Levantamento da APqC mostra que sete linhas de pesquisa restantes dependem de apenas um cientista cada, e alerta feito em 2009 sobre o risco de apagão nunca foi resolvido
O Centro de Grãos e Fibras do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), perdeu dez programas de pesquisa em melhoramento genético nas últimas décadas. A causa é a falta de reposição de pesquisadores aposentados ou falecidos.
Um levantamento da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) mapeou o problema na unidade, sediada na Fazenda Santa Elisa, em Campinas. Arroz, crotalária, algodão, mamona, girassol, gergelim, aveia, trigo, triticale e soja tiveram suas pesquisas de melhoramento interrompidas.
Essas linhas eram responsáveis pelo desenvolvimento de novas cultivares e pela manutenção de acervos genéticos que hoje integram as coleções do Instituto.
Sete programas restantes dependem de um único pesquisador
A situação não se limita aos programas já paralisados. A APqC identificou outros sete programas de melhoramento mantidos atualmente por apenas um pesquisador do Centro: adubos verdes, milho, milho-pipoca, grão-de-bico, sorgo, sorgo forrageiro e vassoura.
Algumas dessas linhas seguem produzindo sementes, mas sem a presença de um melhorista dedicado. Para a APqC, trata-se de um esforço pontual que não garante a continuidade dos programas.
Sobre o significado dessa lacuna para a segurança alimentar do Estado, Helena Dutra Lutgens, presidente da APqC, destaca:
“São linhas de pesquisa diretamente relacionadas à produção de alimentos e à segurança alimentar. Permitir que programas construídos durante décadas sejam interrompidos por falta de reposição de pesquisadores demonstra uma negligência grave do Estado com um patrimônio científico que pertence à sociedade.”
Bancos de germoplasma também sofrem com a falta de equipe
Os bancos de germoplasma do IAC conservam a diversidade genética usada no desenvolvimento de cultivares resistentes a doenças, pragas, seca e altas temperaturas. Parte desse material não está mais disponível no mercado, e o valor de um acesso genético pode só se revelar anos depois de armazenado.
Esses acervos exigem manejo contínuo: sementes perdem capacidade de germinação com o tempo e precisam ser replantadas e multiplicadas em campo, um trabalho que envolve técnicos especializados e, em culturas como o milho, polinização manual controlada.
A falta de manutenção já provocou perdas concretas, segundo a associação. O germoplasma de girassol foi comprometido após o falecimento da pesquisadora responsável pelo programa.
Diferença salarial dificulta reposição de quadros
Além das aposentadorias e falecimentos, o Centro de Grãos e Fibras perdeu três pesquisadores que migraram para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A APqC aponta a diferença salarial como um dos principais fatores.
Um pesquisador científico paulista no último nível da carreira recebe menos da metade do salário de um colega da Embrapa, que ainda conta com benefícios por tempo de serviço e titulação.
A Lei Complementar nº 1.435/2025, em vigor desde dezembro de 2025, também mudou a estrutura da carreira, extinguindo o Regime de Tempo Integral e ampliando de seis para 18 os níveis de progressão funcional. A Justiça de São Paulo, em ação movida pela APqC, impediu o Estado de exigir a adesão ao novo regime remuneratório antes da regulamentação completa da lei.
Alerta sobre o apagão científico já tem 17 anos
O problema não é novo. Um relatório técnico do próprio IAC, de agosto de 2009, já projetava que a falta de reposição poderia reduzir o quadro de pesquisadores em até 79% em dez anos.
Na época, o Centro de Grãos e Fibras tinha 22 pesquisadores, após perder 15 profissionais entre 2005 e 2008. Hoje, restam sete cientistas na unidade.
O último concurso para pesquisadores dos institutos ligados à SAA foi autorizado em 2022 e abriu 37 vagas, divididas entre sete institutos, incluindo o IAC. A APqC considera o número insuficiente diante da redução acumulada de quadros. Neste ano, o governo paulista também promoveu um Programa de Demissão Incentivada e extinguiu mais de cinco mil cargos das carreiras de apoio à pesquisa.
Sobre o impacto da paralisação das pesquisas na cadeia produtiva, Lutgens afirma:
“É a pesquisa que desenvolve variedades mais resistentes, permite produzir com menos insumos, responde às mudanças climáticas e contribui para reduzir perdas. Desmontar essa estrutura significa comprometer a capacidade do Estado de responder aos desafios que já estão colocados para a agricultura.”
