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Levantamento no sudoeste de Goiás mostra que abelhas silvestres podem aumentar em até 7% o peso dos grãos, reforçando o elo entre biodiversidade e produtividade

Um estudo conduzido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia identificou 27 registros inéditos de abelhas associadas à cultura da soja no Brasil. As espécies fazem parte de um total de 40 encontradas em lavouras da região de Rio Verde e Montividiu, no sudoeste de Goiás, e nunca haviam sido citadas pela literatura científica.

Considerando também os fragmentos de mata nativa no entorno das plantações, o levantamento chegou a 53 espécies de abelhas, distribuídas em cinco famílias: Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae. Antes da publicação, revisões científicas somavam apenas 12 espécies nativas associadas à soja no país.

Os resultados foram publicados no Journal of Applied Entomology, sob o título Bioinput Use and Native Vegetation Fragments are Associated With Higher Bee Community Evenness in Large-Scale Soybean Crops. A pesquisa contou com a colaboração da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde, dentro do projeto Regenera Cerrado, parceria entre instituições de pesquisa, produtores rurais e a Cargill.

O impacto direto na produtividade da soja

Além do valor ecológico, o estudo aponta um benefício econômico concreto: a presença de abelhas silvestres nas lavouras pode elevar o peso médio dos grãos de soja em 7%. O dado reforça que a conservação de polinizadores não é apenas uma pauta ambiental, mas também uma estratégia de produtividade.

Do total de 764 abelhas coletadas nas amostragens, 89% eram espécies nativas do Brasil. Apenas 11% pertenciam à Apis mellifera, a abelha africanizada usada na produção de mel, o que evidencia o papel central das espécies silvestres na polinização da soja no Cerrado.

O efeito dos defensivos químicos sobre as comunidades de abelhas

A pesquisa também revela como o manejo agrícola influencia diretamente a diversidade de polinizadores. Em propriedades com uso intensivo de inseticidas e fungicidas sintéticos de amplo espectro, os pesquisadores identificaram queda acentuada na equitabilidade das comunidades de abelhas, termo que mede o quão uniformemente as espécies estão distribuídas em um ambiente.

Segundo a pesquisadora Carmen Pires, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, essas áreas correm o risco de parecer produtivas em uma contagem rápida de insetos, mas na prática abrigam pouca diversidade real.

“Uma área altamente pulverizada com químicos pode apresentar um número elevado de insetos na contagem rápida, mas quase todos pertencem a uma única espécie resistente. Funcionalmente, a lavoura torna-se um deserto de biodiversidade, vulnerável e dependente de intervenções artificiais constantes.”

Armadilhas do tipo “pan trap azul” instaladas em uma área de vegetação natural adjacente ao campo de soja. Foto: Davi de Lacerda Ramos

Bioinsumos e agricultura regenerativa como caminho

Fazendas que substituíram parte dos defensivos de alta toxicidade por bioinsumos — como bactérias e fungos usados no controle biológico de pragas e na fertilização do solo — mantiveram comunidades de abelhas mais equilibradas e diversas. Esses produtos são classificados na Classe IV de risco ambiental, considerada pouco perigosa.

O efeito é visível na própria biologia das abelhas encontradas: cerca de 60% das espécies identificadas no sudoeste de Goiás fazem seus ninhos diretamente no solo. Práticas de agricultura regenerativa, como o menor revolvimento da terra e a manutenção da palhada sobre o solo, ajudam a proteger esses ninhos subterrâneos dentro da própria lavoura.

Segundo Pires, sem o tráfego de máquinas destruindo os abrigos e sem a penetração de venenos no solo, as abelhas conseguem sobreviver de uma safra para a outra.

“Sem tratores desfazendo seus abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra, prontas para polinizar a próxima floração.”

O estudo mostra ainda que 44,7% das espécies coletadas têm hábitos solitários, o que significa que não podem ser manejadas em colmeias como as abelhas sociais. Elas dependem exclusivamente das condições ecológicas da fazenda para sobreviver, o que torna as práticas de conservação ainda mais determinantes para manter esse serviço de polinização gratuito.

O Cerrado como reserva de polinizadores

O levantamento também mapeou a relação entre os fragmentos de vegetação nativa do Cerrado e as lavouras de soja adjacentes. Das abelhas coletadas nas matas vizinhas, a espécie mais representativa foi a Ceratina duplocarinata, enquanto nas áreas de soja predominou o gênero Dialictus.

Quanto maior a distância da lavoura em relação às bordas de Cerrado nativo, menores foram a riqueza e a abundância de abelhas encontradas nas flores de soja. A mata funciona como abrigo permanente, oferece locais de nidificação para 18% das espécies, que fazem ninhos em troncos caídos, e serve de fonte de alimento nos períodos em que a soja não está florescendo.


Treinamento no uso da rede entomológica em áreas de soja. Foto: Davi de Lacerda Ramos

Metodologia de campo traz nova descoberta

Para chegar aos resultados, os pesquisadores compararam diferentes métodos de coleta e identificaram diferenças relevantes de eficiência. As pan traps, armadilhas coloridas de azul usadas para atrair os insetos, foram responsáveis por 95% das capturas do estudo, um total de 728 indivíduos, identificando 33 espécies distintas.

Já a rede entomológica, método tradicional de coleta ativa, registrou apenas sete espécies. Segundo os pesquisadores, o uso exclusivo de redes tende a subestimar a riqueza real de abelhas nas lavouras de soja, principalmente pela densidade das plantas e pelo comportamento discreto das espécies nativas menores.

Para Pires, os dados de campo reforçam que o futuro da produção agrícola brasileira passa pelo equilíbrio ecológico entre lavoura e mata nativa.

“A pesquisa da Embrapa consolida, com dados de campo, que o futuro da agricultura nacional depende do equilíbrio ecológico. Os insetos polinizadores são os amigos invisíveis das lavouras, mas o manejo inadequado pode colocá-los em risco. Proteger as abelhas nativas e o Cerrado que as abriga é, acima de tudo, preservar a economia e a segurança alimentar do Brasil.”

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