com abertura de escritório no México.

Em 2025, considerado um “ano-divisor de águas” pela gestora, a SP Ventures começou a rodar o portfólio do AGV III enquanto encerrava posições em fundos anteriores — entre elas, a saída do investimento na Horus Smart Detections, startup brasileira de inspeção por drones.

SP Ventures também é parceira do Radar Agtech Brasil, estudo anual conduzido com a Embrapa e a Homo Ludens que mapeia o ecossistema de startups do agro no país. No relatório de 2024, Francisco Jardim destacou a vitalidade do setor:

“A inovação no agronegócio nunca foi tão vibrante quanto agora. Em 2024, as startups agtech da América Latina lideraram uma revolução, trazendo as mais avançadas tecnologias e modelos de negócio para transformar a produção de alimentos num momento crítico: quando a crise climática e a insegurança alimentar exigem soluções ousadas.”

Os aportes em agtechs latino-americanas cresceram 25% em 2024, com Brasil, Argentina e México como mercados principais, mas a região ainda recebe menos de 5% dos investimentos globais no setor — o que indica enorme potencial para atração de capital externo nos próximos anos.

Impacto esperado do AGV III

Ao longo do período de investimentos, o AGV III pretende apoiar entre 20 e 22 startups com soluções que combinem produtividade agrícola, sustentabilidade ambiental e resiliência frente às mudanças climáticas. O fundo atua em estágio inicial (seed a Série B), com reserva estratégica de capital para follow-on nas empresas que demonstrarem maior geração de valor.

Com um portfólio já construído nos dois fundos anteriores — que inclui nomes como Agrolend, Traive, Verqor, ZoomAgri e Leaf Agriculture —, a SP Ventures chega ao AGV III com histórico consolidado e base de co-investidores que abrange desde grandes corporações do agronegócio global até bancos de desenvolvimento multilaterais e family offices especializados.

A captação do fundo representa não apenas um marco para a gestora, mas um sinal importante para o ecossistema de inovação agroalimentar latino-americano: o capital global está de olho no Brasil.

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