Pesquisa global agronegocio PwC

Pesquisa global da PwC ouve mais de 4 mil executivos em 95 países e mostra que CEOs do agronegócio brasileiro enfrentam tensão entre pressões de curto prazo e oportunidades de longo prazo

O agronegócio brasileiro entra em 2026 com um cenário de cautela otimista. A 29ª edição da CEO Survey da PwC revela que os líderes do setor mantêm confiança no crescimento, mas com expectativas mais moderadas em relação ao ano anterior. A pesquisa, que ouviu mais de 4.400 executivos em 95 países, incluindo o Brasil, mostra que os CEOs do agro enfrentam um dilema estratégico: lidar com riscos imediatos enquanto investem em oportunidades estruturais de longo prazo.

Segundo Mayra Theis, sócia e líder de Agribusiness da PwC Brasil, essa tensão entre diferentes horizontes de tempo é um tema central da pesquisa. Os executivos do agronegócio brasileiro dedicam 54% do tempo a temas com horizonte inferior a um ano, sete pontos percentuais acima da média global, enquanto apenas 15% do tempo é destinado a questões de longo prazo.

Confiança no crescimento apresenta recuo

A expectativa dos CEOs do agronegócio em relação ao crescimento da economia global recuou de forma significativa em 2026. Apenas 50% dos líderes do setor projetam aceleração do crescimento mundial nos próximos 12 meses, abaixo dos 66% registrados no ano anterior e inferior às médias brasileira e global, de 56% e 61%, respectivamente.

Quando o foco se volta para a economia nacional, a percepção segue relativamente favorável, mas também em trajetória de enfraquecimento. Entre os CEOs do agronegócio no Brasil, 58% esperam aceleração da economia do país, patamar superior ao observado globalmente, mas bem abaixo dos 76% registrados em 2025.

A confiança quanto ao crescimento da receita das próprias empresas no horizonte de 12 meses também diminuiu. A proporção de executivos “muito” ou “extremamente” confiantes recuou de 48% para 38%, convergindo para a média nacional de todos os setores e mantendo-se acima do patamar global.

IA começa a gerar resultados concretos

Apesar do cenário de cautela, os investimentos em inteligência artificial continuam avançando e começam a mostrar resultados tangíveis no agronegócio brasileiro. De acordo com a pesquisa da PwC, 33% dos CEOs do setor reportam aumento de receita atribuído ao uso da tecnologia, enquanto 58% indicam pouca ou nenhuma alteração.

Em relação aos custos, os efeitos são mais equilibrados. Cerca de 33% das empresas do agro observaram redução de custos, refletindo avanços em automação, otimização de processos e melhor uso de dados. Por outro lado, 18% reportaram aumento, possivelmente associado a gastos com tecnologia, infraestrutura e capacitação, e 48% mantêm os custos estáveis.

“A IA já começa a se consolidar como vetor de crescimento para parte das empresas do agronegócio brasileiro, embora a maioria ainda esteja em fase de adoção ou maturação das soluções”, destaca o relatório da PwC.

Sobre os impactos na força de trabalho, 60% dos CEOs do agronegócio no Brasil avaliam que suas empresas precisarão de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Um terço desse grupo espera uma redução superior a 16% nos quadros, enquanto 23% projetam necessidade de novas contratações.

Expansão para novos setores

A convergência entre o agronegócio e outras indústrias está se acelerando. Metade dos CEOs do agronegócio no Brasil afirma que suas empresas passaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos, percentual alinhado à média nacional de 51%, o que indica o avanço da transformação impulsionada por tecnologia, sustentabilidade e novos modelos de atuação.

Essa movimentação está relacionada ao fenômeno que a PwC denomina “Value in Motion”, em que as fronteiras entre indústrias se tornam cada vez mais fluidas e as empresas buscam oportunidades em mercados adjacentes para sustentar o crescimento.

Principais ameaças concentram-se em inflação e clima

O perfil de risco do agronegócio brasileiro é fortemente concentrado em fatores inflacionários, macroeconômicos e climáticos. A inflação é a principal preocupação, com 35% dos CEOs indicando alta exposição, acima das médias brasileira e global, de 29% e 25%, respectivamente.

A instabilidade macroeconômica figura como um dos riscos mais relevantes, citada por 33% dos executivos. As mudanças climáticas também permanecem entre as principais ameaças de curto prazo, com 33% dos CEOs do agronegócio no Brasil relatando elevada exposição, muito acima da média brasileira de 18% e global de 23%.

“O resultado reforça a centralidade dos eventos climáticos extremos, da volatilidade das safras e dos desafios de adaptação ambiental para o desempenho do setor”, aponta a pesquisa.

