Diretor-geral da organização destaca que setor agrícola recebeu apenas 4% dos recursos climáticos em 2023, apesar de poder reduzir um terço das emissões globais
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apresentou na COP30, em Belém, um alerta contundente sobre a lacuna de financiamento climático que compromete a transformação dos sistemas agroalimentares globais. Transformar esses sistemas para torná-los mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis é considerado crítico para atingir as metas do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. No entanto, o déficit persistente de recursos financeiros para o setor agrícola representa “uma oportunidade perdida” para um setor que poderia reduzir as emissões globais em até um terço.
A mensagem foi entregue pelo diretor-geral da FAO durante o Diálogo de Líderes da Plenária Geral da Cúpula do Clima no Brasil, convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O encontro reuniu líderes mundiais, ministros e representantes de organizações internacionais para discutir soluções para enfrentar a crise climática por meio de transições energéticas justas e sustentáveis, além da conservação de florestas e biodiversidade.
Potencial subutilizado dos sistemas agroalimentares
QU Dongyu, diretor-geral da FAO, ressaltou o papel da entidade em prol da segurança alimentar:
“Desde a restauração de terras agrícolas degradadas até culturas resilientes e aquicultura e pecuária sustentáveis, temos as soluções que entregam resultados em todos os setores.”
Na região amazônica brasileira, projetos agroflorestais estão restaurando terras degradadas enquanto apoiam comunidades locais – uma tripla vitória para biodiversidade e diversidade alimentar, para segurança alimentar e para o clima.
A FAO enfatiza que soluções agroalimentares baseadas em ciência podem desempenhar papel fundamental na redução de emissões, no sequestro de carbono, na restauração de ecossistemas e no fortalecimento da resiliência, garantindo simultaneamente segurança alimentar e nutrição para 1,2 bilhão de pessoas cujos meios de subsistência dependem desses sistemas.
Disparidade no financiamento climático
Apesar do potencial demonstrado, o investimento permanece muito abaixo do necessário para entregar a transformação dos sistemas agroalimentares em escala. Mesmo com o aumento de recursos do Fundo Verde para o Clima e do Fundo Global para o Meio Ambiente, silvicultura, pecuária, pesca e produção agrícola juntas receberam apenas 4% do total de financiamento climático para o desenvolvimento em 2023.
QU Dongyu, diretor-geral da FAO, afirma:
“Para um setor que pode entregar um terço das reduções globais de emissões, essa lacuna não é apenas desigual – é uma oportunidade perdida. Ao negligenciar os sistemas agroalimentares, estamos deixando um dos caminhos mais eficazes para o crescimento de baixas emissões inexplorado.”
Chamado à ação para manejo integrado de incêndios
Na quinta-feira, o diretor-geral da FAO participou de uma sessão temática da COP30 sobre florestas e oceanos que marcou o lançamento do Chamado à Ação sobre Manejo Integrado de Incêndios e Resiliência a Incêndios Florestais. A iniciativa tem como objetivo mudar de supressão reativa de incêndios para estratégias proativas e preventivas por meio do manejo integrado.
Liderada pelo Brasil e endossada por 50 países, além da FAO, da Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o Chamado à Ação insta os governos a irem além da supressão reativa de incêndios, enfatizando prevenção e preparação através da combinação de conhecimento científico e tradicional com tecnologias modernas.
O framework inclui 22 ações estratégicas para ampliar a prevenção de incêndios florestais, empoderar comunidades locais e fortalecer a cooperação transfronteiriça. Reconhece o Hub Global de Manejo de Incêndios, hospedado pela FAO, como mecanismo chave de entrega do Chamado à Ação em coordenação com países e redes regionais de gerenciamento de incêndios.
Agenda da FAO na COP30
A FAO vê a COP30 como momento crítico para avançar os esforços globais para enfrentar os impactos da crise climática, garantindo segurança alimentar e nutrição para as gerações presentes e futuras. A organização continua trabalhando com países e parceiros para assegurar que agricultura e segurança alimentar permaneçam no centro das negociações, incluindo discussões sobre a Meta Global de Adaptação, perdas e danos, contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) e Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), financiamento climático, tecnologia e transição justa.
A FAO também apoia a Agenda de Ação da Presidência da COP30, incluindo novas iniciativas em agricultura, florestas e bioeconomia. A Parceria Alimentos e Agricultura para Transformação Sustentável (FAST), hospedada pela FAO, continuará servindo como mecanismo COP-a-COP, garantindo que os sistemas agroalimentares permaneçam centrais nos diálogos da COP e apoiando as iniciativas da Presidência na implementação pós-COP.
Através da Parceria FAST, a FAO está apoiando o acelerador Investimento em Agricultura Resiliente para Degradação Zero da Terra (RAIZ), esforço global sob a Agenda de Ação da Presidência da COP para desbloquear investimentos para a restauração de terras agrícolas degradadas.
A FAO co-organiza pelo quarto ano consecutivo o Pavilhão de Alimentos e Agricultura com o CGIAR, promovendo diálogo multisetorial dentro e ao lado das negociações, e contribui para o Pavilhão Florestal em seu papel como presidente da Parceria Colaborativa sobre Florestas.
Durante a Conferência, a FAO promoverá ou lançará uma série de publicações e resumos de políticas, incluindo atualização sobre as interações entre agricultura, sistemas alimentares e mudanças climáticas, análise dos Planos Nacionais de Adaptação Globais (NAPs), relatório sobre financiamento climático para o desenvolvimento de sistemas agroalimentares, além de pesquisas sobre os benefícios climáticos de florestas e árvores para a agricultura e sobre calor extremo e agricultura.
Leia mais:








