radar agtech 2025-2026

Sexta edição do mapeamento da Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens revela 2.075 agtechs no Brasil, desaceleração no crescimento e expansão geográfica do ecossistema para regiões produtoras

O ecossistema de inovação no agronegócio brasileiro está ficando mais maduro e mais espalhado. É o que revela a sexta edição do Radar Agtech Brasil, levantamento anual realizado pela EmbrapaSP Ventures e Homo Ludens, lançado em 24 de março no Radar Agtech Summit, no Cubo Itaú, em São Paulo. O estudo mapeia startups agropecuárias, ambientes de inovação e investidores do setor, e neste ano traz um dado inédito: a Região Sul ultrapassou o Sudeste em número de ambientes de inovação.

O Brasil conta hoje com 2.075 agtechs — crescimento de 5% em relação a 2024. O número representa a menor taxa de expansão desde que o mapeamento começou, em 2019, mas os especialistas leem esse dado como um sinal positivo. O ecossistema está se consolidando, com modelos de negócio mais robustos e startups mais bem estruturadas chegando ao mercado. Do campo à mesa, a inovação no agro segue avançando — agora com mais inteligência artificial e mais presença regional.

Sul na liderança dos ambientes de inovação

Entre os 390 ambientes de inovação mapeados no país, a Região Sul concentra 37,18% do total, superando o Sudeste, que ficou com 32,82%. O destaque individual é o Rio Grande do Sul, que registrou crescimento expressivo no número de incubadoras, puxado por uma política estadual ativa de fomento à inovação, vinculada principalmente às universidades estaduais.

O coordenador do Radar Agtech e analista da Embrapa, Aurélio Favarin, explica o movimento:

“Incubadoras trabalham na fase inicial do processo de inovação. Faz sentido que um estado, pensando no desenvolvimento de um ecossistema, comece pelas incubadoras. A maior parte está vinculada às universidades estaduais. Há um planejamento para isso, para criar condições para que as startups iniciem.”

A diferença entre as duas regiões reflete estágios distintos de maturidade. Enquanto o Sul foca nas etapas iniciais — incubação e formação —, o Sudeste concentra hubs, aceleradoras e ecossistemas com governança mais avançada, mostrando um ciclo mais consolidado de desenvolvimento de negócios.

Crescimento moderado como sinal de maturidade

O aumento de 5% no número de agtechs é o menor da série histórica do Radar, que acompanha o setor desde 2019. Para o pesquisador da Embrapa Vitor Mondo, esse movimento era esperado e indica que o setor amadureceu:

“Entre 2019 e 2021 houve um boom de ambientes de inovação e fundos de investimento, o que contribuiu para um grande aumento na quantidade de agtechs. Com o tempo essas iniciativas vão se acomodando, com permanência daquelas mais bem estruturadas. O ecossistema continua relevante, mas com um crescimento menos expressivo. É um comportamento esperado e que mostra a maturidade do ecossistema de inovação.”

A concentração histórica nas regiões Sul e Sudeste persiste — juntas, somam 79% das agtechs —, mas o mapa está mudando. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste crescem proporcionalmente, se aproximando de áreas estratégicas para a produção agropecuária nacional. Em 2019, Norte e Nordeste juntos somavam apenas 5% das agtechs. Em 2025, o Norte tem 7,6%, o Nordeste, 6,5% e o Centro-Oeste, 7,1%.

Expansão regional: novos estados entram no mapa

Entre os estados com maior crescimento em número de agtechs, Minas Gerais e Rondônia lideraram os ganhos em 2025, cada um somando 13 novas empresas. O Amazonas conta com 17 agtechs, Goiás com 15 e Mato Grosso com 14. Do outro lado, Rio Grande do Sul (menos 27), Tocantins, Distrito Federal (menos 7) e São Paulo (menos 6) registraram redução.

Para Vitor Mondo, a expansão geográfica tem uma explicação direta na maturidade das startups:

“Essa tendência ocorre ao mesmo tempo em que cresce a proporção das agtechs atuando dentro das fazendas. Isso é um sinal positivo, de que as empresas estão em um nível de maturidade no qual já conseguem acessar diretamente o produtor rural.”

IA já é infraestrutura, não diferencial

Um dos dados mais relevantes da edição 2025 diz respeito ao uso de inteligência artificial. Oito em cada dez agtechs brasileiras — 83% do total — já utilizam IA em seus processos ou produtos. Para 35% delas, a IA não é apenas um recurso: é o núcleo da proposta de valor do negócio.

Aurélio Favarin destaca o significado dessa transformação para o setor:

“Esse dado sinaliza que a tecnologia digital deixou de ser diferencial pontual e passou a constituir camada estrutural do modelo de negócio.”

As agtechs brasileiras estão concentradas principalmente nos segmentos dentro da fazenda (41,1%) e depois da fazenda (40,5%). A categoria “alimentos inovadores e novas tendências alimentares” lidera o ranking de áreas de atuação, com 15% das empresas. “Sistemas de gestão da propriedade rural” vem em segundo lugar, com 8%, e “Plataformas integradoras de sistemas, soluções e dados” aparece em terceiro, com 7,5%.

Capital mais seletivo, startups mais eficientes

O contexto de investimentos também mudou. Com o ambiente de captação mais desafiador nos últimos dois a três anos, as startups foram forçadas a desenvolver uma mentalidade mais focada em eficiência desde os primeiros estágios. Pedro Jábali, da SP Ventures, avalia o cenário:

“Acreditamos que o mercado está, de fato, vivendo um novo momento. Nos últimos dois ou três anos, o ambiente para captação de recursos ficou mais desafiador, o que exigiu muita resiliência dos empreendedores. Como consequência, vemos hoje startups sendo construídas com uma mentalidade mais focada em eficiência e rentabilidade desde os estágios iniciais. Esse movimento reflete uma maturidade maior do ecossistema e uma adaptação natural a um cenário de capital mais seletivo.”

O Radar como plataforma de inteligência estratégica

Criado em 2019 com foco quantitativo nas agtechs, o Radar Agtech Brasil evoluiu metodologicamente ao longo das edições. Hoje, integra dados qualitativos sobre startups, ambientes de inovação e investidores — e serve como referência estratégica para o setor. A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, uma das responsáveis pela criação do estudo, resume o papel do levantamento:

“O Radar Agtech Brasil funciona como um mapa vivo da inovação no campo brasileiro. Ele revela talentos, conecta ideias e orienta investimentos, transformando dados em oportunidades concretas para o agro. Ao integrar startups, ciência e mercado, a Embrapa amplia seu papel como ponte entre o conhecimento e a transformação, impulsionando um ecossistema cada vez mais dinâmico, digital e sustentável para o País.”

Luiz Sakuda, co-fundador e sócio da Homo Ludens Inovação e Conhecimento, aponta o próximo desafio do ecossistema:

“O próximo ciclo do ecossistema dependerá menos da expansão numérica e mais da qualidade das conexões entre tecnologia, capital, governança e produção. Nesse processo, o Radar Agtech atua não apenas como base de dados, mas como plataforma de produção contínua de inteligência estratégica e de articulação institucional.”

Nesta edição, o Radar Agtech Brasil traz ainda cases de inovação aberta com participação da Embrapa e uma experiência no Espírito Santo como exemplo de ação pública no incentivo à inovação local. Outra novidade é o lançamento simultâneo das versões em inglês e espanhol, ao lado da edição em português. Todo o material está disponível gratuitamente em radaragtech.com.br.

A consolidação do levantamento também rendeu uma parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) para elaboração do Radar Agtech América Latina e Caribe, previsto para lançamento em junho.


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