A falta de talentos qualificados constitui um desafio relevante, com 25% dos líderes do agronegócio indicando alta exposição. Conflitos geopolíticos e tarifas ocupam uma posição intermediária na percepção dos CEOs do setor, ambos com 25% de menção. Em contraste, ameaças cibernéticas e tecnológicas têm peso relativamente menor do que em outros setores, com apenas 5% de indicação.

Inovação é estratégica, mas execução é limitada

Para 63% dos CEOs do agronegócio, a inovação é considerada um componente crítico da estratégia de negócios, patamar superior à média global de 50% e levemente acima da média brasileira de 56%. No entanto, a execução dessa agenda ainda enfrenta limitações estruturais.

O setor avança principalmente por meio da inovação aberta e da experimentação. Cerca de 38% dos executivos colaboram com parceiros externos, como fornecedores, startups e universidades, para acelerar a inovação, enquanto 35% testam rapidamente novas ideias diretamente com clientes ou usuários finais.

Persistem, entretanto, barreiras à consolidação institucional da inovação. A tolerância ao risco em projetos de inovação ainda é restrita, com apenas 18% dos CEOs declarando aceitar alto risco. A presença de centros de inovação, incubadoras ou estruturas de corporate venturing permanece limitada a 15% das organizações.

Mesmo com otimismo mais elevado em relação às perspectivas econômicas no Brasil por parte dos executivos brasileiros, o fluxo de investimentos no agro no país é muito abaixo do necessário e ideal. Os investidores internacionais ainda enfrentam incertezas sobre as questões regulatórias, e buscam mercados com potenciais de retorno mais expressivos.


Expectativa dos CEOs do próprio país em relação à economia nos próximos 12 meses

Clima ainda não é driver estratégico de valor

Apesar da elevada exposição do agronegócio aos impactos das mudanças climáticas, a incorporação estruturada de riscos e oportunidades climáticas às principais decisões de negócio permanece limitada, especialmente quando comparada às práticas globais.

Os avanços concentram-se principalmente no desenvolvimento e design de produtos, com 43% das empresas do setor afirmando considerar riscos e oportunidades climáticas de forma estruturada nessa dimensão, percentual significativamente superior tanto à média brasileira quanto à global.

Já a integração do tema à alocação de capital, incluindo decisões de fusões e aquisições, permanece restrita. Apenas 25% das empresas do agronegócio no Brasil declaram contar com processos definidos para avaliar riscos e oportunidades climáticas nessa dimensão.

Nas decisões operacionais, as lacunas também são evidentes. Somente 23% dos CEOs do agronegócio dizem incorporar fatores climáticos de forma estruturada na cadeia de suprimentos e compras.

Pressão por confiança ainda é moderada

A agenda de confiança ainda exerce pressão relativamente moderada no agronegócio brasileiro, abrindo espaço para uma atuação mais proativa antes que as expectativas dos stakeholders se intensifiquem.

Os questionamentos sobre os impactos das mudanças climáticas no desempenho dos negócios são mencionados por apenas 25% dos executivos, percentual inferior ao observado tanto no Brasil quanto globalmente. Apenas 20% dos CEOs do setor relatam maior escrutínio sobre as decisões da liderança, patamar muito abaixo do registrado no Brasil como um todo, de 50%.

As preocupações com uso de dados e privacidade, segurança e uso responsável de IA, e demandas por maior transparência seguem a mesma tendência, permanecendo bem abaixo das médias brasileira e global.

Próximos passos para os líderes

A pesquisa da PwC aponta caminhos estratégicos para que os CEOs do agronegócio equilibrem as demandas de curto e longo prazo.

Entre as recomendações estão construir bases sólidas para a adoção de IA conectada à estratégia do negócio, seguir os fluxos globais de investimento como parte central do planejamento estratégico, desenvolver capacidade genuína de inovação que gere valor concreto, e integrar o clima à tomada de decisão em temas como risco climático físico, regulação, energia e cadeias de suprimentos.

A pesquisa também sugere que os CEOs calibrem suas preocupações e evitem a paralisia, garantindo que decisões estejam baseadas nas melhores informações disponíveis. Além disso, é fundamental levar o tema da confiança para a pauta do conselho de administração e reinventar a agenda de tempo, ampliando o foco na sustentabilidade e viabilidade futura.

“Liderar nesse contexto exige capacidade de alternar rapidamente entre agendas e horizontes de tempo. Resta avaliar se essa alocação de tempo é a mais adequada para sustentar o desempenho e a competitividade no curto e no longo prazo”, conclui Mayra Theis.

A metodologia da pesquisa ouviu 4.400 executivos em 95 países e territórios entre 30 de setembro e 10 de novembro de 2025. Os números globais e regionais do relatório são ponderados com base no PIB nominal dos países, para garantir que as opiniões dos CEOs sejam representadas de forma equilibrada em todas as principais regiões. Todas as entrevistas quantitativas foram realizadas sob condição de confidencialidade.


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