Dependência de insumos importados, avanço dos biológicos e o papel estratégico do Brasil na cadeia global de alimentos pautam encontro com lideranças do setor.
O cenário geopolítico e a volatilidade de preços de commodities agrícolas não afetam apenas o produtor rural — chegam direto ao prato do consumidor e ao cardápio dos operadores de agronegócio. Foi com esse pano de fundo que o Seminário LIDE Agronegócio, realizado em 8 de abril na Casa LIDE, em São Paulo, reuniu nomes de peso do setor para discutir os caminhos da agricultura brasileira. Os temas que dominaram o debate — dependência de fertilizantes importados, avanço dos bioinsumos e posicionamento do Brasil na segurança alimentar global — têm implicações diretas para quem compra, transforma e serve alimentos.
Os dados apresentados no evento são expressivos: até 90% dos fertilizantes utilizados no Brasil vêm do exterior. Para operadores de agronegócio e compradores de insumos, isso significa que oscilações em mercados como o russo ou o chinês podem impactar o custo da soja, do milho e de proteínas animais em questão de semanas. A discussão sobre soberania produtiva, portanto, é também uma discussão sobre previsibilidade de custos na cadeia alimentar.
Vulnerabilidade que vem de fora
A senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, foi direta ao tratar da exposição do agro brasileiro às instabilidades externas. Ela ressaltou que a dependência estrutural de fertilizantes importados deixa o produtor rural à mercê de riscos geopolíticos e flutuações de preço que não estão sob controle nacional.
“Estamos vendo as dificuldades que o Brasil e o resto do mundo enfrentam nesse momento.” — Tereza Cristina, senadora e ex-ministra da Agricultura
A declaração sintetiza um alerta que o setor de alimentos conhece bem: quando o insumo encarece lá atrás na cadeia, o impacto chega até o menu. Chefs, compradores e gestores de operações precisam estar atentos a esse ciclo.
Bioinsumos como resposta estratégica
Diante desse cenário, a adoção de bioinsumos ganha peso como alternativa concreta — e não apenas como tendência de marketing sustentável. Tereza Cristina destacou que o Brasil já lidera globalmente o uso de defensivos biológicos, com mais de 60% dos agricultores incorporando essas soluções. O mercado de bioinsumos no país registrou crescimento de 15% na safra 2023/2024, atingindo R$ 5 bilhões em vendas, conforme dados da CropLife Brasil.
Para o agronegócio, o avanço dos biológicos tem implicação concreta: ingredientes produzidos com menor carga química respondem melhor às exigências de rastreabilidade e sustentabilidade que grandes redes e operadores já incorporam em seus critérios de compra. A origem do insumo agrícola começa a fazer diferença no contrato de fornecimento.
“O Brasil é o estômago, o pulmão e o coração do mundo”
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues trouxe ao debate uma perspectiva mais ampla sobre o papel do agro brasileiro na alimentação global. Ele comparou o orgulho que os europeus têm de sua agricultura — construída como pilar do desenvolvimento econômico e social — com o desconhecimento da maioria dos brasileiros sobre a relevância do setor.
“Os quatro fantasmas modernos: segurança alimentar, energia, clima, economia, estão todos administrados no Brasil.” — Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura
Rodrigues defendeu que o Brasil é o único país do mundo com estrutura de produção em clima tropical capaz de viabilizar até quatro safras por ano na mesma área, sem necessidade de desmatamento. Um diferencial competitivo que o mercado global de alimentos ainda subestima — e que o agronegócio pode explorar melhor na narrativa de origem dos ingredientes.

Tecnologia, dados e integração produtiva
Alfredo Miguel Neto, diretor da John Deere no Brasil, apresentou a meta da empresa de alcançar 50 milhões de hectares em ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), sistema que combina cultivo, criação animal e florestas em uma mesma área, com ganhos de produtividade e sustentabilidade.
“Temos no Brasil clima, água, solo, biomassa e gente. Vantagem comparativa e competitiva. Precisa adicionar tech para realizar o crescimento da produção no agro nacional usando genética, IA, dados organizados.” — Alfredo Miguel Neto, diretor da John Deere
A declaração aponta para um agro cada vez mais orientado por dados — e isso tem reflexo direto na qualidade e rastreabilidade dos ingredientes que chegam à cozinha profissional.
Crédito, sustentabilidade e novos instrumentos financeiros
O deputado federal Arnaldo Jardim, líder do agronegócio na Câmara dos Deputados, trouxe um dado relevante para o setor: 30% dos produtores rurais brasileiros já não dependem do Plano Safra para financiar sua produção. Instrumentos como CRA, Fiagro e seguros agrícolas ampliaram as opções de crédito disponíveis, contribuindo para maior resiliência financeira do setor.
Jardim também destacou a reaproximação dos ambientalistas com o produtor rural, impulsionada pelas iniciativas de reserva florestal e pelo uso crescente de defensivos biológicos — um movimento que fortalece a imagem do agro brasileiro no mercado internacional e no varejo de alimentos.
