piscicultura_file de tilapia

Com crescimento acelerado e presença crescente na mesa do brasileiro, a tilápia consolida-se como a proteína animal de maior expansão no país — e o mapa da produção ganha novos protagonistas

O Brasil vive um momento histórico na piscicultura. Em 2024, a produção de peixes de cultivo registrou crescimento de 9,21%, totalizando 968.745 toneladas — o maior avanço percentual dos últimos dez anos. E os dados de 2025, recém-divulgados pela Peixe BR, a Associação Brasileira da Piscicultura, reforçam a trajetória: o Paraná atingiu 273,1 mil toneladas de tilápia, crescimento de 9,1% sobre o ano anterior, mantendo a liderança nacional com folga.

O avanço não é isolado. São Paulo aparece em segundo lugar, com 93,7 mil toneladas — volume 54% maior em relação ao ano anterior. Minas Gerais registrou 77.500 toneladas, Santa Catarina 63.400 toneladas, e o Maranhão fechou o top 5 com 59.600 toneladas. O estado nordestino ganhou uma posição no ranking e tornou-se um dos casos de crescimento mais expressivos do ciclo.

A força das cooperativas e da tecnologia no Paraná

O desempenho do Paraná não é obra do acaso. O estado combina investimento em genética, orientação técnica e presença ativa de grandes cooperativas e agroindústrias — um modelo que vem se repetindo e se aperfeiçoando a cada safra. O resultado é uma cadeia produtiva estruturada, que consegue escalar volume sem perder qualidade.

Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR, aponta os fatores que sustentam essa liderança:

“Esse movimento vindo de empresas privadas e cooperativas mostram a força do setor no estado. São diversos os fatores que contribuem para o desenvolvimento da atividade que vêm se repetindo nos últimos anos, como agregação de tecnologia, orientação técnica e a participação de grandes cooperativas e agroindústrias.”

O Maranhão e a ascensão do Nordeste

Dentro do grupo dos dez maiores produtores, o Maranhão foi o estado com maior índice de crescimento — 9,36% — superando até o próprio Paraná em termos percentuais. O resultado é fruto de um arranjo produtivo local que vem sendo construído ao longo dos últimos anos, com apoio de iniciativas regionais e maior profissionalização dos produtores. O Ceará também merece atenção: avançou 29,3% e subiu uma posição, chegando ao 18º lugar no ranking nacional.

Medeiros destaca o significado desse movimento:

“O Maranhão foi o estado com o maior índice de crescimento (9,36%) entre os dez maiores produtores, mais até do que o Paraná, e tem demonstrado um arranjo produtivo local que permitiu essa ampliação nos últimos anos.”

Santa Catarina e Minas Gerais também registraram expansões relevantes, com altas de 7,28% e 6,46%, respectivamente.

A tilápia na mesa do brasileiro: uma década de transformação

O crescimento da produção tem correspondência direta no consumo. O consumo de tilápia no Brasil cresceu 93,2% na última década, passando de 1,47 kg/hab/ano para 2,84 kg/hab/ano, segundo levantamento da Peixe BR. A espécie, que já representa 68,36% da produção total de peixes de cultivo no país, deixou de ser uma proteína de nicho para ocupar espaço fixo no cardápio de milhões de famílias.

Segundo a Peixe BR, a produção e o consumo da tilápia vêm crescendo a uma média anual de 10,3% nos últimos 11 anos — o melhor desempenho entre todas as proteínas animais produzidas no Brasil. O dado posiciona a espécie em uma categoria à parte dentro do agronegócio nacional.

Proteína acessível e o perfil do consumidor brasileiro

A tilápia conquistou um perfil de consumidor diversificado — e isso inclui as classes de menor renda. Em 2025, enquanto a carne bovina subiu quase 25% e a carne suína registrou alta de 21,2%, os pescados avançaram apenas 2,1%, impulsionando uma mudança clara no comportamento de compra ao longo do ano, conforme informações da empresa Scanntech.

Entre janeiro e setembro de 2025, o consumo de peixes cresceu 8,2%, demonstrando que o brasileiro está ajustando o cardápio para equilibrar o orçamento, e que o pescado deixou de ser escolha restrita a períodos sazonais. Meses como janeiro, julho e agosto — fora do calendário da Quaresma — registraram as maiores altas de consumo.

Priscila Ariani, diretora de Marketing da Scanntech, empresa especializada em dados de varejo, contextualiza o movimento de migração do consumidor:

“O consumidor tem revisto suas escolhas para adequar o orçamento. A alta da carne bovina levou os brasileiros a buscar alternativas, ampliando o consumo de peixes com melhor custo-benefício.”

O preço da tilápia no varejo paranaense, por exemplo, registrou queda de 5% no filé em relação a 2025, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), tornando-a ainda mais competitiva frente a outras proteínas.

Embora o frango ainda lidere em custo absoluto por porção proteica, peixes como a tilápia, o cação e a pescada figuram entre as opções mais acessíveis dentro do segmento de pescados — e têm vantagens nutricionais que justificam a escolha, especialmente para populações em situação de vulnerabilidade alimentar.

Valor nutricional que justifica o consumo regular

A composição nutricional da tilápia reforça seu apelo tanto para consumidores conscientes quanto para famílias que buscam proteína de qualidade com baixo custo. De acordo com a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), da USP, um filé de 120 gramas contém 22 gramas de proteína de alto valor biológico e apenas 2,8 gramas de gordura total, sendo 0,9 grama de gordura saturada. O peixe é livre de carboidratos, o que o torna ideal para dietas equilibradas e controle de peso.

A tilápia também é rica em vitaminas do complexo B e minerais essenciais como o fósforo — fundamental para a formação de ossos e dentes, a produção de energia celular e o bom funcionamento do sistema nervoso e imunológico. Esses atributos tornam o consumo especialmente indicado para crianças, idosos e pessoas em fase de recuperação.

Tendências e olhar para o futuro

A tilápia é considerada pela FAO a proteína com maior crescimento global, com aumento de 3,1% de 2022 para 2023. No Brasil, a espécie já gerava uma receita de R$ 9 bilhões em 2023 e o país ocupa a quarta posição mundial em produção, atrás de China, Indonésia e Egito.

No mercado externo, o setor também avança. Em 2024, o volume exportado de tilápia dobrou, alcançando 12.463 toneladas e receita de US$ 55,65 milhões — crescimento de 138%. Os Estados Unidos foram o principal destino, respondendo por 94% das vendas, e o Brasil se consolidou como o segundo maior exportador de filé fresco de tilápia para aquele mercado.

Para o presidente da Peixe BR, o sucesso da tilápia não é fruto do acaso:

“A tilápia reúne características que a tornam única no mercado: é um peixe de carne branca, sabor suave, sem espinhas e com padrão consistente. Agrada desde o consumidor que busca praticidade até o que valoriza qualidade e saudabilidade.”

A expansão geográfica da produção, com o fortalecimento de novos polos no Nordeste e no Centro-Oeste, e o crescimento consistente do consumo interno indicam que a tilápia está longe de atingir seu teto. Para o setor, a questão agora é menos sobre se a espécie vai crescer, e mais sobre como estruturar a cadeia para sustentar essa trajetória.


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