Resultado de 18 anos de pesquisa, nova cultivar chega ao mercado gaúcho e catarinense com atributos que favorecem o enoturismo, o sistema “colha e pague” e a substituição da tradicional uva Itália
A Embrapa Uva e Vinho, unidade sediada em Bento Gonçalves (RS), apresentou oficialmente ao setor produtivo da Região Sul a BRS Pérola, nova cultivar de uva branca sem sementes desenvolvida para aliar alta produtividade à facilidade de manejo. A novidade, fruto de cruzamento genético realizado em 2004, chegou ao campo depois de mais de 18 anos de pesquisa, avaliação e validação técnica conduzida em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).
O lançamento oficial aconteceu em 19 de fevereiro de 2026, durante dia de campo realizado no município de Alto Feliz (RS), e a cultivar também ganhou destaque na tradicional Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS).
As avaliações conduzidas na Serra Gaúcha e em Santa Catarina indicam potencial produtivo de até 30 toneladas por hectare com o emprego da técnica de cobertura plástica — o chamado cultivo protegido. A BRS Pérola se soma ao portfólio de cultivares sem sementes já desenvolvidas pelo Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil, que inclui a BRS Vitória, a BRS Isis e a BRS Melodia, ampliando as alternativas para o consumo in natura na região. Mudas já podem ser reservadas junto a viveiristas licenciados pela Embrapa.
Uma resposta à demanda do mercado regional de uvas finas de mesa
A Serra Gaúcha, responsável por mais de 36 mil hectares cultivados com uva no Rio Grande do Sul, tem apontado uma janela crescente para uvas de mesa do tipo fino, vendidas tanto diretamente nas propriedades quanto em pequenos estabelecimentos. A expansão do enoturismo na região impulsionou, nos últimos anos, o interesse dos produtores por variedades que agreguem valor à experiência do visitante — e a ausência de sementes é um atributo cada vez mais valorizado, especialmente entre o público jovem.
O pesquisador João Maia, da Embrapa Uva e Vinho, contextualiza a lacuna que a BRS Pérola vem preencher. Ele ressalta a oportunidade gerada pelo crescimento do turismo rural e aponta o sistema de venda direta como diferencial econômico para os produtores:
“O aumento do turismo rural e do enoturismo vem estimulando os investimentos no plantio de uvas de mesa para venda na propriedade, no sistema ‘colha e pague’. Consegue-se, assim, ampliar os lucros com a venda direta aos consumidores.”
Características agronômicas e diferenciais da BRS Pérola
As bagas da BRS Pérola apresentam semelhança com a Thompson Seedless, referência no mercado de uva branca sem sementes produzida no Vale do São Francisco. Entre os atributos que diferenciam a nova cultivar estão a forma alongada, a textura crocante e firme, a coloração amarelo-vivo e o sabor neutro com equilíbrio entre açúcares e acidez. Ao contrário de variedades mais compactas, a BRS Pérola forma cachos com baixa compacidade — ou seja, mais soltos —, o que facilita as operações de raleio e reduz a demanda por mão de obra.
A pesquisadora Patrícia Ritschel, uma das coordenadoras do programa Uvas do Brasil, detalha o sistema de produção recomendado e destaca o potencial produtivo alcançado com a poda mista:
“As plantas apresentam boa fertilidade de gemas em varas médias e isso permite alcançar produtividades entre 25 a 30 toneladas de uvas por hectare, com o emprego da poda mista.”

A recomendação técnica da Embrapa para o cultivo da BRS Pérola prevê o sistema de latada, com espaçamento de 2,50 metros entre filas e 2,00 metros entre plantas, conduzido sobre o porta-enxerto Paulsen 1103 e obrigatoriamente sob cobertura plástica. O detalhamento do manejo está disponível na Circular Técnica da BRS Pérola, publicada pela Embrapa Uva e Vinho. A cultivar não é recomendada para o Semiárido brasileiro.
Validação no campo: a experiência do viticultor Jair Freiberger

Em seu terceiro ano consecutivo de produção da BRS Pérola, o viticultor Jair Freiberger, de Alto Feliz (RS), foi um dos validadores da nova cultivar e recebeu o dia de campo de lançamento em sua propriedade.
Com um parreiral de quase um hectare dedicado a diferentes variedades no sistema “colha e pague”, ele aposta na receptividade do público consumidor diante dos atributos visuais e sensoriais da nova uva. Para Freiberger, o apelo à nova geração de consumidores é claro:
“Ela é uma opção muito interessante e que traz três grandes diferenciais que tenho certeza que vão fazer sucesso. A baga mais alongada, a coloração amarelo vivo e a crocância conquistarão os clientes.”
Ciência pública como instrumento de desenvolvimento e inovação

Para a liderança da Embrapa Uva e Vinho, o lançamento da BRS Pérola representa mais do que um novo produto para o produtor: é a materialização do papel da pesquisa pública na cadeia vitivinícola brasileira. Em um contexto em que a safra de uvas 2025/2026 do Rio Grande do Sul projeta colheita superior a 900 mil toneladas — com estimativa de crescimento de até 10% em relação a uma safra considerada normal, segundo dados da Embrapa e da Emater/RS-Ascar —, a disponibilização de novas cultivares adaptadas às condições regionais é estratégica.
Adeliano Cargnin, chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho, reafirma o compromisso institucional com a geração de soluções que impactam diretamente o campo. Para ele, a BRS Pérola tem potencial para fortalecer a viticultura de mesa na Serra Gaúcha e consolidar a ciência pública como motor de desenvolvimento:
“A BRS Pérola será uma alternativa para a Serra Gaúcha, capaz de agregar valor à produção, fortalecer a viticultura de mesa e reafirmar o papel da ciência pública como instrumento de desenvolvimento, inovação e sustentabilidade para a agricultura brasileira.”
Disponibilidade de mudas e viveiros licenciados
A BRS Pérola será inicialmente comercializada por dois viveiros licenciados pela Embrapa: a Viecelli Viveiros, de Videira (SC), e a MP Mudas, de Vacaria (RS), que já estão recebendo pedidos para produção de mudas destinadas ao ciclo de 2026. Outros viveiristas interessados em obter material básico podem entrar em contato com a Estação Experimental de Canoinhas (SC), pelo e-mail cpact.eecan@embrapa.br ou pelo telefone (47) 3627-4199. As reservas devem ser realizadas entre abril e junho, com entrega prevista de julho a agosto. A Embrapa orienta que produtores façam a reserva de mudas com antecedência mínima de um ano.
Com o lançamento da BRS Pérola, o portfólio de cultivares de uva de mesa sem sementes recomendadas para cultivo protegido na Região Sul fica ainda mais diversificado, ampliando as possibilidades de produção, a rentabilidade das propriedades e a atratividade do enoturismo gaúcho e catarinense para um público consumidor em transformação.
O tema da viticultura sustentável e da inovação na cadeia produtiva de uvas e espumantes no Brasil tem sido acompanhado de perto pelo Food Forum News. Em matéria sobre a Chandon e seu compromisso com a viticultura sustentável, o portal registrou como a expansão do enoturismo e as boas práticas agrícolas estão transformando o setor vitivinícola nacional — cenário no qual o lançamento de cultivares como a BRS Pérola se insere com relevância estratégica.
