* Vitor Souza
A reforma tributária começou a sair do papel e, para quem trabalha no agro, 2026 é o momento em que algumas mudanças começam a aparecer de verdade.
A CBS começa a substituir gradualmente PIS e Cofins, enquanto o IBS entra na transição a partir de 2029. E ainda tem muita regulamentação pela frente.
Até aqui, o agro conseguiu preservar uma série de tratamentos diferenciados. Produtos agropecuários e aquícolas terão redução de 60% nas alíquotas do IBS e da CBS. Hortaliças, frutas, flores e ovos estão entre os produtos com alíquota zerada. Também existem regras específicas para produtores menores e para o aproveitamento de créditos ao longo da cadeia.
Então, olhando apenas para a alíquota, a discussão parece relativamente simples.
Só que a conta do produtor não termina na alíquota.
Na prática, a reforma aumenta a importância de uma coisa que muita propriedade rural ainda trata de maneira secundária: organização financeira e operacional.
Nota fiscal, classificação correta dos produtos e insumos, controle dos créditos e documentação passam a ter ainda mais peso. Um erro operacional pode virar custo.
E existe outro problema que não aparece na legislação: o dinheiro do agro não entra de maneira linear.
A receita costuma ficar concentrada na safra, enquanto despesas, compromissos financeiros, folha, manutenção e outros custos continuam acontecendo durante o ano. Por isso, uma propriedade pode ter uma safra excelente e, mesmo assim, passar por aperto de caixa alguns meses depois.
É nesse ponto que planejamento financeiro deixa de ser apenas uma questão de “investir melhor”.
É separar o dinheiro da operação do patrimônio da família, formar uma reserva para a entressafra, entender o custo real da produção e saber quanto daquele resultado pode ser retirado sem comprometer a próxima safra.
Quem tem essa organização ganha margem para negociar melhor com banco, fornecedor e comprador.
Quem não tem, muitas vezes acaba tomando decisões financeiras no pior momento possível: quando precisa de dinheiro com urgência.
A transição da reforma ainda vai levar anos. Isso pode ser encarado como problema ou como oportunidade.
Há tempo para entender as novas regras, revisar processos e colocar a gestão financeira em ordem antes que a mudança esteja completamente implantada.
O produtor já sabe que uma boa safra começa muito antes da colheita.
Com o dinheiro, não deveria ser diferente.

Vitor Souza é assessor de investimentos e desenvolve ações de educação financeira para empresas.
